domingo, 6 de dezembro de 2015

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Unicamp promove criacionismo obrigatório a seus alunos - leitores comentam

Subi os comentários dos leitores na postagem original a respeito de uma palestra na Unicamp intitulada "Ciência e fé", mas publico também nesta postagem à parte para uma melhor indexação (maior visibilidade não terá porque o NAQ é muito pouco visitado).

-----------------------
Mayara
"O professor Tessler afirmou que não estava na palestra, sendo assim, fontes que estavam presentes seriam mais confiáveis para uma descrição do que de fato foi falado. Apenas para citar uma fonte que realmente assistiu a palestra: Luciana 'estou impressionada na quantidade de questionamentos e críticas de pessoas que nem assistiram. A palestra é sim sobre fisiologia e como o nosso corpo reage a situações ligadas à 'fé' e afins.... Sobre a glândula pineal, etc... É muito interessante e está longe de ter uma conotação religiosa. Sobre a obrigatoriedade? É a abertura de um evento de IC, uma palestra... poderia ser qualquer tema. Qual é o problema?! Vc entra, não gostou, sai! Nunca vi tanto besteirol sendo discutido em um grupo de uma universidade como essa. O povo posta qualquer coisa e não percebe as dimensões que isso pode chegar. Lamentável!!! E o tal Leandro (professor???!!!) nem assistiu e fica dizendo que 'segundo relatos é de fundo religioso'.... por favor, né?!'. O que inseri entre aspas foi o que ela mesma escreveu no facebook no grupo de discussão da Unicamp.

Também acho válido ressaltar o comentário da professora que ministra Evolução na Unicamp, Mariana Nery. Ela mesma postou no grupo de discussões da universidade: 'INACREDITÁVEL, como hoje em dia as pessoas compartilham informações antes de checar. Muito irresponsável da parte de vocês primeiro postar algo que não diz muito (afinal, dou aula de EVOLUÇÃO na UNICAMP e na minha aula poderiam muito bem ter fotografado slides parecidos, mas cujo teor jamais versa sobre o criacionismo/DI). EXTREMAMENTE IRRESPONSÁVEL que compartilhem e se revoltem com tão pouco. Compartilharem um post de alguém que NEM ESTEVE na palestra e que diz que 'Não era uma palestra criacionista, mas com um fundo religioso segundo relatos.' (publicado no twitter dele). O professor Miguel, extremamente querido e respeitado, fala sobre os mecanismos fisiológicos da fé. Não estava doutrinando ninguém. Postagem totalmente sem contexto e que não quer dizer NADA. Apurem antes de se deixar levar por posts de twitter e facebook. Conversem com alguém que esteve na palestra, ou melhor, com o próprio palestrante. APUREM antes de publicar qualquer coisa. Estou profundamente chocada com vocês.'"
-----------------------

-----------------------
"Olá, estava na palestra também, e, de fato, não foi uma palestra criacionista. Vou copiar o que escrevi na página do Eli Vieira porque já escrevi isso em várias páginas da internet nessa última hora, desculpe:

"Eu estava nessa palestra aí e ela de forma alguma foi uma palestra criacionista. Na verdade foi um elogio à ciência, na qual o palestrante contrapôs o modo de pensamento científico à fé. Para isso, ele apresentou narrativas bíblicas e discursos criacionistas que foram ironizados durante a apresentação. Pessoalmente, não gostei da palestra, achei muito debochada e superficial. Mas definitivamente foi uma palestra pró-ciência. Não senti nem mesmo o 'tom religioso'. Na verdade, o que o palestrante fez foi usar argumentos do tipo "Deus ia querer que vc questionasse mesmo" da mesma forma que é comum entre pessoas com descaso pela heresia falar que 'se sexo fosse pecado, não seria tão bom'. Já que o incêndio se alastrou, e foi alastrado por alguém que não estava presente à palestra, diga-se de passagem, acho razoável que você coloque um disclaimer sobre a história em um novo post, já que muita gente não vai descer até aqui nos comentários. No mínimo isso aqui é um caso de 'lei do fulano-cujo-nome-não-sei' sobre ironia na internet, com o agravante que o caso aconteceu no mundo real e foi depenado para ser jogado na web."
-----------------------

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Unicamp promove criacionismo obrigatório a seus alunos

Developing story.

Quando o professor Leandro Tessler, do Cultura Científica, comentou numo almoço que haveria uma palestra obrigatória para os alunos de iniciação científica em exatas e tecnológicas da Unicamp durante o 23° Congresso de Iniciação Científica da Unicamp com o título "Ciência da Fé", nutri a esperança de que poderia ser uma apresentação científica: sobre processos cognitivos e biológicos ligados ao sentimento da fé (eventualmente estudos de genes que estariam correlacionados a uma maior ou menor expressão de religiosidade; estudos de padrões de ressonância magnética funcional de pessoas durante a reza ou exposição a imagens religiosas ou algo assim).

Mas Tessler, que já havia tentado me demover de minha fé na boa fé do evento, demoliu minha ilusão tuitando partes da palestra.





A estratégia da cunha abriu uma fenda, um Grand Canyon, na Unicamp. É preciso uma resposta muito séria da comunidade científica e uma cobrança de responsabilidade da Pró-Reitoria de Pesquisa da instituição.*

Não é apenas um evento perdido aproveitando-se do nome da universidade. É um evento oficial. Não é apenas uma pseudociência defendida em um evento oficial. É a pseudociência apresentada de forma *obrigatória* aos alunos.

Assim que obtiver mais detalhes atualizo esta postagem.

*Upideite(17/nov/2015):




Não considero um plot twist**. Há uma gradação no espectro criacionista. Ainda é preciso uma cobrança de responsabilidade. Ainda que mais matizada do que se, p.e., fosse uma defesa explícita do criacionismo como tentaram fazer uma vez.

Mas é bom dizer que há relatos dizendo que não houve tom religioso.

Upideite(17/nov/2015): Nos comentários, leitora Mayara dá uma versão diferente sobre a palestra:
"O professor Tessler afirmou que não estava na palestra, sendo assim, fontes que estavam presentes seriam mais confiáveis para uma descrição do que de fato foi falado. Apenas para citar uma fonte que realmente assistiu a palestra: Luciana 'estou impressionada na quantidade de questionamentos e críticas de pessoas que nem assistiram. A palestra é sim sobre fisiologia e como o nosso corpo reage a situações ligadas à 'fé' e afins.... Sobre a glândula pineal, etc... É muito interessante e está longe de ter uma conotação religiosa. Sobre a obrigatoriedade? É a abertura de um evento de IC, uma palestra... poderia ser qualquer tema. Qual é o problema?! Vc entra, não gostou, sai! Nunca vi tanto besteirol sendo discutido em um grupo de uma universidade como essa. O povo posta qualquer coisa e não percebe as dimensões que isso pode chegar. Lamentável!!! E o tal Leandro (professor???!!!) nem assistiu e fica dizendo que 'segundo relatos é de fundo religioso'.... por favor, né?!'. O que inseri entre aspas foi o que ela mesma escreveu no facebook no grupo de discussão da Unicamp.

Também acho válido ressaltar o comentário da professora que ministra Evolução na Unicamp, Mariana Nery. Ela mesma postou no grupo de discussões da universidade: 'INACREDITÁVEL, como hoje em dia as pessoas compartilham informações antes de checar. Muito irresponsável da parte de vocês primeiro postar algo que não diz muito (afinal, dou aula de EVOLUÇÃO na UNICAMP e na minha aula poderiam muito bem ter fotografado slides parecidos, mas cujo teor jamais versa sobre o criacionismo/DI). EXTREMAMENTE IRRESPONSÁVEL que compartilhem e se revoltem com tão pouco. Compartilharem um post de alguém que NEM ESTEVE na palestra e que diz que 'Não era uma palestra criacionista, mas com um fundo religioso segundo relatos.' (publicado no twitter dele). O professor Miguel, extremamente querido e respeitado, fala sobre os mecanismos fisiológicos da fé. Não estava doutrinando ninguém. Postagem totalmente sem contexto e que não quer dizer NADA. Apurem antes de se deixar levar por posts de twitter e facebook. Conversem com alguém que esteve na palestra, ou melhor, com o próprio palestrante. APUREM antes de publicar qualquer coisa. Estou profundamente chocada com vocês.'"

Upideite(17/nov/2015): Comentário lateral: A expressão "glândula pineal" me faz soar alguns alarmas. Ela tem uma função importante bem estabelecida na regulação do ritmo circadiano. Mas é alvo de várias hipóteses pseudocientíficas ou não bem estabelecidas ou descartadas promovidas por várias correntes religiosas - muitas dessas visões com raízes na hipótese de Descartes de que a glândula pineal seria a sede da alma.

Comentário lateral 2: Não coloco em questão o profissionalismo e conhecimento do Prof. Dr. Miguel Areas dentro de sua especialidade - e só o cito aqui porque acabou sendo nomeado no comentário (nem reproduzi o tweet em que o nome do professor aparecia). (Vários depoimentos atestam que ele é querido. Mas, mesmo que ele fosse detestado, não deveria mudar a análise do caso.)

Minha encrenca é com a instituição, escalando uma palestra (usando eufemismo) estranha para ICs. Sim, sim, universidade é local para o debate franco e aberto de ideias, para a liberdade de pensamento, pluralidade de pontos de vistas, etc. etc. Só que ainda parece caracterizada a estratégia de cunha.

**Upideite(18/nov/2015): Leitor/a vsiccag corrobora versão da leitura Mayara:
"Olá, estava na palestra também, e, de fato, não foi uma palestra criacionista. Vou copiar o que escrevi na página do Eli Vieira porque já escrevi isso em várias páginas da internet nessa última hora, desculpe:

"Eu estava nessa palestra aí e ela de forma alguma foi uma palestra criacionista. Na verdade foi um elogio à ciência, na qual o palestrante contrapôs o modo de pensamento científico à fé. Para isso, ele apresentou narrativas bíblicas e discursos criacionistas que foram ironizados durante a apresentação. Pessoalmente, não gostei da palestra, achei muito debochada e superficial. Mas definitivamente foi uma palestra pró-ciência. Não senti nem mesmo o 'tom religioso'. Na verdade, o que o palestrante fez foi usar argumentos do tipo "Deus ia querer que vc questionasse mesmo" da mesma forma que é comum entre pessoas com descaso pela heresia falar que 'se sexo fosse pecado, não seria tão bom'. Já que o incêndio se alastrou, e foi alastrado por alguém que não estava presente à palestra, diga-se de passagem, acho razoável que você coloque um disclaimer sobre a história em um novo post, já que muita gente não vai descer até aqui nos comentários. No mínimo isso aqui é um caso de 'lei do fulano-cujo-nome-não-sei' sobre ironia na internet, com o agravante que o caso aconteceu no mundo real e foi depenado para ser jogado na web."

Agora seria o caso de um plot twist. A palestra teria um tom de deboche em relação às narrativas religiosas. Estou usando o futuro do pretérito com aspecto verbal de suposição não porque eu duvide da honestidade do depoimento de vsiccag, mas é porque há depoimentos conflitantes.

sábado, 14 de novembro de 2015

Lie to me, I promise I'll believe*: uma breve lista de sites de notícias fakes

Sites de notícias fakes:
  1. Diário de Barrelas - O terceiro maior jornal de humor da cidade de Barrelas
    http://www.diariodebarrelas.com.br/
  2. Diário Pernambucano - Falsiê, sem Farsas
    http://www.diariopernambucano.com.br/
  3. Escândalo Hoje - Um jornal sem compromisso com a verdade***
    http://escandalohoje.com/
  4. G17
    http://www.g17.com.br/
  5. Joselito Müller - Jornalismo destemido
    http://www.joselitomuller.com/
  6. O Bairrista
    http://obairrista.com/
    (Um estudo sobre O Bairrista)
  7. Sensacionalista - Um jornal isento de verdade
    http://sensacionalista.uol.com.br/
  8. The piauí Herald
    http://revistapiaui.estadao.com.br/herald/
  9. Hariovaldo Almeida Prado - No combate ao comunismo ateu e na defesa da família cristã**
    http://www.hariovaldo.com.br/
  10. The Onion - America's finest news source
    http://www.theonion.com/
  11. World News Daily Report****
    http://worldnewsdailyreport.com/
Uma outra categoria de site de notícias falsas - não há uma intenção explícita de paródia, sátira e diversão. Nem mesmo explicitam que as notícias são falsas. Estes podem ser particularmente perniciosos.

  1. Folha Brasil
    http://afolhabrasil.com.br/

------------------
Desculpe ser estraga-prazeres, mas não é que *eu* não saiba brincar: só acho que tem gente demais compartilhando material dessas fontes achando que são notícias reais.
(Atualizo à medida em que me lembrar - ou ficar sabendo - de mais deles.)
--------------
Um site pra conferir a veracidade de certas informações:
E-farsas.com - Desvendando farsas da web desde 2002
http://www.e-farsas.com/
--------------
Sim, fiquei tentado a incluir na lista fontes como a Veja, O Antagonista e similares. Mas achei melhor concentrar aqui nos jornais satíricos com franco objetivo de publicar notícias falsas para diversão: não fontes que procurem amealhar credibilidade de verdade para espalhar mentiras por razões outras. Também não inclui fontes de baixa credibilidade como Jornal Ciência, HypeScience, Daily Mail..., que fazem sensacionalismo e frequentemente publicam matérias mentirosas, por não terem objetivo explícito de fazer humor.
------------
*Obs. Verso de Strong Enough, Sheryl Crow.

**Upideite(06/dez/2015): Sugestão de André nos comentários.
***Upideite(27/jan/2016): Adido a esta data.
***Upideite(28/jan/2016): Adido a esta data.

domingo, 1 de novembro de 2015

Armas e homicídio: dissuasão não muito persuasiva

A Bancada da Bala articula-se com outros setores conservadores do Congresso para a revogação do Estatuto do Desarmamento. Deputados defendem a liberação da posse de arma por cidadãos comuns com argumentos similares - na verdade exatamente igual - aos dos lobistas pró-armas nos EUA (como a NRA): cidadãos de bem armados inibem a ação de bandidos.

Como apoio à tese, citam um tal estudo de Harvard "comprova que, quanto mais armas os indivíduos de uma nação têm, menor é a criminalidade". Na verdade não é um estudo de Harvard - não foi feito por pesquisadores associados à instituição. Não é nem um estudo formal, foi publicado em uma revista editada por estudantes da universidade, sem revisão por pares (logo, sem indexação). E, claro, contém várias falhas.

De todo modo, temos números nacionais sobre o grau de armamento da população e a taxa de homicídios em vários países de modo que podemos fazer uma análise para testar essa hipótese de dissuasão.

O DataBlog do jornal inglês The Guardian tabulou esses valores em 2012. Levantamento similar já foi feito também por pró-armas - plotando as variáveis e fazendo uma regressão linear obtém uma correlação negativa: de fato, quanto maior o número de armas por cidadão, menor o número de homicídios por 100.000 habitantes-ano (Fig. 1).

Figura 1. Mais armas, menos mortes? Regressão linear entre taxa de homicídios por 100.000 habitantes-ano e número de armas a cada 100 habitantes.

Note-se, porém, que o grau de ajuste é muito baixo, como mostrado pelo R² de apenas 0,0104.

Uma relação geométrica tem um ajuste melhor - mas também baixo (Fig. 2).

Figura 2. Mais armas, mais mortes? Regressão geométrica indica o oposto da regressão linear.

Na verdade, um melhor preditor da taxa de homicídio em um país é o IDH: quanto maior o IDH, menores as taxas homicídio (Fig. 3).

Figura 3. Mais desenvolvido, menos mortes? Regressão linear entre logaritmo de IDH e logaritmo de taxa de homicídio (eliminando-se os pontos com valor 0).

A região com IDH acima de 0,613 [log(IDH)>-0,23] tem um ajuste melhor (Fig. 4) - parece que a mortalidade não varia muito (se mantém mais ou menos alta) para IDH mais baixos.

Figura 4. Mais desenvolvido, menos mortes, então? Entre países com IDH maior do que cerca de 0,6 há uma relação inversa relativamente boa entre desenvolvimento e taxa de homicídios.

Considerando-se países com IDH maior do que 0,613, se eliminarmos a influência do IDH e plotarmos as taxas residuais de homicídio (log das taxa de homicídio menos log das taxas de homicídio esperado para o log de IDH), temos uma relação direta (em termos de log) entre a quantidade de armas disponíveis para a população e taxas de homicídio (Fig. 5) - note-se, no entanto, que o ajuste não é dos melhores: R² - 0,17 (mas bem melhor do que, p.e., o ajuste da relação de proporcionalidade direta entre número de armas na população e taxas de homicídio).

Figura 5. Mais armas, mais mortes? Relação linear entre log(número de armas por 100 habitantes) e log(taxa de homicídio - após correção pelo log de taxa de homicídio esperado pelo log do IDH).

Obs. Esta análise não deve ser levada a ferro e a fogo. Mas está de acordo com a maioria dos estudos mais rigorosos publicados sobre o tema como o de Killias 1993.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Mitos sobre a fosfoetanolamina

1) a fosfoetanolamina passou nos testes pré-clínicos
Não exatamente. Há testes pré-clínicos indicando resultados promissores: in vitro (com células de cultura derivadas de tecidos tumorais humanos) e in vivo (em camundongos com tecidos tumorais humanos). Porém, é discutível de que apenas esses testes sejam suficientes para justificar já a passagem para os testes clínicos (em humanos) - e certamente não justificam a aplicação terapêutica em humanos: o próprio autor principal de vários desses testes, o farmacêutico Adilson Kleber Ferreira, considera que são necessários ainda mais testes pré-clínicos antes de ir para o teste com humanos.

2) a fosfoetanolamina era distribuída há anos para pacientes com tumor, isso prova que é segura
Não. Não foi distribuída de modo controlado com o devido acompanhamento médico. Efeitos colaterais importantes podem ter sido deixados de ser relatados. Se a distribuição é indício de alguma coisa é que falta fiscalização e punição quanto ao exercício irregular de medicina e violação da lei sobre produção e distribuição de compostos com fins terapêuticos.

Além disso, há relatos também da ineficácia da fosfoetanolamina. De novo, isso também não é prova de que a fosfoetanolamina seja ineficaz. É preciso que se façam testes controlados.

3) a fosfoetanolamina é produzida naturalmente pelo organismo humano, então deve ser segura
Pode não ser. A fosfoetanolamina sintética é administrada em doses muito maiores do que a naturalmente produzida (a concentração em tecidos de ratos é por volta de 0,35 g/kg; a dose administrada em testes é de cerca de 0,8 g/kg por via oral; em testes com aplicação intraperitoneal, as doses variam de 0,035 a 0,07 g/kg - em ratos, a DL50 oral da o-fosforiletanolamina é de 5,82 g/kg, em camundongos, a DL50 intravenosa é de 0,639 g/kg**) e pode conter contaminantes - especialmente se produzidas em condições quase artesanais em um laboratório universitário.

*A vitamina D é naturalmente sintetizada pelo corpo humano - a exposição normal ao sol permite a produção endógena de algo entre 15.10^-6 a 15.10^-5 g por dia. Mas doses diárias de 10.000 UI - cerca de 0,00025 g (25.10^-5) - são tóxicas.

4) os casos relatados de pacientes que tomaram a fosfoetanolamina e se curaram mostram que o composto é eficaz
Não. Há uma boa porcentagem de casos de remissão espontânea do câncer. Além disso, não há como atribuir a cura à fosfoetanolamina e não a outras causas (como outras terapias realizadas em conjunto) justamente por falta de controle: os pacientes se curaram por causa da fosfoetanolamina ou a despeito dela?

5) a indústria farmacêutica não tem interesse em algo barato como a fosfoetanolamina
Ao contrário. Algo que *custe* barato pode proporcionar uma margem de *lucro* *maior*. Se 60 cápsulas por mês custam R$ 1,60; se isso for vendido a R$ 1.000, será um lucro muito mais extraordinário do que a margem média da indústria farmacêutica - de 10 a 40% (20% na média). A aspirina movimenta mais de 1 bilhão USD ao ano e dá lucro de 80%, custando centavos.

6) são pacientes terminais, não têm nada a perder em tomar a fosfoetanolamina mesmo sem testes
Não é bem assim. Podem perder a vida, podem ficar em uma situação ainda pior, não sabemos sem os devidos testes.

7) então devem ser feitos imediatamente testes com a fosfoetanolamina
Depende. Como dito no item 1, é discutível que os testes pré-clínicos realizados até o momento sejam suficientes para se passar já para a fase clínica. Mesmo que se considere que seja justificado, há que se pensar na questão dos custos dos estudos: quem devem pagar?

Os pesquisadores detentores da patente do método de síntese de fosfoetanolamina recusaram-se a cedê-la para parceiros - como a Fiocruz - interessados em industrializar o composto e testá-lo. O dinheiro público deve bancar os testes de milhões de reais para que os pesquisadores façam dinheiro sem riscos financeiros maiores caso o composto seja bem sucedido para entrar no mercado?

Por que esse dinheiro deve ser investido na fosfoetanolamina e não nos testes e desenvolvimento de outros compostos tão ou mais promissores? Já há tratamento eficaz para vários tipos de câncer, inclusive para os tipos contra os quais a fosfoetanolamina demonstrou efeito em testes in vitro; por que deve ter prioridade sobre o desenvolvimento de medicamentos para doenças ainda sem cura nem tratamento ou que atingem mais pessoas?

Pode ser que a resposta a essas questões seja favorável a se despender dinheiro público para se testar a fosfoetanolamina, mas isso depende de uma deliberação ponderada sobre o tema. Não de uma troca de desinformação.

(contribuição do físico Leandro Tessler, autor do Cultura Científica)*
"8) Fosfoetanolamina foi sintetizada pela primeira vez na USP
Existe no mercado fosfoetanolamina para venda comercialmente. A equipe da USP desenvolveu uma metodologia alternativa para sua síntese. Se políticos ou juízes querem fornecer o composto a pacientes ao arrepio da lei podem fazê-lo sem envolver a USP que claramente tem uma posição institucional contrária."

9) O caso da fosfoetanolamina encaixa-se no 'uso compassivo'
Pela legislação em vigor, há três situações no Brasil de acesso permitido - após a devida autorização pela Anvisa - a pacientes de compostos medicamentosos ainda sem o registro: o programa de acesso expandido. o uso compassivo e o programa de fornecimento pós-estudo.

Não se trata de nenhum dos casos porque é preciso que se trate de composto que esteja em pesquisa clínica. Até o momento, não se trata disso. Assim que se iniciarem os estudos encomendados pelo MCTI em parceria com a Anvisa, poderá haver a permissão de 'uso compassivo'; a alternativa de 'acesso expandido' será possível somente a partir da fase 3 dos testes. Naturalmente, somente após o término dos testes clínicos, é admissível o 'fornecimento pós-estudo'.

A distribuição realizada até o momento, portanto, não está de acordo com o regulamento da Anvisa: criado em 2013.

*Upideite(31/out/2015): adido a esta data.
**Upideite(02/nov/2015): adido a esta data.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Não é sobre Cachinhos Dourados

Este é meu segundo conto de ficção pretensamente científica (cientificóide mais exatamente). (Terceiro se contarmos um sobre zumbis - não exatamente sobre zumbis - como FC.)
---------------
Huwasuyisha, o pequeno anão cientista, começou a gargalhar. A princípio ninguém entendeu. Huwa explicou o que acabara de ouvir. Então fez-se um silêncio constrangedor. Não que se tivesse dito alguma coisa absurda, houvesse se quebrado alguma norma social. Apenas que os companheiros leigos não conseguiam alcançar o raciocínio de Huwa. Ele, então, começou a explicar o que era tão engraçado naqueles zunidos que ele captara.

O parágrafo acima, na verdade, contém algumas incorreções – um tanto inevitáveis pela necessidade de aproximações conceituais. Do mesmo modo que um “grande pássaro metálico” é uma aproximação do conceito de avião.

'Huwasuyisha' é uma aproximação fonética de algo que nem mesmo é originalmente fonético. Seu nome é dado em termos de ondas gravitacionais, não sonoras. O sistema Ligo seria capaz de detectá-lo – se estivesse algumas dezenas de Gigaparsecs mais próximo – quando emitido por um dos seres a cuja 'espécie' (ou 'tribo') pertence Huwa, os guranihaya (ou garanihaya). A frequência da oscilação interferométrica convertida em som resultaria em uma 'fala' gutural. Mas ainda assim o som resultante seria tão equivalente a 'Huwasuyisha' quanto 'bem-te-vi' corresponde de fato ao canto emitido pela ave. O mesmo para a denominação 'guranihaya'.

O anão é por comparação. Como uma estrela anã é gigantesca em comparação a planetas considerados gigantes. Huwa tem bem algumas centenas de anos-luz em sua dimensão mais longa. Um décimo de seus companheiros nas cercanias. Mas é uma estimativa grosseira. É difícil estabelecer os limites de um indivíduo guranihaya.

É mais incerto que se possa considerar o conjunto de ondas gravitacionais emitidas de 'gargalhadas'. Mas elas são produzidas de modo consistentemente associado a situações de quebras de expectativas. Poderiam, de outro modo, ser interpretadas como 'suspiros de decepção', no entanto.

'Ouvir' certamente não é algo a ser tomado literalmente para percepção e decodificação de sinais constituídos por ondas gravitacionais. 'Silêncio' não é um termo tão ruim para se referir a um período de cessação de sinais comunicativos, mesmo considerando-se o 'ruído' de fundo. O 'constrangedor' é certamente uma licença poética; porém, certamente nada inadequado se compararmos com o uso alternativo de termos como 'de apoio'. Do mesmo modo que 'ouvir', 'dizer' é uma analogia para se referir a uma emissão de sinais: o que os vaga-lumes 'dizem' com sua luz?

'Norma social' é um palpite arriscado; é possível se referir a um conjunto de seres intercomunicantes de algum nível de inteligência de sociedade? Os humanos aceitam falar em 'sociedade das formigas', mesmo considerando-se a inteligência limitada exibida por seus constituintes, principalmente pelas atividades realizadas de modo coordenado garantindo o funcionamento do conjunto. É difícil detectar atividades coordenadas entre os guranihaya. Não há algo que se possa considerar como construção, menos ainda como produto de ações coletivas. Porém, aparentemente há uma cultura desenvolvida. E mesmo uma ciência – o conjunto de conhecimentos acerca do mundo natural e os processos de obter tais conhecimentos. Ainda que não partilhada nem apreciada por todos os indivíduos que se identificam como guranihaya.

Os guranihaya são criaturas – novamente, usando criatura por aproximação conceitual – constituídas não pela matéria comum, mas por uma matéria ainda mais comum (em termos de abundância no universo): a matéria escura. Em princípio a matéria escura interage apenas gravitacionalmente; não forma átomos, pela falta de interação elétrica. Bem, ao menos não átomos como conhecemos. Ocorre que, resultantes do decaimento de oscilons primordiais de inflatons, a própria matéria escura herdou o caráter oscilatório. Oscilons em fases opostas se atraem de modo similar a que partículas de matérias de cargas elétricas opostas se atraem; enquanto oscilons em fases sincrônicas se repelem. 'Átomos' de matéria escura formam 'moléculas' de matéria escura. Níveis maiores de oscilação colocam conjuntos inteiros de 'moléculas' – de bilhões e bilhões e bilhões e bilhões... de mols de 'moléculas' – em ressonância (sem comprometer as oscilações individuais). Massas de tamanho aproximado de uma bola de basquete formam unidades de ressonância. As unidades de ressonância interagem entre si formando sistemas FPUT em vez de termalizarem em sistemas ergódicos e vibrarem em uma mesma frequência. Não está certo se sólitons ou fónons atuam como transportadores de energia ao longo do sistema. Um ou outro serve como base para o processamento básico de sinais no interior dos guranihaya – embora o termo 'interior' seja mal aplicado por ser difícil, como dito, traçar os limites externos de um guranihaya. Um modo de diferenciar um indivíduo de outro é pela frequência mais baixa de oscilação – que envolve todo o sistema. Em teoria. Na prática, há variação dessa frequência, e é difícil de saber se uma dada unidade de ressonância (ou mesmo unidades maiores) faz ou não parte de um indivíduo. Mas isso é um problema de escala – visto a milhões de anos-luz de distância, cada indivíduo parece mesmo um indivíduo e estável (isso se fosse possível vê-los). Humanos também – vistos bem de perto, beeeeem de perto, é difícil delimitar um indivíduo: átomos e moléculas chegam e saem o tempo todo.

Vivem no interior dos vazios cósmicos. Esses seres são ilhas de concentração de matéria escura em um espaço particularmente rarefeito de matéria. Com integridade mantida basicamente pela força gravitacional de seus componentes, um garanihaya, sem forças elétricas a manterem seus 'átomos' reunidos, seria destroçado se se aproximasse demais dos filamentos galáticos.

A vida reprodutiva de Huwa e seus amigos – talvez seja forçar a amizade falar em 'amigos' –, bem grosso modo, é um canhão deslizante em um jogo da vida de John Conway. Com a diferença de que as 'naves espaciais' (ou sementes) lançadas pelo canhão crescem com o tempo – com muito, muito tempo –, gerando novos canhões. Não apenas o ritmo de crescimento dos garanihaya é algo extremamente lento, mas tudo o que diz respeito a eles. Um sinal para atravessar de uma extremidade a outra de um indivíduo – sempre levando em conta as dificuldades inerentes de determinar as extremidades e mesmo os indivíduos – leva centenas de milhares de anos. Mas, naturalmente, um garanihaya não interpreta esse ritmo como lento, é um piscar de olhos para eles – ainda que “piscar de olhos” seja uma expressão que jamais lhes faria sentido. O canhão pode ter consequências não apenas de gerar novos guranihayas, mas também de eliminar alguns. Ocasionalmente, a mira pode ser defeituosa e a nave "chocar-se" contra alguém nas vizinhanças. ("Choque" entre aspas porque os guranihayas não são exatamente constituídos de matéria mutuamente impenetráveis, outra consequência de não serem formados por átomos resultantes de interações elétricas. As forças de atração e repulsão entre solitons não impedem que partículas de matéria escura atravessem uma massa de matéria escura.) A nave pode perturbar as configurações ressonantes no interior de um indivíduo de modo disruptivo ou, com seu crescimento, canibalizar as unidades de ressonância. Em raras ocasiões, pode crescer compartilhando as unidades com seu hospedeiro, sem lhe causar maiores danos.

Ondas gravitacionais são a vida e a morte dos garanihaya. São seu modo de comunicação, e seu alimento – coletando as ondas gravitacionais que viajam pelo espaço recolhem a energia que os faz funcionarem. Mas a exposição a certas frequências de ondas desestabiliza todo o sistema, destruindo-os. Outras frequências podem modificá-los, alterando mesmo o funcionamento dos canhões e, o que mais importa, das naves, gerando indivíduos diferentes: em tamanho, por exemplo.

O que Huwasuyisha havia recolhido naquele dia – e dia é um conceito que definitivamente não faz sentido entre os garanihaya – era um sinal extremamente compacto – do ponto de vista dos garanihaya – emitido bilhões de anos atrás codificado na forma de ondas gravitacionais. Alguém havia achado uma boa ideia lançar ao espaço mensagens de saudações e outras informações assim apenas porque podia – e talvez com algum otimismo de que alguém respondesse a tempo, e com bom grau de irresponsabilidade por confiar na sorte de que esse alguém fosse amistoso. Levou um certo tempo – algumas dezenas de milhões de anos – para Huwa decodificá-la em seus próprios termos. Instruções sobre correspondências binárias e outros truques matemáticos certamente ajudaram a encontrar regularidade suficiente para ser possível a decifração e irregularidade suficiente para tornar a mensagem interessante. A parte engraçada dizia respeito ao conceito de 'zona de habitabilidade'. Era algo que alguns indivíduos garanihaya haviam desenvolvido com sua ciência. Mas o entendimento do que seria uma zona habitável para as criaturas que lançaram a mensagem ao espaço era tão díspar que só restava a Huwa rir desbragadamente segurando a barriga com as duas mãos – exceto que, como sugerido anteriormente, 'rir' seja um conceito arriscado e definitivamente 'barriga' e 'mãos' não se aplicassem aos garanihaya.

Os amigos de Huwa escutaram – modo de dizer – com atenção a Huwa e sua explicação. Decidiram rir, então, para recompensá-lo por seu esforço e não magoar seus sentimentos (se 'mágoa' e 'sentimentos' são expressões que cabem à situação), disfarçando que ainda não compreendiam o que significavam 'calor', 'luz', 'água', 'líquida'... Por 'sol' e 'planeta' parecia ser o equivalente a algo que deveria estar nas regiões distantes, bem distantes, onde a intensa gravidade tornava tudo mortal.
---------------