sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

ATEA tu, Brutus?

A Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, chamada de ATEA, foi lançada em novembro de 2008. Conta com cerca de 160 membros e tem como presidente um amigo meu, Daniel Sottomaior (quem assiste à Luciana Gimenes na Rede TV! deve tê-lo visto algumas vezes por lá).

Inspirada em campanhas como o "Ônibus Ateu", da jornalista britânica Ariane Sherine (encampada pela British Humanist Association), a ATEA lançou uma proposta similar. A campanha da ATEA ganhou uma reportagem do Terra.

Daniel é meu amigo, mas quem tem um amigo como eu não deve precisar muito de adversários.

Farei aqui uma crítica. Não tenho certeza se ela é construtiva.

1) Por que eu tenho um pé atrás em relação à ATEA? Ela nominalmente pretende representar ateus *e* agnósticos, mas no próprio nome fantasia, ela remete exclusivamente à "ateidade" (permita-me o neologismo para designar um caráter não necessariamente militante de quem é ateu) ou mesmo ao ateísmo (aqui referindo-se ao caráter do ateu militante).

1.1) Mesmo não sendo intencional - e não tenho a menor dúvida de que *não* é intencional - isso faz com que os agnósticos fiquem, não apenas em um plano inferior, mas funcionem simplesmente como uma escada: dar volume e emprestar uma maior representatividade ao movimento para um esforço que beneficiará quase que exclusivamente aos ateus.

1.2) Provavelmente, Sottomaior falou sobre os agnósticos na campanha, mas até pelo nome ATEA (e pela inspiração da campanha ateia britânica), ficou como uma campanha exclusivamente ateia.

2) "Enquanto isso, os ateus já traçam outros planos. Um deles é o Dia do Orgulho Ateu, a ser comemorado em 12 de fevereiro, data do nascimento do naturalista britânico Charles Darwin (1809-1882)". Canibalizar o Darwin Day para representar o ateísmo/ateidade é um grande desserviço em relação à compreensão da teoria da evolução pelos crentes - reforçando a identificação dela com o ateísmo e, o maior problema, anti-religiosidade. Essa é uma crítica que tenho em relação a Dawkins em obras como "Deus: um delírio". (Dawkins não é um exemplo de relações públicas.) Aqui um texto interessante do jornalista Reinaldo José Lopes sobre evolução e ateísmo.

3) "[...] os dos nossos *concorrentes*, a Igreja" - não tenho certeza a respeito da intencionalidade ou não, mas isso textualmente coloca a campanha e a ATEA como *anti*-clericais ou mesmo *anti*-religiosas. E não simplesmente arreligiosa (ou é a-religiosa na nova ortografia?).

4) "Usamos muitas analogias do movimento gay porque muitos deles acham que são a última minoria, mas somos nós." - sou testemunha de que Sottomaior *não* é homofóbico, muito ao *contrário* (não, ele mesmo não é guei, mas participa frequentemente de encontro e ações de defesa do direito LGBTT), mas esse trecho acabou soando como uma provocação desnecessária ao movimento guei.

5) "Pode ser até um representante no Congresso. 'Ele poderia propor projetos relativos ao ateísmo. Seria difícil ser aprovado, mas pelo menos traria a discussão', acredita Sottomaior." Esse trecho textualmente:

5.1) coloca a ATEA como exclusivamente a serviço do ateísmo/da ateidade;

5.2) propõe a ATEA como uma plataforma de poder;

5.3) legitima o uso da política como uma forma de beneficiar grupos religiosos - como a bancada dos evangélicos, etc.

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Sou plenamente favorável a que minoriais se organizem para lutarem por seus direitos. Mas se a ATEA se propõe a representar não apenas os ateus, como também os agnósticos, as ações e o discursos precisam ser melhor mais bem calibrados. Sou agnóstico e não me sinto representado pela campanha, nem pela associação (sim, não sou membro): até pela definição que a ATEA adota, incluindo os agnósticos como uma subcategoria de ateus.

4 comentários:

Ivan Carlos disse...

Não entendi... vc é um Teísta agnóstico ou um Ateu agnóstico?

Ateísmo e agnosticismo não são excluentes, o teísmo trata a crença, o gnosticismo trata o que vc sabe.

Para evitar grandes divagações, recomendo que assista ao vídeo: www.youtube.com/watch?v=G1zxolRqRqI

O que percebi é que existe uma falha na definição de "agnóstico" pela maioria das pessoas, muitas destas adotam o agnosticismo como se fosse "alguma espiritualidade não relacionada a alguma religião".

none disse...

Salve, Ivan Carlos,

Eu sou um agnóstico agnóstico.

Também para não perder muito tempo, recomendo a leitura deste ensaio: http://aleph0.clarku.edu/huxley/CE5/Agn.html

É possível sim que muitas pessoas usem o termo de modo diferente da que definida por Huxley. Mas, até aí, pessoas falam em "literalmente xis" quanto nada tem literal - como "ela literalmente perdeu a cabeça", quando quer dizer "ela ficou muito furiosa" - e não que foi decapitada ou algo assim.

Abraços e obrigado pela visita.

Roberto Takata

Vides Júnior disse...

Oi Ivan,
pedi meu desligamento da Atea hoje (sem nem mesmo ter sido aprovado!, hehehe).
Vc falou bonito, mas vai uma complementação:
- Que a Atea queira ser nossa representante, tudo bem. Mas quem foi que ele elegeu o nsso representante?
- Ver o Daniel chafurdando a moral ateísta com picuinhas na televisão só vai fazer com que ós, ateus, continuemos sendo vistos como uma aberração.
Precisamos, sim, de um represetante, mas que ele tenha mais discernimento ao nos representar. A Associação brasileira de Ateus e Agnosticos do Daniel não me parecde a melhor saída... e eu me pergunto: ApodMan, cadê você?!?!?!

none disse...

Salve, Vides Jr.,

Obrigado pela visita e pelo comentário.

Fique à vontade para usar este espaço para uma discussão sobre o tema (que espero que seja construtiva).

Bem, não tenho certeza, mas acho que a Atea é uma organização formalizada - com o estatuto devida registrado em cartório. Nesse caso, o estatuto deve ter sido votado na assembléia de constituição da Atea, provavelmente junto com a primeira diretoria. Só requisitar cópia da ata, que lá deve constar a votação.

Claro que você tem sua visão. Na minha, acho que sua crítica em relação ao Sottomaior um tanto injusta. Embora concorde que o estilo mais combativo - a la Dawkins - possa causar uma contra-reação mais forte.

[]s,

Roberto Takata