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sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Falha sísmica: da prisão dos cientistas italianos

A Justiça italiana conseguiu transformar a tragédia do terremoto de Áquila, em 2009, com cerca de 300 mortos em uma piada internacional.

Piada de mau gosto. Sete membros da Comissão Nacional para Previsão e Prevenção de Riscos Maiores, dos quais seis são cientistas (Enzo Boschi, então presidente do Instituto Nacional de Geofísica e Vulcanologia; Franco Barberi, da Universidade de Roma 3; Mauro Dolce, chefe do esceritório de risco sísmico do Departamento de Defesa Civil em Roma; Claudio Eva, da Universida de Gênova; Giulio Selvagg, diretor do Centro Nacional de Terremotos do INGV e Gian Michele Calvi, do Centro Europeu de Treinamento e Pesquisa em Engenharia de Terremoto em Pavia) e um, membro do governo (Bernardo De Bernardinis, então vice-presidente do Departamento de Defesa Civil), foram presos acusados de homicídio culposo por minimizarem os riscos de terremoto na região após uma série de abalos menores e um pouco antes do sismo mais intenso que causou mortes e destruição.

Carlos Orsi comenta sobre a decisão. E uma longa reportagem da Nature no ano passado dá detalhes da acusação.

Só o fato de se instaurar um processo nesses termos já era uma piada. A acusação alega que o processo não é motivado por falhar em prever terremotos, mas por fornecerem "informações incompletas, imprecisas e contraditórias". Então temos que prender *todos* os cientistas. A ciência é, em boa parte, motivada pelo contraditório - é isso que leva a se tentar testar hipóteses concorrentes; por natureza é incompleta, em qualquer momento é impossível se ter conhecimento de todos os aspectos possíveis e, por isso, ela é imprecisa (mesmos as medidas mais precisas comportam uma margem de erro, que é expressa numericamente em muitos relatos científicos).

Podemos ser mais caridosos quanto à acusação: seriam mais incompletas, mais imprecisas e mais contraditórias do que seria o aceitável pelos padrões dos conhecimentos científicos atuais. Ainda assim há um grande problema: essencialmente os terremotos são imprevisíveis - é possível se estimar uma probabilidade dentro de um prazo para uma dada região; mas essa probabilidade comporta necessariamente um grande grau de incerteza (somente para prazos suficientemente longos e áreas suficientemente grandes é possível se trabalhar com médias).

Ocorre que a preocupação era com uma área muito restrita: a cidade de Áquila, em um tempo igualmente restrito: um prazo de menos de um ano. Ocorre que desde 1315, na cidade, temos 10 casos de abalos de intensidade razoável (cerca de magnitude 5 ou mais na escala Richter). Considere a situação de 2009: 10 abalos grandes em 694 anos de história. Uma probabilidade de 0,144%

O que as autoridades italianas queriam que fosse dito? Que era caso de preocupação diante de uma chance de menos 1%? Vamos admitir que, sim, foram negligentes. Então, *todas* as autoridades italianas estão sendo negligentes em permitir que os habitantes de Áquila continuem morando naquela região, já que a probabilidade geral continua sendo de 0,144%/ano.

Eu sugiro que os sismólogos italianos peçam asilo no Brasil, só por garantia de não conseguirem reverter essa condenação sem sentido em seus recursos de apelação.

domingo, 13 de março de 2011

Omnimpotentia

Consigo pensar em poucas sensações mais frustrantes do que a total impotência diante do sofrimento de parentes e amigos.

Meus parentes estão bem lá no Japão, mas há ainda amigos dos quais não tive mais notícias (sim, já tentei o Person Finder).

A sensação é tão ruim que deve ser por isso que #prayforjapan continua no topo dos TTs no twitter. A rigor é algo absolutamente inútil em realmente ajudar as vítimas do terremoto e do tsunami, mas serve de uma certa válvula de escape (e um tanto de hipocrisia - o que deve ter levado George Takei a dar um puxão de orelhas nos tuiteiros) e, sobretudo, de demonstração particular e coletiva de: "nós nos preocupamos". O #prayforjapan não ajuda, mas também não atrapalha e é bem intencionado.

Há as piadinhas. Eu mesmo faço algumas (oquei, podem psicologizar a respeito de disfarçar a tensão).

Há também os idiotas que dizem que foi um castigo merecido: por Pearl Harbour (só *um* exemplo), por não serem cristãos (só *um* exemplo), pela caça às baleias (só *um* exemplo, ok, dois), pela posição quanto a políticas ambientais (só *um* exemplo). Os que acham que há alguma coisa nas datas (só *um* exemplo). Discursos políticos mal postos: que ninguém ajudou o país na tragédia da região serrana (oferta de ajuda não faltou, como da Espanha e da Argentina), a questão da energia nuclear, subdesenvolvimento africano (verá que nunca esse tipo de observação será feito por quem ajuda de verdade nas tragédias humanitárias que ocorrem em países africanos, asiáticos ou americanos - a Cruz Vermelha, p.e., ajuda em qualquer canto - mesmo que tenha que mudar de nome para Crescente Vermelho).

Porém, o que me deixa p*** mesmo são os aproveitadores. Como em toda tragédia, há os salafrários a espalhar pânico, desinformação ou mesmo a roubar, como por através de emails falsos, e, claro, adivinhos.

sexta-feira, 11 de março de 2011

"Nrada tremos a tremer; senrão os nossos tremrores"*

O terremoto do Japão (seguido de tsunami devastador) gerou comoção com as imagens fortes das ondas arrasando cidades (em particular a cidade de Sendai).

Como em outros tremores recentes de grande magnitude: em 2004 no Índico e em 2010 no Chile, para este também alguns cientistas calcularam o efeito do fenômeno no eixo de rotação do planeta.

O princípio é relativamente simples (embora os cálculos em si envolvam mais detalhes e complicações). Terremotos de grande intensidade acabam deslocando grandes porções de rochas: mais para cima ou mais para baixo, mais para o norte ou mais para o sul. Isso muda a distribuição da massa do planeta. A distribuição da massa afeta o modo como a Terra gira.

Um experimento simples ajuda a visualizar. Pegue uma vareta (daquelas do jogo de pega-vareta ou um espetinho de churrasco) e lance ao alto fazendo-a girar. A vareta irá girar e o centro de rotação estará mais ou menos no meio do comprimento. Se você espetar uma borracha em uma das extremidades e lançar ao ar fazendo-a girar, agora o centro de rotação estará deslocado em direção à extremidade em que está a borracha.

Para o terremoto do Japão, cálculos preliminares indicam um deslocamento do eixo de cerca de 10 cm.

O que significam esses 10 cm? Em termos práticos, nada. Não vai alterar o clima. A alteração na duração do dia será igualmente insignificante. Basta ver que a Terra tem um diâmetro de 12,5 mil km - isso faz com que a circunferência do planeta seja de cerca de 40 mil km. Um ângulo de 90o corresponde a 10 mil km. Ou 1.000.000.000 de cm. Os 10 cm correspondem então a: 90o x (10/1.000.000.000) ~ 9 x 10^-7 grau ou aproximadamente um milionésimo de grau.

Cada evento de sismo desloca o eixo em uma direção - mais pra lá, mais pra cá. Ao fim, acabam por se cancelar parcialmente. Mas mesmo que se somassem de modo aritmético, seriam necessários um milhão de terremotos de intensidade como este para fazer o eixo mudar pouco menos de 1 grau.

Então, nada de neve no nosso Natal tropical. Nem poderá dar a desculpa ao chefe pelo atraso no serviço de que o terremoto mudou o horário.

Inacreditável (na verdade eu acredito bem) também que haja gente tentando ligar o tsunami no Japão ao aquecimento global. Como o Deputado Federal Chico Alencar: "Por trás do desastre no Japão,o aquecimento global, fruto de um modelo velho de desenvolvimento.Um outro, novo,é urgente"

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*Millôr Fernandes, A Bíblia do Caos.