A Receita Federal tornou a fiscalização de declaração de despesas médicas e de saúde e agora exige de profissionais como médicos, dentistas e psicólogos a inclusão do CPF (cuidado! contém paywall poroso) de seus clientes/pacientes em suas declarações.
Suponhamos que os governos não persigam seus desafetos a partir de informações desse tipo: p.e. deduzir algum fato embaraçoso sobre a vida sexual de alguém com base nos médicos que consultou e nos antibióticos que comprou (a venda de antibióticos já é controlada).
O que poderia dar errado?
Isto poderia dar errado. CDs (agora deve ser pendrive ou arquivos pra baixar na internet) com declarações de IR são facilmente encontrados por aí à venda.
Planos de saúde terão quase todo o histórico de saúde anterior de seus prospectivos clientes; empregadores terão a mesma informação: "Ih, esse daí é pinel; foi no mesmo psiquiatra que tratou daquele assassino em série".
Mas mesmo que: 1) governos não usem essas informações contra os cidadãos além de fiscalização tributária (Snowden e NSA alguém?); 2) esses dados não caiam em mãos erradas (ok, e você também pode comprar esta escritura para terreno na Lua por módicos R$ 1.200.000); não me sinto nem um pouco confortável em que algum operador desconhecido possa ter acesso a esse tipo de dados.
Não bastasse isso, é uma violação inaceitável de sigilo profissional e privacidade. Espero que o procedimento seja derrubado na Justiça e que outro mecanismo de fiscalização seja aventado. Se nenhum outro for possível, lamento, terão que fazer o que fizeram até aqui: continuar confiando na palavra dos profissionais.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
domingo, 8 de fevereiro de 2015
Expulsão de Cássio: Dissecção de uma injustiça
O goleiro Cássio foi vítima de uma arbitragem arbitrária no clássico deste domingo contra o Parmera, na segunda partida do Corinthians pelo Paulista 2015. (1 x 0 pro Timão em cima do Guarani da Capital em plena Allianz Parque.)
Depois de um amarelo discutível por amarrar ele mesmo as chuteiras - claro, tirando as luvas - sob a alegação de que estaria atrasando o jogo; um outro amarelo, também sob alegação de cera, resultou na expulsão do arqueiro em uma reposição de bola, quando ele foi buscar outra, enquanto uma já havia sido lançada a campo pelo gandula. Se o guarda-redes alvinegro tivesse feito de propósito, ok, o amarelo seria justo. Mas o vídeo mostra claramente que Cássio não viu a bola jogada pelo apanha-bolas em nenhum momento antes de lançar a campo ele mesmo a outra que ele foi buscar.
Depois de um amarelo discutível por amarrar ele mesmo as chuteiras - claro, tirando as luvas - sob a alegação de que estaria atrasando o jogo; um outro amarelo, também sob alegação de cera, resultou na expulsão do arqueiro em uma reposição de bola, quando ele foi buscar outra, enquanto uma já havia sido lançada a campo pelo gandula. Se o guarda-redes alvinegro tivesse feito de propósito, ok, o amarelo seria justo. Mas o vídeo mostra claramente que Cássio não viu a bola jogada pelo apanha-bolas em nenhum momento antes de lançar a campo ele mesmo a outra que ele foi buscar.
Quando o "ball boy" (nem tão boy assim) joga a bola extra, Cássio está de costas para ele, virado para o centro do campo, discutindo com alguém (1s no vídeo). A bola para sobre a linha da pequena área e Cássio volta, de costas, apontando para a lateral direita dele (7s). Ele começa a virar a dois passos da bola, ainda olhando para a frente (8s). Passa pela bola, também sem olhar para baixo (9s). Vira rapidamente a cabeça para a linha de fundo e vai buscar a outra bola. (10s) Ele pega a bola do fundo, olhando para ela e voltado para o lado. E já inicia o movimento de lançá-la para o campo (15s). Só aí que ele deve ter visto a bola já dentro de campo (16s).
Homenagem ao bom doutor anticorintiano e torcedor do 5PFW (mais anticorintiano do que sampaulino) @Karl_MD - que considera o Cássio tão bom que deve ver até o que acontece às costas dele ou tem um sentido de aranha que localiza as bolas sem vê-las.
Upideite(09/fev/2015): @carloshotta Aventa a possibilidade de Cássio dever ter consciência de que o gandula iria repor a bola e deveria procurá-la antes de buscar outra. Em entrevista à ESPN, o apanhador diz: "quando não é tiro de meta nem nada a gente repõe pra ele [o juiz] possa fazer o jogo andar normal". E Fernando Prass ao programa Bate Bola 2a. edição da ESPN (de hoje) fala que o gandula no Allianz Parque repõe a bola com maior ou menor rapidez de acordo com o jogo (se o time da casa está vencendo, nem joga a bola no campo): coisa, aliás, que ocorre em qualquer lugar.
Homenagem ao bom doutor anticorintiano e torcedor do 5PFW (mais anticorintiano do que sampaulino) @Karl_MD - que considera o Cássio tão bom que deve ver até o que acontece às costas dele ou tem um sentido de aranha que localiza as bolas sem vê-las.
Upideite(09/fev/2015): @carloshotta Aventa a possibilidade de Cássio dever ter consciência de que o gandula iria repor a bola e deveria procurá-la antes de buscar outra. Em entrevista à ESPN, o apanhador diz: "quando não é tiro de meta nem nada a gente repõe pra ele [o juiz] possa fazer o jogo andar normal". E Fernando Prass ao programa Bate Bola 2a. edição da ESPN (de hoje) fala que o gandula no Allianz Parque repõe a bola com maior ou menor rapidez de acordo com o jogo (se o time da casa está vencendo, nem joga a bola no campo): coisa, aliás, que ocorre em qualquer lugar.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2015
A Calculadora de Sonhos
As plantas secavam. A terra, ressequida, crepitava e rachava. Os olhos miravam a desolação da estiagem prolongada. A má administração pelas autoridades da água das barragens fizera sumir o precioso líquido. O gado definhava. Os pequenos roceiros de Crateús voltavam-se esperançosos para Jônatas Ribeiro. Ele sabia. Ele diria quando viria a chuva.
-------------------
Iara Ribeiro nasceu em uma família de profundas raízes na tradição dos "profetas da chuva". O avô de seu bisavô por parte de pai, assim lhe disseram certa vez, foi o primeiro a dominar a arte - ou de possuir o dom - de prever quando se iniciariam as primeiras precipitações no interior do sertão nordestino: algum lugar dentro da área de litígio de limite entre Piauí e Ceará.
Uma mistura de sensibilidade de leitura de sinais da natureza - presságios e agouros: a direção e a altura do voo de certas aves, a presença de certos insetos, a conformação da teia das aranhas, o odor do vento noroeste... amalgamados em uma matriz de intuição - sensitividade mediúnica, nas palavras de um estudioso que se meteu de agregado entre os Ribeiros. O parapsicólogo foi devidamente enxotado quando trouxe a hipótese de o patriarca ser um judeu sefardita cristão-novo, mas não antes de escrever um tratado sobre rabdomancia e outras técnicas divinatórias acerca da água.
Não há registros além da tradição oral familiar a respeito da taxa de sucesso da linhagem dos Ribeiros na previsão extracientífica das condições meteorológicas. Ela, por certo, diz que era "tiro e queda". O que era, de certo modo, sustentado pelas constantes consultas aos adivinhos da família, especialmente próximo à época do dia de São José. A vida de penúria, no entanto, poderia indicar o contrário - ou o fato de não quererem explorar comercialmente a habilidade (nem mesmo para saber quando plantar ou quando emigrar da terra). Entre indas e vindas, o avô de Iara, seu Jônatas, acabou de se tornar mais um retirante, vindo a São Paulo tentar a sorte.
Meteu-se a ajudante de pedreiro, a alfaiate, a ajudante de ordens... Houve pouco progresso material notado. O pai de Iara também pouco acrescentou ao patrimônio familiar. Na verdade, até retirou um pouco - sustentando seu gosto por jogo do bicho, álcool e, principalmente, uma amante. A dilapidação não se deu pela contribuição expressiva de mãe de Iara em tripla jornada como faxineira, costureira e dona de casa.
Os irmãos mais velhos foram um a um tomando seu destino - nem todos felizes, nem todos infelizes. Um jogador de futebol não exatamente frustrado, um sargento do exército, uma professora primária, um morto pela polícia, um advogado desquitado afundado em dívidas. Iara estava destinada a ser doutora, vaticinava o pai. "Ela vai ser a médica da família." Mas o talento ao tirocínio que não envolvesse índices pluviométricos provavelmente não se associara à família.
Ela metera na cabeça desde cedo que resgataria a tradição perdida há geração e meia. Seria a primeira profetiza da chuva em uma linhagem só de seres barbados. Espremia do avô o quanto podia as histórias e folclores a respeito dos prodígios divinatórios do bisavô - e algo do trisavô. "Foi uma seca dura, duríssima. Nem as lágrimas conseguiam escorrer pelo rosto; evaporavam-se tão logo saíam do canto dos olhos. A terra dura, não dava nem pra arar. Mesmo que arasse, nada poderia crescer ali. O que havia crescido, já estava tudo seco. Perguntaram pra mim quando iria chover. Não tinha coragem de dizer que não viria naquele ano. Que mais crianças morreriam de fome, na falta de leite, na falta de feijão, da falta de farinha, na falta de água. Não podia ver tanta gente desesperada vindo bater à minha porta como se eu tivesse poder de fazer vir a chuva. Fugi." Mas era difícil de separar o que eram lembranças legítimas da juventude, o quanto eram reconstruções mitificadas galhofeiras. A rápida progressão da debilidade da saúde mental do avô após os 70 anos pouco ajudou.
Domaria as nuvens em seus segredos. Esse era seu destino. Colecionava reportagens sobre profetas da chuva - marcara em seu diário a frustração por não ter encontrado nada que a ajudasse na biblioteca da escola, nem na do município; semanas depois seu júbilo pelo material encontrado na internet (anotada com desânimos posteriores ao não conseguir reproduzir o que era descrito); nem telefonemas a parentes no interior do Ceará a ajudara a aclarar as coisas (a bronca da mãe com o valor da conta telefônica tornara essa alternativa inviável).
Mas prosseguira. Elaborara um intrincado esquema em que procurava relacionar dois fatos aparentemente distintos e sem nenhuma ligação óbvia implicando em um resultado inesperado. Prendia na parede do quarto fotos e ilustrações sobre uma pessoa, objeto ou evento e conectava-os por meio de linhas de costura; queria entender os nós que se formavam naquela teia de aranha. Mas esse método - para alívio da mãe, já preocupada com o estado mental da filha - logo foi preterido ao simples desenho sobre cartolina quando uma imensa, grotesca e kafkiana barata emergiu certa noite por de trás de uma das fotos coladas à parte. (Nota: o Gregor Samsa paulistano, quem quer que fosse, não teve maior oportunidade de longas divagações existenciais, imediatamente esmigalhado que foi por um chinelo de borracha.)
Iara tornara-se muito boa em detectar padrões - ainda que, na maioria das vezes, falsos padrões ou que ainda não se descobriram como verdadeiramente verdadeiros. Surpreendia professores ao conectar fatos históricos como a Revolução Francesa e a Americana com a Inconfidência Mineira (relação bastante conhecida no meio dos historiadores, mas, por algum motivo, totalmente ignorado por seus professores de história e de geografia). Pontes similares eram construídas entre conceitos matemáticos: por um tempo, Iara cultivara o péssimo hábito de atormentar seus parentes, amigos e até o dono da padaria com jogos numéricos para adivinhar que macacos não viviam na Dinamarca (ou algo assim), que sua colega Tayanne pensara no número 12, que o aniversário do seu Juca era no dia de Santo Inácio...
Um dia seu professor de física Dulcídio Barrabraz contou a história de Gilbert Walker - do ponto de vista de Iara era menos a história de Walker do que de sua equipe na Índia, a processar um número gigantesco de dados sobre a atmosfera e os oceanos em inúmeros pontos do mundo - talvez o primeiro supercomputador humano do mundo. De repente, as linhas de algodão e traços de hidrográfica na cartolina agora eram as linhas no gráfico; os nós conectando as linhas eram números de índices de correlação. As possibilidades cintilavam na cabeça de Iara, que quase explodiu. Um novo mundo se lhe abria.
-------------------
As plantas secavam. A terra, ressequida, crepitava e rachava. Os olhos miravam a desolação da estiagem prolongada. A má administração pelas autoridades da água dos reservatórios fizera sumir o precioso líquido. Um fluido inodor e insípido saída das torneiras - mas a densidade era de um milésimo da que deveria ser: ar no lugar da água. Os vizinhos de bairro voltavam-se esperançosos para Iara Ribeiro - já formada em Meteorologia. Ela sabia. Ela diria quando viria a chuva.
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Iara Ribeiro nasceu em uma família de profundas raízes na tradição dos "profetas da chuva". O avô de seu bisavô por parte de pai, assim lhe disseram certa vez, foi o primeiro a dominar a arte - ou de possuir o dom - de prever quando se iniciariam as primeiras precipitações no interior do sertão nordestino: algum lugar dentro da área de litígio de limite entre Piauí e Ceará.
Uma mistura de sensibilidade de leitura de sinais da natureza - presságios e agouros: a direção e a altura do voo de certas aves, a presença de certos insetos, a conformação da teia das aranhas, o odor do vento noroeste... amalgamados em uma matriz de intuição - sensitividade mediúnica, nas palavras de um estudioso que se meteu de agregado entre os Ribeiros. O parapsicólogo foi devidamente enxotado quando trouxe a hipótese de o patriarca ser um judeu sefardita cristão-novo, mas não antes de escrever um tratado sobre rabdomancia e outras técnicas divinatórias acerca da água.
Não há registros além da tradição oral familiar a respeito da taxa de sucesso da linhagem dos Ribeiros na previsão extracientífica das condições meteorológicas. Ela, por certo, diz que era "tiro e queda". O que era, de certo modo, sustentado pelas constantes consultas aos adivinhos da família, especialmente próximo à época do dia de São José. A vida de penúria, no entanto, poderia indicar o contrário - ou o fato de não quererem explorar comercialmente a habilidade (nem mesmo para saber quando plantar ou quando emigrar da terra). Entre indas e vindas, o avô de Iara, seu Jônatas, acabou de se tornar mais um retirante, vindo a São Paulo tentar a sorte.
Meteu-se a ajudante de pedreiro, a alfaiate, a ajudante de ordens... Houve pouco progresso material notado. O pai de Iara também pouco acrescentou ao patrimônio familiar. Na verdade, até retirou um pouco - sustentando seu gosto por jogo do bicho, álcool e, principalmente, uma amante. A dilapidação não se deu pela contribuição expressiva de mãe de Iara em tripla jornada como faxineira, costureira e dona de casa.
Os irmãos mais velhos foram um a um tomando seu destino - nem todos felizes, nem todos infelizes. Um jogador de futebol não exatamente frustrado, um sargento do exército, uma professora primária, um morto pela polícia, um advogado desquitado afundado em dívidas. Iara estava destinada a ser doutora, vaticinava o pai. "Ela vai ser a médica da família." Mas o talento ao tirocínio que não envolvesse índices pluviométricos provavelmente não se associara à família.
Ela metera na cabeça desde cedo que resgataria a tradição perdida há geração e meia. Seria a primeira profetiza da chuva em uma linhagem só de seres barbados. Espremia do avô o quanto podia as histórias e folclores a respeito dos prodígios divinatórios do bisavô - e algo do trisavô. "Foi uma seca dura, duríssima. Nem as lágrimas conseguiam escorrer pelo rosto; evaporavam-se tão logo saíam do canto dos olhos. A terra dura, não dava nem pra arar. Mesmo que arasse, nada poderia crescer ali. O que havia crescido, já estava tudo seco. Perguntaram pra mim quando iria chover. Não tinha coragem de dizer que não viria naquele ano. Que mais crianças morreriam de fome, na falta de leite, na falta de feijão, da falta de farinha, na falta de água. Não podia ver tanta gente desesperada vindo bater à minha porta como se eu tivesse poder de fazer vir a chuva. Fugi." Mas era difícil de separar o que eram lembranças legítimas da juventude, o quanto eram reconstruções mitificadas galhofeiras. A rápida progressão da debilidade da saúde mental do avô após os 70 anos pouco ajudou.
Domaria as nuvens em seus segredos. Esse era seu destino. Colecionava reportagens sobre profetas da chuva - marcara em seu diário a frustração por não ter encontrado nada que a ajudasse na biblioteca da escola, nem na do município; semanas depois seu júbilo pelo material encontrado na internet (anotada com desânimos posteriores ao não conseguir reproduzir o que era descrito); nem telefonemas a parentes no interior do Ceará a ajudara a aclarar as coisas (a bronca da mãe com o valor da conta telefônica tornara essa alternativa inviável).
Mas prosseguira. Elaborara um intrincado esquema em que procurava relacionar dois fatos aparentemente distintos e sem nenhuma ligação óbvia implicando em um resultado inesperado. Prendia na parede do quarto fotos e ilustrações sobre uma pessoa, objeto ou evento e conectava-os por meio de linhas de costura; queria entender os nós que se formavam naquela teia de aranha. Mas esse método - para alívio da mãe, já preocupada com o estado mental da filha - logo foi preterido ao simples desenho sobre cartolina quando uma imensa, grotesca e kafkiana barata emergiu certa noite por de trás de uma das fotos coladas à parte. (Nota: o Gregor Samsa paulistano, quem quer que fosse, não teve maior oportunidade de longas divagações existenciais, imediatamente esmigalhado que foi por um chinelo de borracha.)
Iara tornara-se muito boa em detectar padrões - ainda que, na maioria das vezes, falsos padrões ou que ainda não se descobriram como verdadeiramente verdadeiros. Surpreendia professores ao conectar fatos históricos como a Revolução Francesa e a Americana com a Inconfidência Mineira (relação bastante conhecida no meio dos historiadores, mas, por algum motivo, totalmente ignorado por seus professores de história e de geografia). Pontes similares eram construídas entre conceitos matemáticos: por um tempo, Iara cultivara o péssimo hábito de atormentar seus parentes, amigos e até o dono da padaria com jogos numéricos para adivinhar que macacos não viviam na Dinamarca (ou algo assim), que sua colega Tayanne pensara no número 12, que o aniversário do seu Juca era no dia de Santo Inácio...
Um dia seu professor de física Dulcídio Barrabraz contou a história de Gilbert Walker - do ponto de vista de Iara era menos a história de Walker do que de sua equipe na Índia, a processar um número gigantesco de dados sobre a atmosfera e os oceanos em inúmeros pontos do mundo - talvez o primeiro supercomputador humano do mundo. De repente, as linhas de algodão e traços de hidrográfica na cartolina agora eram as linhas no gráfico; os nós conectando as linhas eram números de índices de correlação. As possibilidades cintilavam na cabeça de Iara, que quase explodiu. Um novo mundo se lhe abria.
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As plantas secavam. A terra, ressequida, crepitava e rachava. Os olhos miravam a desolação da estiagem prolongada. A má administração pelas autoridades da água dos reservatórios fizera sumir o precioso líquido. Um fluido inodor e insípido saída das torneiras - mas a densidade era de um milésimo da que deveria ser: ar no lugar da água. Os vizinhos de bairro voltavam-se esperançosos para Iara Ribeiro - já formada em Meteorologia. Ela sabia. Ela diria quando viria a chuva.
Iara fugiu para a casa de uma tia-avó em Fortaleza.
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Esta é uma obra de coincidência, qualquer realidade com a semelhança é mera ficção.
terça-feira, 6 de janeiro de 2015
Kátia Abreu, a lexicografista, redefine latifúndio
A Senadora Kátia Abreu, agora ministra da Agricultura, depois de redefinir ruralista, agora quer mudar o significado de latifúndio.
Em entrevista à jornalista da Folha de São Paulo, Mônica Bergamo, a ministra disse que no nosso Brasil varonil não há mais latifúndios.
Com a devida vênia, vamos ao que diz a lei 4.505/1964 (Estatuto de Terra):
Art. 4°
"V - 'Latifúndio', o imóvel rural que:
a) exceda a dimensão máxima fixada na forma do artigo 46, § 1°, alínea b, desta Lei, tendo-se em vista as condições ecológicas, sistemas agrícolas regionais e o fim a que se destine;
b) não excedendo o limite referido na alínea anterior, e tendo área igual ou superior à dimensão do módulo de propriedade rural, seja mantido inexplorado em relação às possibilidades físicas, econômicas e sociais do meio, com fins especulativos, ou seja deficiente ou inadequadamente explorado, de modo a vedar-lhe a inclusão no conceito de empresa rural."
Art. 46. § 1°, alínea b
b) dos limites máximos permitidos de áreas dos imóveis rurais, os quais não excederão a seiscentas vezes o módulo médio da propriedade rural nem a seiscentas vezes a área média dos imóveis rurais, na respectiva zona;"
Pra não existir mais latifúndio no Brasil, *dois* fatos devem ser verdadeiros *ao mesmo tempo*:
1) No Brasil não há mais propriedades rurais com mais de 600 módulos médios nem 600 vezes a área média das propriedades rurais da região;
2) No Brasil não há mais propriedades improdutivas.
Entre 2003 e 2010, segundo levantamento do Incra, órgão responsável por avaliar a função social da terra, a improdutividade *aumentou*, bem como a concentração de propriedades rurais. Teria a tendência se revertido durante a primeira gestão da presidenta Dilma Rousseff? Ainda mais a ponto de eliminar as grandes propriedades rurais e/ou improdutivas? Em 2010, eram cerca de 130 mil grandes propriedades rurais com área média de cerca de 2.400 ha, destes, 40% eram classificados como improdutivos.
O tamanho do módulo varia de 5 a 110 ha. A média no Brasil é de 60 ha. Qualquer propriedade rural com 66.000 ha ou mais com certeza seria um latifúndio por extensão. Abaixo uma pequena amostra, nem de longe exaustiva de propriedades que podem ser consideradas latifúndios por extensão (não necessariamente por produtividade).
278 mil ha. Paracajá-PA.
252 mil ha. São Miguel do Araguaia-GO.
170 mil ha. Manicoré-AM.
170 mil ha. Casa Nova-BA.
150 mil ha. Belém-PA.
143 mil ha. Tarauacá-AC.
122 mil ha. Feijó-AC.
117 mil ha. Poconé-MT.
112 mil ha. Canto do Buriti-PI.
103 mil ha. Itiquira-MT.
100.532 ha. Cocalinho-MT.
101 mil ha. Itiquira-MT.
94 mil ha. Aripuana-MT.
85 mil ha. Bom Jesus-PI
72 mil ha. Abreulândia-TO.
66.658 ha. Regeneração-PI.
Ou seja, tanto hátanto propriedades que são latifúndios por produção quanto há por extensão.
Então, para a nossa ministra dizer que não há mais latifúndio no país, ela precisaria redefinir pra algo como: "propriedade com mais de 8,5 milhões de km2 ou que produz menos de 100 milhões de toneladas de grãos por safra".
E o que tem potencial de dar mais problemas do que já há, o diagnóstico dos conflitos indígenas da senadora é: "os índios saíram da floresta e passaram a descer nas áreas de produção". Ela simplesmente inverte a realidade histórica e diz que são os índios que invadem as propriedades dos produtores rurais e não que produtores rurais (nem sempre de boa-fé; nem sempre de má-fé) apropriaram-se territórios indígenas tradicionais (a rigor, todo o Brasil é território indígena tradicional, mas diz a nossa Constituição em seu art. 231 "§ 1º - São terras tradicionalmente ocupadas pelos índios as por eles habitadas em caráter permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e as necessárias a sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições.".)
Em entrevista à jornalista da Folha de São Paulo, Mônica Bergamo, a ministra disse que no nosso Brasil varonil não há mais latifúndios.
Com a devida vênia, vamos ao que diz a lei 4.505/1964 (Estatuto de Terra):
Art. 4°
"V - 'Latifúndio', o imóvel rural que:
a) exceda a dimensão máxima fixada na forma do artigo 46, § 1°, alínea b, desta Lei, tendo-se em vista as condições ecológicas, sistemas agrícolas regionais e o fim a que se destine;
b) não excedendo o limite referido na alínea anterior, e tendo área igual ou superior à dimensão do módulo de propriedade rural, seja mantido inexplorado em relação às possibilidades físicas, econômicas e sociais do meio, com fins especulativos, ou seja deficiente ou inadequadamente explorado, de modo a vedar-lhe a inclusão no conceito de empresa rural."
Art. 46. § 1°, alínea b
b) dos limites máximos permitidos de áreas dos imóveis rurais, os quais não excederão a seiscentas vezes o módulo médio da propriedade rural nem a seiscentas vezes a área média dos imóveis rurais, na respectiva zona;"
Pra não existir mais latifúndio no Brasil, *dois* fatos devem ser verdadeiros *ao mesmo tempo*:
1) No Brasil não há mais propriedades rurais com mais de 600 módulos médios nem 600 vezes a área média das propriedades rurais da região;
2) No Brasil não há mais propriedades improdutivas.
Entre 2003 e 2010, segundo levantamento do Incra, órgão responsável por avaliar a função social da terra, a improdutividade *aumentou*, bem como a concentração de propriedades rurais. Teria a tendência se revertido durante a primeira gestão da presidenta Dilma Rousseff? Ainda mais a ponto de eliminar as grandes propriedades rurais e/ou improdutivas? Em 2010, eram cerca de 130 mil grandes propriedades rurais com área média de cerca de 2.400 ha, destes, 40% eram classificados como improdutivos.
O tamanho do módulo varia de 5 a 110 ha. A média no Brasil é de 60 ha. Qualquer propriedade rural com 66.000 ha ou mais com certeza seria um latifúndio por extensão. Abaixo uma pequena amostra, nem de longe exaustiva de propriedades que podem ser consideradas latifúndios por extensão (não necessariamente por produtividade).
278 mil ha. Paracajá-PA.
252 mil ha. São Miguel do Araguaia-GO.
170 mil ha. Manicoré-AM.
170 mil ha. Casa Nova-BA.
150 mil ha. Belém-PA.
143 mil ha. Tarauacá-AC.
122 mil ha. Feijó-AC.
117 mil ha. Poconé-MT.
112 mil ha. Canto do Buriti-PI.
103 mil ha. Itiquira-MT.
100.532 ha. Cocalinho-MT.
101 mil ha. Itiquira-MT.
94 mil ha. Aripuana-MT.
85 mil ha. Bom Jesus-PI
72 mil ha. Abreulândia-TO.
66.658 ha. Regeneração-PI.
Ou seja, tanto há
Então, para a nossa ministra dizer que não há mais latifúndio no país, ela precisaria redefinir pra algo como: "propriedade com mais de 8,5 milhões de km2 ou que produz menos de 100 milhões de toneladas de grãos por safra".
E o que tem potencial de dar mais problemas do que já há, o diagnóstico dos conflitos indígenas da senadora é: "os índios saíram da floresta e passaram a descer nas áreas de produção". Ela simplesmente inverte a realidade histórica e diz que são os índios que invadem as propriedades dos produtores rurais e não que produtores rurais (nem sempre de boa-fé; nem sempre de má-fé) apropriaram-se territórios indígenas tradicionais (a rigor, todo o Brasil é território indígena tradicional, mas diz a nossa Constituição em seu art. 231 "§ 1º - São terras tradicionalmente ocupadas pelos índios as por eles habitadas em caráter permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e as necessárias a sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições.".)
quarta-feira, 24 de dezembro de 2014
#aldorebelofacts Conheça os projetos do futuro novo ministro de CT&I
A depender das posições já manifestadas pelo atual Ministro dos Esportes e futuro Ministro de Ciência, Tecnologia e Inovação (cuidado! contém paywall poroso), deputado Aldo Rebelo, podemos projetar algumas mudanças que implementará à frente do MCTI.
*Upideite(24/dez/2014): adido a esta data.
**Upideite(26/dez/2014): adido a esta data.
- No MCTI irá proibir o uso de inglês na comunicação de ciências: "É sujeição ao imperialismo yanke".
- Irá cortar do Portal Periódicos Capes as publicações que não estejam em português: "Vamos prestigiar a produção nacional". (Esta é pelo projeto de lei do deputado Vicentinho, mas está bem dentro do que se poderia esperar de Rebelo.)
- Toda pesquisa climática q conclua pelo AGA e mudanças climáticas será cortada por ser "fabulação imperialista".
- Pesquisas sobre impacto ambiental da agricultura
deixaráserá cortada, pois "agricultura no Brasil ñ tem nada a ver com clima". - O MCTI será renomeado MCTIqNPMdO Min. de Ciência, Tecnologia e Inovação q Não Poupe Mão de Obra.
- Cursos de climatologia serão cancelados. Serão substituídos por cursos de meteorologia.
- Estudos astrofísicos baseados em simulação por computador serão cancelados.*
- A Semana Nacional de Ciência e Tecnologia 2016 terá como tema o Saci.*
- Os artigos científicos sobre triticultura deverão incluir considerações sobre a mandiocultura.*
- Pesquisas sobre medicamentos contra o HIV que envolvam patentes serão canceladas.*
- Veto a financiamento a toda pesquisa com uso de animais e plantas nativas que envolva patente.*
- PCRs deverão ser feitas na unha, o mesmo com sequenciamentos e qualquer outro processo que tenha versão automatizada.
- Restaurantes universitários não poderão ser self-service.*
- Jaca ganha status de espécie nativa, o que significa que não poderá ser alvo de patentes.**
- @andrevallias Aldo Rebelo anuncia programa "Ciência Sem Conceito"**
- @fvernon Novo Ministro da Ciência e Tecnologia proíbe a utilização de redes sociais alegando a desvalorização da mão de obra dos Correios.**
*Upideite(24/dez/2014): adido a esta data.
**Upideite(26/dez/2014): adido a esta data.
sexta-feira, 28 de novembro de 2014
Analfabetismo Miojal
Quando até fazer *miojo* é visto como algo que deve ser paulofreirizado, começo a entender receita de miojo em redação do ENEM...
Sério, pra ensinar a fazer miojo é preciso ressignificar o miojo na vida cotidiana das pessoas... Provavelmente também tem que eliciar questionamentos a respeito da organização social que permite que se obtenha o miojo nas vendinhas e a questão da distribuição de renda que impede que todos tenham acesso ao miojo. Claro, na transdisciplinaridade, discutir o teor de sódio e calorias vazias do produto e as implicações sobre a medicalização na sociedade contemporânea.
Imagino que pra ensinar a fazer miojo *de verdade* tenha que ser assim, então:
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Wang et al. 2011. Effect of phosphate salts on the Korean non-fried instant noodle quality. DOI: 10.1016/j.jcs.2011.09.008;
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Upideite(28/nov/2014):
Imagino que pra ensinar a fazer miojo *de verdade* tenha que ser assim, então:
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Miojo 101: Introdução Epistemológica e Funcional da Miojocidade na Sociedade Pós-Industrial Ocidental, uma Análise Pós-Conceitual da Ritmicidade Neocapitalista
NATUREZA. Semestral. PERÍODO. 16° semestre.
PRÉ-REQUISITOS. História dos Alimentos 4; Sociologia 6; Cálculo 2; Séries e Equações Diferenciais 2; Termodinâmica 2; Engenharia de Materiais 1; Nutrologia Básica; Nutrologia Avançada; Fisiologia Humana 2; Operações Unitárias; Direito Romano 2; Psicologia e Psicopedagogia 4; Polímeros 3; Direito do Consumidor 2; Ecologia 4; Antropologia 4; Física 6; Tópicos Avançados de Cosmologia 2; Física Quântica 3; Geografia Humana 5; Economia Doméstica 3; Microeconomia 7; Microbiologia 3.
CARGA. 90h; TEÓRICA. 30h; PRÁTICA. 60h.
EMENTA. Preparo de macarrão instantâneo no ambiente doméstico. Variações de preparo do macarrão instantâneo no ambiente doméstico. História do preparo do macarrão instantâneo. Saquinho ou cup noodles? Possíveis aplicações comerciais de habilidades de preparo de macarrão instantâneo. Problematização do preparo do macarrão instantâneo. Avaliação organoléptica do produto do preparo do macarrão instantâneo no ambiente doméstico. Relações familiares e o preparo do macarrão instantâneo. Tópicos atuais do preparo do macarrão instantâneo.
AVALIAÇÃO. 4 testes discursivos (peso 3); prova prática 1 (peso 5); prova prática 2 (peso 5).
PRESENÇA MÍNIMA OBRIGATÓRIA. 75%.
NOTA MÍNIMA PARA APROVAÇÃO. 7.
PRESENÇA MÍNIMA OBRIGATÓRIA. 75%.
NOTA MÍNIMA PARA APROVAÇÃO. 7.
BIBLIOGRAFIA OBRIGATÓRIA.
Caldwel. 2002. The Taste of Nationalism: Food Politics in Postsocialist Moscow. DOI: 10.1080/0014184022000031185;
Caldwel. 2002. The Taste of Nationalism: Food Politics in Postsocialist Moscow. DOI: 10.1080/0014184022000031185;
Choo et al. 2008. Too Hot to Handle—Instant Noodle Burns in Children. DOI: 10.1097/BCR.0b013e31816679d0;
Crosbi et al. 1999. Starch and Protein Quality Requirements of Japanese Alkaline Noodles (Ramen) DOI: 10.1094/CCHEM.1999.76.3.328;
Deleuze. 1953. Empirisme et subjectivité.
Foucault. 1975. Surveiller et punir.
Kushner. 2014. Slurp! A Social and Culinary History of Ramen -
Japan’s Favorite Noodle Soup. ISBN: 978 90 04 26927 9;
Lee & Lee. 2003. Frequency of Instant Noodle (Ramyeon) Intake and Food Value Recognition, and their Relationship to Blood Lipid Levels of Male Adolescents in Rural Area. Korean J Community Nutr. 2003 Aug;8(4):485-494.;
Lee et al. 2008. Major Dietary Patterns and Their Associations with Socio-Demographic, Psychological and Physical Factors Among Generally Healthy Korean Middle-Aged Women. Korean J Community Nutr. 2008 Jun;13(3):439-452;
Marx. 1867. Das Kapital.
Okada & Ihida. 1968. Studies on the Storage of Instant Ramen (Fried Chinese Noodle) Part II. 日本食品工業学会誌;
Xu. 2012. The plasticizer crisis affects on instant noodle packaging materials.
OBS. Esta disciplina é pré-requisito para Miojo 102.
Upideite(28/nov/2014):
*Upideite(29/11/2014): Acrescentei um print que havia me escapado - mas que não muda o contexto da troca de comentários. É o que começa com: "agora vejamos o exemplo do Roberto Takata sobre a aula simples".
sexta-feira, 21 de novembro de 2014
Lama de perfuração
Escrevi alhures em 16/nov/2014:
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"Estadão 14/nov/2014: 'Nos depoimentos, os delatores do esquema - que esperam ter suas penas reduzidas após colaboração com a Justiça - disseram que o cartel das empreiteiras funciona ao menos desde os anos 1990 fraudando contratos. Entre elas, havia um grupo de VIPs, supostamente formado por Odebrecht, UTC, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez e OAS, que tinha maior poder de 'persuasão' para ficar com os melhores contratos.'
Anos 1990 pegam: Collor, Itamar, FHC...
Naturalmente é preciso ainda investigar. Mas, sem surpresas, parece ser um esquema antigo que já rolava na Petrobras (e certamente deve rolar em outras estatais também - federais e estaduais).
Parece, sim, que políticos do PT estão implicados - novamente é coisa de investigar e punir em havendo comprovação de culpa - e o fato de continuar a operar nos governos PT é censurável.
A conotação política dada pela oposição e pela situação faz parte. Só fica complicada a indignação seletiva. Não acho que FHC tenha culpa direta no cartório, mas teria a mesma culpa indireta que Dilma e Lula têm. (A favor de Rousseff o fato de o esquema ter sido descoberto por investigação durante seu governo.)
Não tem ninguém que possa apontar o dedo para o outro como vestal. Respinga em todos - com maior ou menor intensidade (repito, só as investigações poderão mostrar).
É um processo de depuração. Pra mim, revela menos a deterioração de nosso sistema do que o inverso: mostra a capacidade que desenvolvemos como nação e país de detectar e punir os malfeitos. É um feito quase histórico que os corruptores - que não são sardinhas no oceano - terem sido enquadrados.
Não é uma vitória do governo ou da oposição. É uma vitória do país. É uma vitória nossa. E é goooool da Alem... não, é do Brasil, sil, sil."
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"Estadão 14/nov/2014: 'Nos depoimentos, os delatores do esquema - que esperam ter suas penas reduzidas após colaboração com a Justiça - disseram que o cartel das empreiteiras funciona ao menos desde os anos 1990 fraudando contratos. Entre elas, havia um grupo de VIPs, supostamente formado por Odebrecht, UTC, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez e OAS, que tinha maior poder de 'persuasão' para ficar com os melhores contratos.'
Anos 1990 pegam: Collor, Itamar, FHC...
Naturalmente é preciso ainda investigar. Mas, sem surpresas, parece ser um esquema antigo que já rolava na Petrobras (e certamente deve rolar em outras estatais também - federais e estaduais).
Parece, sim, que políticos do PT estão implicados - novamente é coisa de investigar e punir em havendo comprovação de culpa - e o fato de continuar a operar nos governos PT é censurável.
A conotação política dada pela oposição e pela situação faz parte. Só fica complicada a indignação seletiva. Não acho que FHC tenha culpa direta no cartório, mas teria a mesma culpa indireta que Dilma e Lula têm. (A favor de Rousseff o fato de o esquema ter sido descoberto por investigação durante seu governo.)
Não tem ninguém que possa apontar o dedo para o outro como vestal. Respinga em todos - com maior ou menor intensidade (repito, só as investigações poderão mostrar).
É um processo de depuração. Pra mim, revela menos a deterioração de nosso sistema do que o inverso: mostra a capacidade que desenvolvemos como nação e país de detectar e punir os malfeitos. É um feito quase histórico que os corruptores - que não são sardinhas no oceano - terem sido enquadrados.
Não é uma vitória do governo ou da oposição. É uma vitória do país. É uma vitória nossa. E é goooool da Alem... não, é do Brasil, sil, sil."
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Hoje, 21/nov/2014, outro tucano diz basicamente a mesma coisa na Folha:
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"Nossa empresa deixou de vender equipamentos para a Petrobras nos anos 70. Era impossível vender diretamente sem propina. Tentamos de novo nos anos 80, 90 e até recentemente. Em 40 anos de persistentes tentativas, nada feito.
Não há no mundo dos negócios quem não saiba disso. Nem qualquer um dos 86 mil honrados funcionários que nada ganham com a bandalheira da cúpula.
Os porcentuais caíram, foi só isso que mudou. Até em Paris sabia-se dos 'cochons des dix pour cent', os porquinhos que cobravam 10% por fora sobre a totalidade de importação de barris de petróleo em décadas passadas.
[...]
Não sendo petista, e sim tucano, com ficha orgulhosamente assinada por Franco Montoro, Mário Covas, José Serra e FHC, sinto-me à vontade para constatar que essa onda de prisões de executivos é um passo histórico para este país.
É ingênuo quem acha que poderia ter acontecido com qualquer presidente. Com bandalheiras vastamente maiores, nunca a Polícia Federal teria tido autonomia para prender corruptos cujos tentáculos levam ao próprio governo.
[...]
Mas Dilma agora lidera a todos nós, e preside o país num momento de muito orgulho e esperança. Deixemos de ser hipócritas e reconheçamos que estamos a andar à frente, e velozmente, neste quesito.
A coisa não para na Petrobras. Há dezenas de outras estatais com esqueletos parecidos no armário. É raro ganhar uma concessão ou construir uma estrada sem os tentáculos sórdidos das empresas bandidas.
O que muitos não sabem é que é igualmente difícil vender para muitas montadoras e incontáveis multinacionais sem antes dar propina para o diretor de compras.
É lógico que a defesa desses executivos presos vão entrar novamente com habeas corpus, vários deles serão soltos, mas o susto e o passo à frente está dado. Daqui não se volta atrás como país.
[...]"
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