sexta-feira, 24 de julho de 2009

UNE e a imprensa

Lucia Hippolito na CBN, dia 21/07/2009:


Transcrevo abaixo alguns trechos e comento:
Vandalismo, depredação
1min03seg: "As cenas de vandalismo que os universitários protagonizaram nas escolas públicas de Brasília, diz que são cenas indescritíveis."
1min47seg: "Mas acontece que esses estudantes se hospedaram em escolas públicas de Brasília. E depredaram as escolas, constrangeram os vizinhos, usavam as hortas escolares como banheiro público. Em suma, quebraram uma... mas diz que foi um quadro dantesco. O Ministério da Educação tirou o corpo fora, declarou que não tem nada a ver com isso, que apenas serviu de intermediário entre a UNE e a Secretaria de Educação do Distrito Federal. E agora a Secretaria de Educação do Distrito Federal vai tenta cobrar da UNE, né, os estragos feitos nas escolas, e segunda-feira as aulas recomeçam, né, Nonato? Então não se sabe ainda como é que essas crianças vão frequentar essas escolas."
6min20seg: "Mas o problema é que o nome da UNE é arrastado, então, nessas cenas, né, de vandalismo, de depredação, de peleguismo explícito. Isso é o nome da instituição que está sendo arrastado."

Não tem jeito. Junte muitas pessoas - pior ainda se em um espaço restrito - e sempre tem uma confusão: pode ser carnaval, jogo de futebol, Parada do Orgulho LGBTT, show dos Rolling Stones em Copacabana, Marcha para Jesus, ainda mais se forem jovens.

Sim, em havendo danos é preciso haver reparação (a UNE se prontificou a ressarcir os prejuízos causados). Agora, quantos incidentes ocorreram em relação ao número de pessoas? Esse dado é necessário para saber se os estudantes são, de fato, vândalos por natureza.

Devemos levar em conta que eram esperadas 4 mil pessoas, foram 6 mil as que se alojaram nas escolas - claro que iria faltar estutura. Acumulou sujeira. Faltou banheiro. Então não é que os estudantes são um bando de porcos e arruaceiros querendo estragar a horta didática. Antes terem feito cocô na "moitinha" do que nos corredores, no pátio ou outro lugar menos apropriado. A UNE pode - e deve - sim ser cobrada pela falta de estrutura. Do jeito que falam, parece até que botaram fogo nas escolas.

Esse moralismo barato (ênfase em barato, o moralismo sadio pode ser uma crítica válida) é que mina a credibilidade das críticas. Misturar observações válidas com pontuações moralistas, bradando contra o que se consideram vícios morais, faz com que as últimas anulem as primeiras. Muito mais produtivo analisar sob a perspectiva de que somos todos falíveis, em geral tentando fazer o melhor, ou, como diria um religioso cristão, criticar o pecado, entendendo as fragilidades do pecador - esse seria um moralismo que podemos chamar de sadio. Entender os seres humanos como seres limitados e também sujeitos às limitações do meio que o cerca. Lucia Hippolito tem formação em História, deveria ter isso em mente.

UNE como oposição, propostas
2min55seg:"Pois é, Nonato. É, muitas coisas surpreendem na UNE atual, você sabe? A UNE historicamente, ela se construiu inclusive no imaginário dos estudantes, etc. como um centro de oposição. Ela é, por natureza, um movimento ou uma entidade de oposição ao governo. Qual governo? Qualquer um. A todos eles. Quer dizer, o papel da UNE é de rebelião, o papel da UNE é de tentar avançar, é de reivindicar, é de cobrar do MEC. Não se ouviu, Nonato, neste congresso, uma única palavra sobre democratização do acesso à universidade, inclusão, mais verbas para a educação, que eram as palavras de ordem, né, da UNE ao longo da sua história. O que se ouviu foi: contra a CPI da Petrobrás, porque a UNE teve parte do seu congresso agora financiado pela Petrobras, né? Recebe mais de dois milhões de verba do governo."
4min58seg: "Nonato, em todos os setenta anos de história da UNE, nunca houve história de um Presidente da República ir ao congresso da UNE. Né? O congresso da UNE é um espaço de oposição. E eu confesso a você que eu fiquei pasma com as declarações inclusive do novo presidente, dizendo que não, a UNE não é para fazer oposição é para conquistar avanços. Então..."
5min38seg:"Não, não foi. A UNE hoje é mensalista. Ela recebe mesada do Ministério da Educação e aquele papel que ela tinha de vanguarda no movimento estudantil, né? De reivindicar, de cobrar, de empurrar o Ministério da Educação para frente, ela hoje está completamente manietada defendendo José Sarney, né? E as políticas educacionais. Infelizmente, Nonato."

Repetindo as palavras da jornalista:
"Não se ouviu, Nonato, neste congresso, uma única palavra sobre democratização do acesso à universidade, inclusão, mais verbas para a educação"

Do caderno de resoluções e moções do congresso da UNE:
Democratização e inclusão: Superar a desigualdade de oferta de vaga em cada estado da federação; Fim do Vestibular; O Plano Nacional de Assistência Estudantil deverá garantir aos estudantes carentes das universidades, públicas e pagas, acesso à alimentação, transporte, iniciação científica e material didático; Criação em todas as universidades as Pró-Reitorias de Assistência estudantil; Criar, manter e ampliar programas que garantam a alimentação dos estudantes das públicas e pagas, através de bandejões e bolsas de auxílio alimentação; Ampliação de programas acadêmicos remunerados estimulando a inserção de estudantes nas atividades de
ensino-pesquisa-extensão; Absorção dos estudantes prejudicados pela falência de instituições privadas pelo sistema público; Garantia de democracia e de qualidade de ensino; A favor da campanha dos R$400 milhões para assistência estudantil dentro de cada universidade; União entre a UNE e as UEE´s para organizar os estudantes das universidades estaduais para exigir os Planos de Assistência estudantil, inexistente na maioria delas.
Verbas: Garantir a destinação de 10% PIB para a educação. Aplicação mínima de 75% do orçamento da União para a educação superior; Lutar pela vinculação de grande parte da arrecadação com royalties do petróleo da camada pré-sal em educação pública; Fim da DRU (Desvinculação das Receitas da União, que retira 20% das verbas da Educação no Orçamento da União); Contra os cortes no orçamento da educação; Mais recursos para educação pública; Reivindicar ao presidente Lula a recuperação integral dos orçamentos da Educação e Ciência e Tecnologia; Os estudantes não aceitam pagar pela crise; Por mais verbais para as universidades estaduais: não aceitamos nenhum corte na educação; A União Nacional dos Estudantes seguindo o exemplo da ANPG decide por se somar à Caravana exigindo de Lula a recuperação imediata dos orçamentos da Educação, Ciência e Tecnologia.

Se não se ouviu, ao menos que se tivesse lido então...

Em relação à Petrobrás, a UNE foi *a favor* da criação da Petrobras (estranho pra caramba escrever Petrobras sem acento e não Petrobrás) e do monopólio estatal da exploração do petróleo - isso ainda na Era Vargas. A UNE foi *contra* a quebra do monopólio já nos anos FHC. Então ela está em casa quando se coloca contrária à CPI, ao entender que ela visa a privatizar a exploração do pré-sal (pode estar errada ou certa quando a essa avaliação, mas está a ser coerente e não apenas pelega - sim a UNE é pelega, mas não por isso, aliás, acusar agora a UNE de peleguismo, quando isso é um problema de longa data, aproxima-se do oportunismo).

Sim, a UNE recebeu dinheiro da Petrobras. Ilegalidade, por isso apenas, não há. Haverá falta de ética? Há falta de ética quando Fernanda Montenegro recebe patrocínio da Petrobras e participa de uma peça publicitária da empresa? Haveria se a atriz tivesse vendido a opinião dela. Há falta de ética quando uma rede de televisão recebe patrocínio da Petrobras para um evento? Haveria se a TV tivesse vendido a opinião dela. Há falta de ética quando a UNE recebe patrocínio da Petrobrás para um evento? Haveria se a entidade tivesse vendido a opinião dela. A UNE vendeu? Como dito acima, há coerência no posicionamento da instituição em relação à empresa.

Quanto ao Sarney, sim, é uma mudança de opinião que tem consequências. A UNE pode ser cobrada por tal fato. Mas chamar isso de manietamento é fora de propósito. Por que estaria a aceder ao governo por conta disso, se, na outra ponta, ela lhe faz críticas? (Critica a política no setor de comunicação; critica o acordo - concordata - com o Vaticano; critica os cortes orçamentários nas áreas de educação, ciência e tecnologia; critica a presença de tropas brasileiras no Haiti - classifica o ato como imperialismo brasileiro; considera que "o governo Lula se comporta de maneira a favorecer frações da burguesia em detrimento de direitos e empregabilidade dos trabalhadores".)

Não, o papel da UNE não é fazer oposição. Nunca foi. Exerceu oposição por conta de seu posicionamento de esquerda. Calhou de todos os governos anteriores serem de direita ou de centro-direita (no caso do governo FHC - o presidente era de centro-esquerda, mas a aliança rumou para o outro lado). Há, sim, afinidades ideológicas com o governo atual. Fazer oposição por fazer oposição? Mas eis mais um trecho do caderno de resoluções e moções do congresso:

"No Brasil a UNE deve fazer oposição ao governo Lula, pois esse hoje defende claramente as demandas burguesas e ainda aparelha os movimentos sociais visando a conciliação."

Presidente da UNE
3min56seg:"E, Nonato, o presidente da UNE é estudante profissional, Nonato. Ele tem vinte sete anos, tentou três cursos universitários, largou dois pelo caminho, agora ele está começando um terceiro e é, Nonato, do PCdoB. É uma contradição jovem com PCdoB, não é, não, Nonato? Então, tem coisa mais embolorado do que o PCdoB?"
4min24seg: "Não, ele é estudante profissional, Nonato. Ele não trabalha. Ele vive de mesada do pai e agora, como presidente da UNE, ele vai ganhar um salário de mil e duzentos reais por mês."

Ataque, como diria Patolino, desprezível à vida pessoal do estudante Augusto Chagas. Vamos supor que ele fosse filhinho de papai. Qual o problema? E se ele tivesse 200 anos, tivesse iniciado sem concluir 500 cursos, não trabalhasse e vivesse de renda? Por que, diabos, ele não poderia ser presidente da UNE? O que importa é se ele é honesto e competente. Para ser presidente, basta que seja aluno regularmente matriculado e devidamente eleito. Para o movimento estudantil, basta que ele busque a melhoria do ensino e o atendimento da demanda dos estudantes. Ele não faz isso? Então se critique isso. Não sua vida pessoal.

(Garanto que o pão na geladeira em casa é muito mais embolorado do que o PCdoB. O partido tem uma ala jovem relativamente numerosa. A mais jovem deputada federal eleita, Manuela D'Ávila é do PCdoB. Aliás, a média de idade dos filiados do PCdoB é de apenas 30 anos, um dos mais baixos entre os partidos brasileiros, se não o mais baixo. Oquei, o comunismo é anacrônico? Não mais que o "neo"liberalismo nestes tempos de crise econômica mundial. Aliás, a estrutura política brasileira é anacrônica. De mais a mais, a esquerda e a juventude combinam como pão e manteiga - não que jovens não possam ser de direita. A esquerda do PCdoB prega uma revolução, a mesma vontade de revolucionar que Lucia Hippolito elogia na UNE da geração dela... Contradição é isso aí.)

Ricardo Noblat conseguiu ser ainda mais deselegante na crítica pessoal ao novo presidente da UNE: "Tem cara de néscio (foto acima), jeito de néscio e pensa como néscio o novo presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Augusto Chagas, de 27 anos, militante do Partido Comunista do Brasil (PC do B)."

Até dizer que pensa como néscio faz parte, agressivo, mas faz parte. Mas analisar a aparência da pessoa? Para um jornalista gabaritado como Noblat é algo muito baixo. Ele não precisava disso: nem Chagas e muito menos Noblat. Discordemos, pois, mas com nobreza.

Representatividade da nova diretoria
1min38seg:"[Dois mil votaram em um universo de cinco milhões d]e universitários. Então você imagina bem a representatividade, não é? Digamos assim que não tem um presidente da UNE hoje."
6min04seg:"Não, não tem [representatividade], porque alguém que, num universo de cinco milhões de universitários é eleito por dois mil... duas mil pessoas, né? Alguém que nessa altura dos combates, né? Está sendo eleito por uma eleição indireta, realmente a legitimidade é muito pequena, não é, não, Nonato?"

Que dizer então do sistema de colégio eleitoral americano? 538 delegados para uma população de 300 milhões. Obama não é representante de fato e de direito do povo americano?

Sim, uma eleição direta poderia ser melhor, se alguém conseguir dar uma solução para como permitir que 4,8 milhões de estudantes universitários espalhados por todo o país votem... Como não dá para reunir todos em um congresso, como organizar a campanha eleitoral? Vai ter espaço na TV para as chapas se apresentarem? Quem paga? Quanto custa? Eleições pela internet? Como ficam os estudantes dos rincãos? Quem paga pela estrutura? Como evitar fraudes? Eleições em papel? Quanto custa? Quem vai contar 4,8 milhões de votos?

Falta representatividade? Mas, 92% das IES estiveram representadas no evento, diz o próprio Correio Braziliense que a jornalista leu. Com cerca de 5 mil delegados, foi um dos maiores congressos da entidade.

História da UNE
4min35seg:"Quer dizer, quando eu me lembro da UNE da minha geração, eu fico muito triste. A UNE da minha geração corria da polícia, queria mais verba, como que era o... havia um grande slogan da UNE na época que era “ou devolve nossas verbas ou paramos o Brasil”, você imagina que ambição que a gente tinha. Mas enfim, era uma coisa idealista, era uma coisa de jovens que lutavam por um país melhor."

Saudade de correr da polícia? Ah! Quando estudantes da USP enfrentam a PM é antidemocrático... Sim, os tempos são outros (ainda bem!), então como querer que a UNE corra da polícia? Fazendo bandidagem? A UNE de hoje também quer mais verba, como demonstra o caderno do congresso. Os estudantes de hoje continuam querendo um país melhor. Pode até se discordar dos projetos, mas isso é outra história que nada tem a ver com sermões, dedos em riste e moralismo baixo.

4 comentários:

ericodias disse...

Na redemocratização a direção da UNE foi eleita por voto direito, Aldo rebelo se não me engano, foi o mesmo PCdoB que mudou o regimento para as eleições indiretas.


Formas existem, mas é preciso querer mudar.

amasotti disse...

Devido as recorrentes reportagens veiculadas na mídia de todo o país sobre as depredações ocorridas nas escolas públicas do Distrito Federal que serviram de alojamento aos delegados e delegadas do 51º Congresso da UNE, viemos ponderar o que segue:

1 - A Kizomba, corrente interna do movimento estudantil, esteve alojada na CED - CESAS (SGAS 602 BL D). Nesse local ficaram cerca de 400 estudantes do mais diversos estados do Brasil;

2 - Foi nossa primeira preocupação garantir a conservação do local. Em um ambiente onde circulariam centenas de pessoas o lixo se acumularia com grande rapidez. Para evitar isso foi escalada uma comissão que buscava manter o local limpo, espalhamos cartazes de conscientização, entre outras ações;

3 - A escola não tinha chuveiros nos banheiros. Foram instalados, portanto 5 chuveiros no banheiro feminino e 5 no banheiro masculino, inclusive esses chuveiros permaneceram na escola e poderão ser usados pelos alunos da escola;

4 - Dentro das salas de aula e ao redor da escola havia diversos trabalhos de estudantes fixados nas paredes. Ao contrário do que diz as reportagens, nessa escola, nenhum trabalho escolar foi arrancado ou vandalizado, em algumas salas ainda permaneciam recados, nos quadros, de antes do período de férias escolares;

5 - A escola também estava em reformas que, com certeza, melhorarão a qualidade do atendimento escolar dos alunos. Todos os nossos delegados e delegadas conviveram com as reformas que, às vezes, resultava em interrupção no fornecimento de água para os banheiros;

6 - Cabe salientar, também, que havia apenas 2 banheiros para um volume muito grande de pessoas, mas mesmo assim o local em nada se assemelha ao estado relatado pelos meios de comunicação;

7 - A Kizomba é uma das correntes do movimento estudantil que defende uma nova cultura política. Não fazemos apenas discursos, temos prática política e de ação que é reconhecida pelo conjunto dos universitários e que nos transformou na segunda bancada do Congresso da UNE. Dentre as nossas defesas está a da Educação Pública, Gratuita e de Qualidade e seríamos os últimos a depredar o patrimônio que não é do governo mas da comunidade do Distrito Federal;

8 - Condenamos veementemente os excessos cometidos em outros locais e censuramos os nossos próprios colegas se cometaram atos de vandalismo como os relatados.

Por fim, queremos deixar firmado que não pode ser feita uma generalização, como foi feita. Há que se fazer a diferença e ressaltar quem se comportou de maneira diferente, algo que as reportagens não tem feito.

Kizomba
Corrente interna do movimento estudantil

none disse...

Érico,

Obrigado pela visita e pelos comentários.

Bem, eu gostaria de ver um plano detalhado para viabilizar uma eleição direta universal para a diretoria da UNE. (Incluindo modo dos eleitores terem acesso às informações sobre as candidaturas.)

O modo mais promissor, parece-me que seja pela internet e os meios digitais remotos, mas realmente gostaria de ver um detalhamento.

[]s,

Roberto Takata

amasotti disse...

Erico,

até houve uma proposta de eleições diretas para UNE. Entretanto a avaliação geral é que o processo seria muito pior do que um congresso.

Temos que levar em conta que o Brasil é um continente e a estrutura para levar a cabo uma eleição geral (vide a estrutura do TSE) é gigantesca, coisa que a UNE não teria como fazer e se fizesse sempre sobraria a dúvida sobre a sua legitimidade.

Quanto ao uso de instrumentos remotos, ainda ninguém ousou isso. Não por não ser seguro mas por não dar a garantia da pessoalidade do voto.

Quanto ao fato de ser universal aí reside um problema semántico. Não pode ser universal (todo mundo vota) tem que ser só para a base da UNE, ou seja, estudantes universitários.

Por fim o Congresso da UNE não é só votar a sua diretoria, há muita discussão e houve uma série de propostas que foram aprovadas, inclusive por consenso.

Passa lá no site da UNE e confere elas.