terça-feira, 18 de julho de 2017

Partido da ciência é uma boa?

Publiquei alhures algumas orelhadas minhas (abaixo reproduzidas) sobre a proposta de um partido de cientistas e algumas possíveis alternativas.
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Partido próprio
*Vantagem: controle sobre o processo de escolha dos candidatos - tanto do partido, quanto dos eleitores (os votos não vão para candidatos alienígenas à proposta), adesão à plataforma.
*Desvantagem: administrar tensões internas de questões extracientíficas (e mesmo questões intracientíficas mais polêmicas), como a divisão natural entre direita e esquerda (sim, é natural - sem me alongar muito, é natural que uns prefiram soluções mais individuais e outros, mais coletivas), coletivização da imagem a toda à a comunidade científica (não apenas ao partido) em caso de erros de membros do partido, esforço pra criar uma estrutura quase do zero; enfrentar cláusulas de barreira.
Partidos preexistentes*Vantagem: aproveitamento de estrutura e know-how já estabelecidos; a depender do partido, aproveitamento de base eleitoral; erros individuais não respingarão tanto para toda a coletividade; tensões como direita-esquerda diluem-se com participação de cada cientista-político (atenção: não é cientista político) a agremiações com filosofias mais afins.
*Desvantagem: imagem desgastada dos partidos estabelecidos em geral; controle reduzido da escolha de candidatos e alocação de verbas de campanha; não garante unidade de plataforma, especialmente em grandes partidos; necessidade de articulação suprapartidária para uma bancada da ciência.
Lobby
*Vantagem: evita desgaste político por erros de representantes; não necessita manutenção de estrutura partidária; nem fica preso à agenda de outros partidos. necessidade de estrutura para fazer pressão junto a políticos; incapacidade de interferência mais direta no processo legislativo.
*Desvantagem: eficiência histórica um tanto discutível; necessidade de concorrência com outros lobbies de setores com interesses diversos ou antagônicos; necessidade de grandes concessõesnecessidade de estrutura para fazer pressão junto a políticos; incapacidade de interferência mais direta no processo legislativo.
Estratégia mista
*Vantagem: pode combinar várias vias alternativas em paralelo, em série ou sinergisticamente.
*Desvantagem: divisão de recursos humanos e financeiros em várias vias; pode combinar as desvantagens.
Nada
*Vantagem: não se arrisca ao ônus da tentativa.
*Desvantagem: dificilmente obtém algum resultado; no andar da carruagem atual, tende a piorar.
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Eu vejo a iniciativa com bons olhos e, apesar dos riscos envolvidos, acho que vale a pena o experimento (até pela oportunidade de adotar a denominação Partido da Ciência - PaCiência). Como grupo controle eu receitaria estabelecer alguns universos paralelos em que outras alternativas são tentadas, mas suspeito que a CEUA (Comissão de Ética no Uso de Animais) e o CETEA (Comitê de Ética em Experimentação Animal) não darão o aceite.

Upideite(19.jul.2017): Carlos Orsi também apresentou a análise dele sobre a proposta. Ele é mais pessimista quanto à solução via participação partidária - e vê como melhor alternativa a mobilização popular. É algo a se pensar com carinho. Eu discordo porém do nível de dificuldade que Orsi vê na solução partidária e da facilidade da via da mobilização popular. Em relação ao primeiro ponto: sim, a via política pressupõe negociações, mas isso ocorre mesmo na mobilização popular - agora que tipo e nível de concessão será feita, é uma discussão que cabe. No segundo, 7 milhões de pessoas (estimativa de Orsi do número mínimo de pessoas a serem mobilizadas em projetos pró-ciência) é *muita*, mas *muita* gente. Mesmo o milhão que ele calcula para o nível estadual é difícil de se conseguir. Pra se criar um partido novo, algo como 500 mil assinaturas são necessárias (em 14 unidades da federação), um projeto de lei de iniciativa popular em nível federal demanda mais de 1 milhão de signatários. Tanto não é trivial se obter esse número que são bem raros tais projetos que chegam ao congresso para votação; mesmo o projeto do MPF com medidas para combate à corrupção conseguiu 2 milhões de assinaturas, tendo uma grande campanha (inclusive com veiculação de peças publicitárias nos meios de comunicação) e uma grande comoção popular. Isso *por projeto*. Há inúmeros projetos de interesse da comunidade científica (e a visão é não lidar apenas com ciência, mas também com educação), seria preciso bastante esforço pra aprovar cada um deles - alguns talvez poderão ser juntados em pacotes, mas acho que não seria o caso por exemplo de um projeto para desburocratização de importação de insumos para pesquisa e um de garantir 10% do PIB na educação. Se a SBPC consegue atrair cerca de 10 mil pessoas em suas reuniões, para a Marcha pela Ciência foi bem menos que isso. A abordagem por projeto permite reunir pessoas temporariamente por interesses comuns e abordar diferentes públicos para diferentes projetos: é possível, assim, por exemplo, conseguir apoio para um projeto a respeito de liberação do cultivo de transgênicos de um lado e, de outro, um a respeito de controle de emissão de gases de efeito estufa - que, na população, o apoio a cada causa pode estar cindido em dois grupos divergentes. Para se manter de modo permanente um único grupo de pelo menos 7 milhões* - que possam, não apenas apoiar projetos, como ajudar a eleger representantes da comunidade científica e educacional ou com afinidades com essa comunidade - seria preciso ter ou um grande poder econômico como a bancada ruralista ou um poder de influência ideológica como a bancada da bíblia (que também tem um bom poder econômico), mais do que apenas uma boa comunicação. Ou precisaria fazer alianças - e daí concessões - com grupos que tenham tal poder ou capilaridade: aceitaria patrocínio da Fiesp? dos grandes pecuaristas e sojicultores? iria se aliar à CUT? à ICAR ou à IURD? (Não digo que as respostas a essas perguntas sejam necessariamente 'não'. Durante a Ditadura Civil-Militar, a SBPC contou com aliança estratégica com certos setores da ICAR. Apenas ressalto que a questão da concessão e alianças não são elididas apenas porque se opta por uma via que não a partidária.)

*Upideite(19/07/2017): Nos comentários Orsi diz: "Oi, Takata! Só um adendo: a taxa de 3,5% da população (7 milhões no Brasil) não seria o mínimo, mas o suficiente: a tese é que nenhum movimento pacífico que tenha mobilizado 3,5% ou mais da população de um país jamais falhou em atingir suas metas. Há movimento menores que também obtiveram sucesso."

Eu fico ainda com a expressão "pelo menos" ou, de modo equivalente, "no mínimo", já que mobilizações menores não garantem a transformação apoiada por esse contingente. Com menos, pode ou não ocorrer.

Um complicador é que esse movimento vai ser vencedor convertendo o restante a população (ao menos a parte com poder para garantir a mudança), mas e se há um movimento - até mais renhido em sua obstinação - oposto? Pautas científicas em vários pontos enfrentam resistência: vacinação, evolução, AGA... Não dá pra crescer facilmente em uma matriz que oferece pouca ou nenhuma resistência; deve haver algumas cotoveladas ao abrir caminho. Outro é o fator tempo. Ok, resistência pacífica for the win, mas... quando? Os cristãos levaram uns três séculos pra ganhar Roma. Mesmo que atingindo o limiartar de 3,5% garanta uma conversão instantânea, quanto tempo para se crescer até 3,5%? Não que tempo seja uma questão ausente em uma saída partidária - quanto tempo até conseguir eleger um representante? \Ou quanto tempo até ter uma bancada que faça alguma diferença? Por que tempo é premente? Só pra ficar em dois pontos em que tempo é crucial: AGA e revolução demográfica - a janela de tempo em que seremos capazes de alguma intervenção significativa para evitar o pior das mudanças climáticas está se fechando (não mais do que uma ou duas décadas); a revolução demográfica, com uma população mais envelhecida, também nos impõe um limite de tempo para criar condições necessárias de investimentos em ciência e educação, antes que questões como aposentadoria e gastos com doenças degenerativas ocupem um montante do orçamento público que diminuam o espaço para se aportar grana suficiente nos sistemas de CT&I e escolas públicas e universidades para mudar o nosso patamar de desenvolvimento.

2 comentários:

Carlos Orsi disse...

Oi, Takata! Só um adendo: a taxa de 3,5% da população (7 milhões no Brasil) não seria o mínimo, mas o suficiente: a tese é que nenhum movimento pacífico que tenha mobilizado 3,5% ou mais da população de um país jamais falhou em atingir suas metas. Há movimento menores que também obtiveram sucesso.

none disse...

Salve, Orsi,

Valeu pela visita e comentário. Subi sua observação e respondi.

[]s,

Roberto Takata