quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Somos pós-modernos?

Tenho simpatia pelo entusiasmo dos que professam a pós-modernidade. Gosto de muitas das críticas que fazem ao mundo moderno. No mínimo, obriga-nos a pensar sobre a questão.

Minhas objeções são mais quanto à ênfase que colocam no relativismo epistemológico (a ideia de que não há uma verdade única e que cada um tem sua própria verdade - e todas igualmente válidas).

Uma outra crítica minha é quanto a uma certa falta de rigor em delimitar se o que nos apresentam é uma tentativa de descrever como o mundo é (ou lhes parece ser) ou se é um manifesto de como o mundo deveria ser. Alguns tentam disfarçar isso dando a entender que, goste-se ou não, a pós-modernidade é uma realidade irrefreável.

Uma característica muito comum nos entusiastas da pós-modernidade é alguma tendência verborrágica. Não fazem muita questão de dar definição de termos que vão desfilando. Nisso secundo as críticas de Alan Sokal e Jean Bricmont a vários autores pós-modernos.

Em recente aula que tive em um curso de jornalismo científico, o professor, notadamente entusiasta da pós-modernidade, pôs-se a listar algumas características tipicamente pós-modernas, em contraste com características tipicamente modernas (bom dizer que se enfatizou que tais características não são do tipo tudo ou nada - entre uma coisa e outra há, no mais das vezes, uma gradação entre extremos).

Uma das características listadas para a pós-modernidade (ou para o mundo pós-formal) seria o pensamento com estrutura não-linear, em rede. Exemplo do mundo moderno (ou formal) com pensamento linear seriam as narrativas dos blockbusters cinematográficos. Por outro lado, no pós-formal estariam grandes cineastas como Akira Kurosawa e Stanley Kubrick.

Bem, em assim sendo o mundo não apenas é moderno como não tem nenhuma inclinação aparente rumo à pós-modernidade. A realidade cinematográfica são os blockbusters, é o cinema pipoca. No mais das vezes, é o sucesso financeiro disso que permite se arriscar em obras mais "autorais". E não apenas no cinema - na literatura, no teatro... Do contrário, depende-se de financiamento público ou de mecenato.

Como descrição de realidade, parece-me que a filosofia *da* pós-modernidade é muito limitada.

Outra característica da pós-modernidade é a ênfase na subjetividade - a modernidade, claro, teria uma visão que buscaria uma pretensa objetividade. Até aí ok. Problema é quando se tenta apoiar a superioridade da visão pós-moderna por meio da mecânica quântica: que a realidade objetiva não existiria, que as coisas apresentam-se em vários estados ao mesmo tempo e que o observador influencia o mundo. A rigor até tem algum fundo de verdade, mas é enganador para os propósitos apresentados. Sim, na MQ, sistemas *podem* estar em estado de sobreposição, sem um valor de estado dado definido. E, sim, esse estado de sobreposição é desfeito por meio da observação. O famoso experimento mental do gato de Schrödinger.

Vamos aos poréns:
a) isso é válido para o mundo quântico: são sistemas isolados; nosso mundo "macroscópico" não é isolado e, por isso, tende a funcionar de modo clássico - equações newtonianas são mais do que o suficiente para se mandar robozinhos a Marte e sondas para os limites do sistema solar (sistemas macroscópicos em condições especiais podem se comportar quanticamente, bom dizer).
b) o observador não precisa, de modo algum, ser consciente; um fóton que interaja com um sistema em sobreposição quântica faz uma observação.
c) o observador, pelo menos pelo que se sabe até o momento, não tem poder algum sobre o *resultado* da decoerência quântica (ou colapso da função de onda): um observador consciente que deseje que o gato saia vivo da caixa terá com a mesma probabilidade um gato vivo do que um observador consciente com tendências um tanto psicopáticas de desejar que o gato saia morto.
d) quando a caixa é aberta, *todos* verão o gato no mesmo estado (tirando eventuais pessoas com problemas de visão ou mentais).

As *equações* quânticas são probabilísticas, sim. Mas as probabilidades, dadas as mesmas condições iniciais, são sempre as mesmas. E essas probabilidades se refletem na *proporção* dos resultados dos experimentos e observações em testes *repetidos* - cada teste dá um *valor definido* e *único* (dentro da margem de erro).

Talvez não exista uma realidade objetiva, há espaço para interpretação de resultados, mas isso não ocorre de modo totalmente livre. A tal interpretação hermenêutica pode ter espaço para dizer se a construção de um determinado prédio em um dado local é vantajoso ou não, mas tem pouco espaço para manipular as constantes físicas e fazer com que um arranha-céu possa ser erguido sem uma fundação devidamente calculada e permanecer em pé.

O entusiasta da pós-modernidade confia exatamente na existência de uma realidade minimamente partilhada de modo universal para poder se comunicar. Para dizer que não há realidade objetiva, precisa confiar em que seus interlocutores não irão ouvi-lo dizer "banana caramelada é doce", "depois de eras estranhas até a morte pode morrer", "batatinha quando nasce se esparrama pelo chão", etc. quando diz as palavras "a realidade objetiva não existe".

Nesse sentido, tampouco estou certo se a pós-modernidade, como um conjunto prescritivo, é algo desejável - ao menos como um programa a ser implementado em sua plenitude. Como objetivo, a filosofia *pós-modernista*, mesmo se alcançável (no que sou reticente, dada a autocontradição que encerra), deixa muito a desejar considerando-se as necessidades comunicativas de uma espécie social.

14 comentários:

Hugo Silva disse...

Mas o que é filosofia pós-moderna? Quem são os autores que fazem parte desta "corrente"? Acredito que usando um termo genérico corre-se o risco de criar um espantalho.

none disse...

Salve, Silva,

Grato pela visita e comentários.

Não são os modernos que usam o termo, são os próprios pós-modernistas.

No link para os textos de Sokal (e Bricmont) tem a citação de vários: Deleuze, Guattari, Derrida, Lyotard, etc, etc. Não são propriamente homogêneos em suas visões, mas o discurso contra o que chamam de modernidade tende a ser muito similar - especialmente os pós-modernistas secundários e, mais ainda, os entusiastas do pós-modernismo.

A filosofia pós-moderna pode ser grosso modo definida como aquela que nega os preceitos do que identificam como filosofia moderna - por filosofia que eles chamam de moderna é basicamente a visão de mundo dos iluministas.

Pelas características que comentei: relativismo epistemológico, ênfase no não-linear e nos aspectos subjetivos dos discursos - dá pra se ter uma boa ideia do pós-modernismo.

[]s,

Roberto Takata

Hugo Silva disse...

É exatamente este ponto que eu acredito ser o fraco da crítica de Sokal e Bricmont. Citam filósofos muito diferentes e alguns deles ou não utilizam o termo ou o utilizam de modo diferente.

Lyotard, por exemplo, utiliza o termo para caracterizar a crise do mundo contemporâneo, isto é, o modo de ser do homem contemporâneo: uma desconfiança com as meta-narrativas (ciência, por exemplo). Por isso ele fala em condição pós-moderna: o mundo não é moderno atualmente ou, de outro modo, é difícil ser moderno atualmente. De nenhum modo o termo é utilizado para caracterizar um ideal de como o pensamento deve ser, mas sim o modo como o mundo se apresenta, como o mundo aparece.

Em Deleuze, o termo não é nunca utilizado. E como dizer que é contra a modernidade um autor que tem entre suas maiores influências Hume e Leibniz? Um autor que defende um empirismo transcendental?

Eu conheço por cima a "crítica" de Sokal e Bricmont e acredito que grande parte é falta de leitura. No livro eles comentam Bergson como pós-moderno e o filósofo francês viveu no século XIX. Pegue, por exemplo, a resenha de Dawkins do livro: http://old.richarddawkins.net/articles/824, que pode ser lida em português no livro O Capelão do Diabo. Ele cita um trecho de Deleuze, retirado do meio de um livro, e diz que não faz sentido. Entretanto, eu consigo entender perfeitamente o que está escrito lá. E por quê? Porque eu sei que pra entender algo que está na página 200 de um livro, é bem possível que eu deva ler as 199 páginas anteriores.

Eu gosto bastante dos seus textos e venho acompanhando seu blog a um bom tempo. Mas não se deixe iludir por quem quer chamar a atenção. Não que não possam ser excelentes cientistas, mas não entendem nada de filosofia e, ainda por cima, são arrogantes.

Abraços!

none disse...

Salve, Silva,

Não vejo a diversidade dos autores como uma fraqueza para a crítica. Até porque o Sokal e Bricmont fazem são críticas bem específicas: os capítulos são divididos por grupos de autores e as críticas são dirigidas para um determinado conjunto de pontos - em um caso é o sequestro abusivo de termos científicos usando-os em contextos totalmente díspares; em outro, é a obscuridade dos termos criados; noutro, a fraca estrutura lógica da argumentação, e assim por diante.

Nas palavras dos autores:
"Não temos a pretensão de analisar o pensamento pós-modernista em geral; nossa intenção é chamar a atenção para aspectos relativamente poucos conhecidos, isto é, o abuso reiterado de conceitos e terminologia provenientes da matemática e da física. Queremos analisar também determinadas confusões de pensamento que são frequenets nos escritos pós-modernistas e que se relacionam tanto com o conteúdo quanto com a filosofia das ciências naturais."

Nisso foram muito bem-sucedidos - e a minha citação a Sokal e Bricmont se refere exatamente a essa parte de obscuridade terminológica.

Repare, além disso, que eu não me baseei em nenhum comentário de Dawkins.

Se um ou outro autor pode ou não ser considerado um filósofo pós-modernista ou da pós-modernidade (termos não sinônimos), pode ser objeto de alguma discussão. P.e, esse professor citou Popper como um autor pós-moderno, no que discordo frontalmente.

[]s,

Roberto Takata

Hugo Silva disse...

Sim, o único ponto que eu discordava em sua análise era da definição de pós-moderno. Continuo achando que a crítica deles é, em grande parte, improcedente. Por exemplo, não acredito que nenhum dos autores citados advogue um "relativismo epistemológico", no sentido de "todo conhecimento é igualmente válido" (deixando claro que nunca li nada de Derrida e que só conheço Guattari com o Deleuze).

Em Deleuze, por exemplo, é criticada a noção de verdade como correspondência (que não é moderna, mas tão antiga como Platão e Aristóteles). Mas isto não leva a um relativismo epistemológico (mesmo porque o estatuto do conhecimento é apenas uma questão lateral no filósofo), mas sim a substituição do par verdadeiro/falso (e toda a série dos falsos, isto é, dos pretendentes não correspondentes ao modelo) pelo par virtual/atual na gênese do ser (modo como tudo surge). Podemos estabelecer critérios de validade para o conhecimento sem cair na noção de verdade. Cada campo (filosofia, ciência e arte) relaciona-se de um modo com o atual (nome do que é visto como realidade objetiva em Deleuze).

O que acredito que gere confusão é que certos setores da academia (exatas) não compreendem que a crítica à modernidade é pelos seus efeitos nas ciências humanas ou na filosofia. O método científico das exatas funciona nas exatas, mas não dá certo nas humanas e nem pode ser imposto à filosofia (seria reducionista para a filosofia).

Discordo em relação à Sokal et al do uso de termos científicos ou da matemática. Grande parte dos termos que eu vi citados (porque, novamente, assumo que não li o livro) são ou filosóficos em primeiro lugar, ou utilizados de modo metafórico (não é uma metáfora de verdade, mas sim um tipo de "reflexo" do termo de um campo em outro). Assim, ou os termos são utilizados com o sentido filosófico de sempre (caso de virtual, relação, termo, série, singularidade, potência), ou são emprestados pelo significado que, aparentemente, possuem em outro texto. Neste segundo sentido, veja que é indiferente se o autor que utiliza o termo para dar nome a um conceito entende o significado com o qual ele foi utilizado, já que o termo só dá nome a outro conceito.

Quanto a Popper, acredito que isso se refere a o que eles definem como "filosoficamente correto" dentro da Filosofia da Ciência. E não tenho dúvida que eles acreditam que seja o Círculo de Viena.

Abraço!

none disse...

Salve, Silva,

Se um autor X, tido por pós-moderno, não advoga pelo relativismo epistemológico, terei menos críticas a esse autor. Eventualmente nenhuma.

Mas a crítica da crítica não é em função do desconhecimento. No caso de Sokal e Bricmont, a crítica é pelo uso abusivo de termos das ciências naturais. E não é questão de usar a mesma forma (palavra), mas sim de pretender que se trata do mesmo objeto.

"Here, for instance, are Gilles Deleuze and Félix Guattari holding forth on chaos theory:

'To slow down is to set a limit in chaos to which all speeds are subject, so that they form a variable determined as abscissa, at the same time as the limit forms a universal constant that cannot be gone beyond (for example, a maximum degree of contraction). The first functives are therefore the limit and the variable, and reference is a relationship between values of the variable or, more profoundly, the relationship of the variable, as abscissa of speeds, with the limit.'"
http://www.physics.nyu.edu/sokal/noretta.html
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[]s,

Roberto Takata

Hugo Silva disse...

Então, este é exatamente o ponto. Em nenhum momento do texto original de Deleuze e Guattari é feita alguma menção a teoria científica do Caos. Muito pelo contrário, é sabido por quem estuda filosofia que o caos faz parte das reflexões filosóficas desde, no mínimo, Heráclito e Parmenides (filósofos pré-socráticos). Lógico que quando a ciência (a matemática) desenvolveu uma análise mais profunda sobre o caos (a partir de Poincaré, pelo que eu pude ver na Wikipédia) essa análise tem efeitos sobre a reflexão filosófica. Entretanto, jamais algum filósofo se propôs a fazer matemática sobre o caos e não filosofia.

Sobre isso o texto que você citou é exemplar. Pode ser encontrado online uma transcrição da tradução brasileira do texto de Deleuze e Guattari (O que é a filosofia, aqui: http://www.famescbji.edu.br/famescbji/biblioteca/livros_filosofia/O_que_e_Fosofia.pdf). O texto citado está na página 154 do texto, ou na página 48 do doc. Este livro tem uma estrutura específica: primeiro uma análise do que é fazer filosofia. Depois, para esclarecer sempre o que é a filosofia, analisa como o saber científico é formado e suas diferenças com o saber filosófico. Por último, analisa a arte e faz o mesmo.

Especificamente, Deleuze constrói um paralelo entre os três: a filosofia produz conceitos, a ciência funções, e a arte perceptos. Os conceitos têm partes (que eu não lembro o nome); as funções têm partes (functivos); os perceptos têm partes (afectos). Veja que, em momento algum, estão os autores dizendo que a Ciência produz apenas funções, no sentido científico da palavra. Mas sim em um sentido filosófico que é definido no texto. A grande tese do texto é que os três grandes modos de conhecer contemporâneos não se separam pelo objeto, mas sim pelo modo como conhecem o objeto. No fundo, o objeto de todas é o caos (no sentido de indiferente, de informe, daquilo que é o todo sem definições, de "caosmos", no conceito chave deleuziano, caracterizado pela velocidade infinita). Mas cada uma trata o objeto de forma diferente. Por exemplo, a filosofia traça um plano de imanência (isto é, o filósofo traça um plano de imanência e cria conceitos que participam do caos, que são imanentes ao caos). A Ciência procede por um plano de referência que é como uma parada, uma "foto" do caos. A Ciência, assim, na teoria dos filósofos, teria como imagem, como metáfora de sua ação, um tipo de sistema de coordenadas cartesiano, com variáveis definindo uma função (que é nada mais do que um conceito científico).

Chegamos, assim, com grandes resumos ao texto citado: "Desacelerar é colocar um limite no caos, sob o qual todas as velocidades passam, de modo que formam uma variável determinada como abcissa, ao mesmo tempo que o limite forma uma constante universal que não se pode ultrapassar (por exemplo, um máximo de contração). Os primeiros functivos são, pois, o limite e a variável, e a referência é uma relação entre valores da variável ou, mais profundamente, a relação da variável, como abcissa das velocidades, com o limite".

O que ele está descrevendo neste trecho é, portanto, uma função (conceito filosófico sobre o que a Ciência produz). Veja que certos termos são sim matemáticos, mas estão utilizados de modo correto (abcissa, variável). Em compensação outros termos são utilizados de modo filosófico, mesmo quando tem expressão científica (velocidade, função, limite). Veja também que, no texto, são citados cientistas e funções científicas apenas como exemplos. Além do mais, em nenhum momento me parece autorizada a leitura de que os filósofos estariam falando sobre a teoria do caos. Neste sentido, a crítica de Sokal parte de uma leitura equivocada.

É muito difícil não ser prolixo, mas vou encerrando por aqui. Espero que tenha ficado compreensível.

Abraços!

none disse...

Silva,

"A CIÊNCIA tem uma maneira inteiramente diferente de abordar o caos, quase inversa: ela renuncia ao infinito, à velocidade infinita, para ganhar uma referência capaz de atualizar o virtual." (grifo meu, p. 154)

[]s,

Roberto Takata

Hugo Silva disse...

Sim, como eu disse em meu comentário anterior: "A Ciência procede por um plano de referência que é como uma parada, uma 'foto' do caos". A filosofia constrói um plano de imanência e a ciência um plano de referência. O conceito (produto da filosofia) é imanente ao caos, isto é, participa do caos. Já a função (produto da ciência) apenas refere-se a um momento do caos, a uma referência.

Como eu disse, são todos termos filosóficos próprios ao autor, não científicos. No pensamento de Deleuze, a Ciência não é imanente ao ser (Caosmos), ao contrário da Filosofia. Virtual é o nome do ser em Deleuze e atualização é o modo como o ser-indiferente torna-se as "coisas paradas" que aparecem no nosso dia-a-dia (cadeiras, carros, etc): o virtual torna-se atual por diferenciação. Velocidade infinita é uma das característica do caos (está no terceiro parágrafo do meu texto anterior).

Assim, Deleuze não está falando sobre a teoria científica do caos, mas construindo as diferenças entre filosofia e ciência a partir do seu conceito de caos (e de plano de referência, de plano de imanência, velocidade infinita).

Como dito, embora eu não tenha lido o "Imposturas", o pouco que eu tive contato com os autores me faz desconfiar que o problema real é deles: leitura inadequada. O procedimento deles me parece com aquele do inquisidor, primado das hipóteses sobre os fatos: queriam encontrar abusos e leram de modo a encontrar abusos. Quando eles não entenderam o que estava escrito, ou mesmo quando acharam que entenderam, deveriam ter recorrido a especialistas.

none disse...

Hugo,

O problema não o "caos" de modo isolado. Veja como Deleuze se apropria de: abscissa, limite, variável, constante, referência... uma pseudolinguagem matemática.

[]s,

Roberto Takata

Hugo Silva disse...

Eu não chamaria de "pseudolinguagem matemática", já que em nenhum momento existe a tentativa de fazer matemática, mas sim, como eu disse antes (comentário nº 7) de construção de um conceito filosófico. Apropriar-se, como vc utilizou agora, não me parece problemático (muito menos é sua crítica original ou a crítica do Sokal). Com certeza que há o uso de termos matemáticos para definir um plano. Mas qual o problema nisso? Se construo um conceito que acredito assemelhar-se a um quadrado, não posso utilizar a definição de quadrado para melhor defini-lo ao leitor? Porque se existe problema nisso, me parece que várias noções científicas (funções na filosofia de Deleuze) "abusam" da linguagem corrente ao utilizarem lençóis, buracos e outras palavras comuns para melhor definir ao leitor. De outro modo até: como definir um plano sem utilizar a matemática para isso? Certamente é possível, mas o risco de equívocos (múltiplas vozes) é muito grande.

E me parece que estamos mudando o objeto da discussão toda hora. Sokal disse, textualmente: "Here, for instance, are Gilles Deleuze and Félix Guattari holding forth on chaos theory". E eu já mostrei que eles não estão "holding forth on chaos theory" (na verdade, não sei como ele poderia acreditar que eles estavam falando sobre teoria do caos sem fartas doses de desonestidade intelectual na leitura). E a crítica do Imposturas é especifica também: abuso de certas ciências exatas (matemática e física quântica, principalmente) para mostrar falsa erudição. Já no seu texto, como você próprio explicou (comentário 2), as críticas são quanto a: relativismo epistemológico, ênfase no não-linear e nos aspectos subjetivos dos discursos.

Nada disso aparece no texto citado posteriormente por Sokal e vc. No livro de Deleuze que fala de algo mais próximo sobre teoria do discurso (Lógica do Sentido), ele utiliza, principalmente, Saussure e Russell para construir uma teoria do sentido, o que me parece utilizar uma lógica "bem linear" e não estar fundada sobre aspectos subjetivos do discurso, o que quer que eles sejam. Além disso, todos os conceitos utilizados por Deleuze em sua filosofia estão definidos em Diferença e Repetição ou nos livros em que são utilizados. Como eu disse, não vejo unidade nos autores citados ou nos autores utilizados no Imposturas (talvez no livro tal unidade seja demonstrada, talvez não).

Para mim (sem considerar os autores analisados), pós-moderno tem a ver com a condição do mundo (algo mais sociológico): desconfiança com grandes narrativas (e, logo, crise das antigas: religiões, ideologias, etc); tendência à heterodoxia (como diz o tango cambalache: mistura-se tudo); tendência de volta de coisas pré-modernas (magia, alquimia, etc). Como tal, essa condição impõe limites e necessidades ao pensamento (mas isso existe para qualquer condição de mundo). Por exemplo, as condições da Idade Média impunham um pensamento que partia do infinito (de Deus), um pensamento teológico. Outras condições do mundo impõem outros tipos de pensamento. Mas isso é o que eu penso, né... =D

none disse...

Silva,

Eu pelo menos não estou mudando toda hora. O que eu escrevi foi: "Uma característica muito comum nos entusiastas da pós-modernidade é alguma tendência verborrágica. Não fazem muita questão de dar definição de termos que vão desfilando. Nisso secundo as críticas de Alan Sokal e Jean Bricmont a vários autores pós-modernos."

[]s,

Roberto Takata

Hugo Silva disse...

E está respondido no meu último comentário: "todos os conceitos utilizados por Deleuze em sua filosofia estão definidos em Diferença e Repetição ou nos livros em que são utilizados".

Acho que não há uma necessidade de definição de todo termo em todo texto. Muito menos de definições formais (do estilo "X é Y").

none disse...

Em "Diferença e Repetição", Deleuze não define "abscissa", usa "variável" no sentido não técnico, idem com "referência", "constante" (às vezes usa em um sentido semi-técnico)...

A justaposição dos termos: limite, velocidade, abscissa, etc., pra mim, é óbvia tentativa de referência matemática. Estatisticamente é improvável essa concentração de termos se tivesse sido definidos sem tal propósito.

[]s,

Roberto Takata