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terça-feira, 8 de janeiro de 2013

"Desse fruto não comereis" - minha cordial (mas enfática) discordância a Sakamoto

O jornalista Leonardo Sakamoto em seu blogue escreveu a respeito de briquedos infantis e a questão de papéis de gênero ("Por uma sociedade melhor, meninos deveriam brincar de boneca e de casinha"). Disse que dava bonecas de presente aos filhos meninos de seus amigos, para que os pais não os criassem de modo a reforçar a divisão dos papéis: meninas cuidam do lar, os homens trabalham.

Frente a algumas críticas por parte de seus leitores, justificou com uma analogia/parábola - seria o mesmo que discutir se uma criança poderia comer laranja em lugar de mexerica (tangerina, bergamota).

Antes de apresentar meus pontos de crítica ao que disse Sakamoto, deixe-me apresentar meu ponto de concordância: devemos criar nossas crianças em uma cultura de paz e evitar o sexismo. Criar filhos e filhas de modo que - quando adultos - carreguem como valor que ambos, pai e mãe, são responsáveis pela criação dos filhos (incluindo divisão de trabalho de dar mamadeira, trocar fraldas, levar na escola, tirar a lição, cobrar os estudos, etc.).

Meu ponto enfático de discordância: "Tenho dado bonecas de pano de presente para filhos de alguns amigos." Isso, pra mim, é uma intromissão sem cabimento na criação dos filhos dos outros. Claro, depende de se a natureza da amizade que ele cultiva permite esse tipo de intervenção, mas para mim é um absurdo. Seria como dar uma bíblia de presente para filho de um casal de amigos hindus; de dar um exemplar de A Origem das Espécies para de amigos criacionistas; camisa do Flamengo para o filho do casal fluminense. Alto lá, do meu filho, cuido eu!

Sim, pode-se - e dependendo do modo como isso é feito, é saudável - discutir com os *pais* o modo de criação dos filhos. Mas não com intervenção direta.

O ponto em que eu tenho dúvidas é se dar bonecas para os filhos homens tem algum tipo de influência positiva sobre sua educação e se compensa eventual influência negativa. Claro, pais que quiserem experimentar com *seus próprios* filhos devem ter o direito de fazê-lo. Fazer com o filho dos outros, sem consentimento prévio dos pais, fere a ética - não apenas pela intromissão indevida na criação, mas pelo fato de faltar exatamente dados que indiquem que tenha efeito benéfico (e não tenha efeito maléfico).

Dificilmente um menino que brinque com bonecas virá a se tornar um adulto efeminado quando crescer em função de ter brincado com bonecas. Quando espontâneo, brincar com bonecas pode ser (ênfase no 'pode', não necessariamente será) um indicativo de tendência natural do menino e pouco provável que o impedir de brincar assim o faça crescer como adulto heterossexual. O quanto que brincar de cuidar de bonecas fará o garoto crescer como adulto que cuidará de seus filhos está aberto à discussão. O lado negativo que pode aflorar é expor a criança ao preconceito da sociedade, p.e., os amiguinhos poderão caçoar do menino.

Agora sobre mexericas e laranjas. Bem, Sakamoto, se os termos são esses... Digamos que a ação seja tão inócua quanto dar mexericas à criança. Primeiro, qual a vantagem da laranja sobre a mexerica? Segundo, porque devemos evitar a mexerica? Terceiro, então tudo bem seus amigos darem mexerica a seus filhos? Laranja obviamente são bonecas (para meninos). Mexerica seria o quê? Armas de fogo de brinquedo? Você acha legal dar armas de fogo de brinquedo para crianças? Tem pais que acham que não. Então para os filhos deles eu não daria armas de fogo de brinquedo. Além disso, o título "Por uma sociedade melhor, meninos deveriam comer laranja no lugar de mexerica" faria pouco sentido. Então sua comparação de intervir na criação dos filhos dos outros dando bonecas com dar laranja está capenga no mínimo. E, se os pais, por algum motivo, não querem dar laranja para os filhos (talvez algum trauma), eu não vou me intrometer dando laranja para os filhos deles. No máximo, perguntaria aos pais qual o problema com a laranja - e poderia listar eventuais vantagens da laranja sobre a mexerica (talvez ajudar produtores locais de laranja orgânica frente aos latifúndios de mexerica com agrotóxico talvez uma menor quantidade de ataque de insetos).*

*Upideite(09/jan/2013): Eu havia inadvertidamente invertido o exemplo de Sakamoto entre laranjas e mexericas.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Evolução da diferença salarial por gênero no Brasil

Aparentemente há alguns mitos a respeito da diferença salarial e de rendimentos que ainda persistem. Procurarei rebatê-los com dados disponíveis (compilei-os aqui com as referências).

A Figura 1 apresenta a evolução do rendimento médio da mulher (em fração do rendimento médio masculino) segundo dados do IBGE.

Figura 1. Evolução da diferença salarial nas regiões brasileiras.

O primeiro mito que podemos derrubar é que as diferenças sejam maiores em regiões economicamente menos desenvolvidas. Bem ao contrário: as maiores defasagens ocorrem no Sudeste e no Sul.

O segundo mito é o que diz que nada precisa ser feito já que a diferença vem caindo. As mulheres terão o mesmo rendimento médio dos homens, no ritmo atual, apenas no ano 2054. Ver também a Figura 2.

O terceiro mito diz respeito a que as diferenças de salários se devem ao fato de as mulheres estarem em ocupações de menor rendimento. Vide a Figura 2. Para o mesmo cargo, mulheres recebem menos e cada vez menos.

Figura 2. Evolução da diferença salarial por cargo.

O quarto mito diz que as mulheres recebem menos por trabalharem menos do que os homens. É verdade que a média de horas trabalhadas é inferior, mas tem sido de apenas 10% menos; a renda corrigida por hora de trabalho é inferior. (Apenas no setor da construção as mulheres recebem mais - e substancialmente mais - do que os homens, isso pelo fato de a maioria dos cargos que as mulheres ocupam serem de níveis maiores: há poucas mulheres pedreiras.) Vide Figura 3.

Figura 3. Evolução da diferença salarial e de horas trabalhadas por setor da economia.

O quinto mito diz que as mulheres recebem menos por terem uma qualificação menor do que os homens. Não é verdade, não apenas as mulheres têm um nível médio de instrução maior, como a diferença aumenta com a escolaridade da mulher. E a situação tem piorado para as mulheres com maior instrução. (Vide Figura 4.)*

Figura 4. Evolução da diferença salarial por anos de estudo. Fonte: Mulher no Mercado de Trabalho - Perguntas e Respostas.

Há um pequeno enigma: quando vemos a situação para uma mesma ocupação e para uma mesma escolaridade, as mulheres têm recebido cada vez menos do que os homens; porém, se olhamos para a situação geral, a diferença tem diminuído - ainda que a passos de tartaruga paralítica. Que se pasa?***

Uma possível resposta é que as mulheres têm conseguido ocupações mais bem remuneradas e de nível mais alto do que a média dos homens - embora em desvantagem em relação aos pares, no cômputo geral, isso estaria levando à diminuição da defasagem.**

Para piorar a situação, quando vemos as oportunidades de promoçãoascenção na carreira também observamos uma discriminação por gênero: mulheres têm menos chances de obterem promoção nas grandes indústrias brasileiras.

Certamente, levantarão outras objeções como a priorização à família pelas mulheres. Mas a diferença de rendimentos associada ao gênero persiste mesmo quando decompomos os fatores. E cada fator, na verdade, é um fator que *compõe* a discriminação de gênero e não uma explicação alternativa: se as mulheres recebem menos por ocuparem cargos inferiores, a discriminação está justamente na vedação do acesso às mulheres a cargos superiores como a presidência e vice-presidência de grande empresas; se as mulheres recebem menos por se dedicarem mais aos filhos, a discriminação está justamente em não se oferecem condições às mulheres, como creches, para cuidarem dos filhos.

*Upideite(18/abr/2012): Para as escolaridades a partir de 8 anos, há uma tendência de diminuição da diferença. Tendência mais clara para o grupo com 11 anos ou mais de estudos (o que inclui o grupo com nível superior).
**Upideite(18/abr/2012): Um exemplo numérico (hipotético) de como isso pode ocorrer.
No ano 2000, deste exemplo, o rendimento médio da mulher era de 90% da dos homens tanto no cargo A quanto no cargo B; e a média geral era de 90%. No ano 2010, o rendimento médio da mulher caiu em comparação ao dos homens: 76% no cargo A e 87% no cargo B. Mas a média geral subiu para 92%. Isso ocorreu porque, no nosso exemplo, a fração de mulheres ocupando o cargo B (de maior renda) aumentou.

***Upideite(09/abr/2014): Descobri agora que o fenômeno de desaparecimento ou reversão da tendência obtida em diferentes grupos quando seus dados são combinados tem nome - paradoxo de Simpson.