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quarta-feira, 12 de junho de 2013

Governo Dilma perdeu o rumo

Não, não é a economia, Mr. Carville!

É o social, estúpido!

Os pibinhos incomodam. É preciso ficar atento à inflação. Sim, o Bolsa Família vai bem, obrigado. Elogie-se, com restrições, o Brasil Carinhoso. A instalação da Comissão da Verdade foi importante.

Mas os sinais são claríssimos do afastamento do governo Dilma daquilo que historicamente marcou o PT: a conexão com os movimentos sociais.

A condução desastrosa da questão indígena, que resultou na morte de um ser humano terena. A Funai está em processo de ser descaracterizada. E cereja do bolo: devido à identificação de um falso índio, a PF irá promover uma devassa em RG de indígenas. Muito que bem, falsificação ideológica é crime e deve, sim, ser combatida. Mas, por que a PF, sob comando do Ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, não fala em devassar títulos de propriedades se também temos sabidamente títulos falsos? E a devassa na PF para verificar se o tiro que matou Oziel Gabriel partiu de uma arma de um policial federal, cadê?

Agora, o mesmo Ministro da Justiça disse que os protestos de São Paulo e Rio de Janeiro contra o aumento das tarifas de transporte coletivo seriam analisadas pela PF. O que a PF tem a ver com caso? A própria nota do MJ reconhece que os casos de vandalismo são da alçada estadual. O Excelentíssimo Senhor Ministro Cardozo suspeita que o Movimento Passe Livre seja um grupo terrorista?

Eu sou crítico aos atos de vandalismo de destruição de propriedades públicas e privadas ocorridas durante os protestos. Afinal, o que o coitado do jornaleiro tem a ver com os aumentos das tarifas para ter sua banca destruída? Critico também a ação truculenta da polícia, sobretudo nos momentos em que parte para o ataque sem haver provocação prévia e quando atinge inocentes. Mas... o que a PF tem a ver com isso?

E o Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, não apenas retirou de circulação campanha de proteção da saúde voltada às prostitutas após grita de setores conservadores religiosos, como demitiu Dirceu Greco, diretor do Departamento de DST, Aids e hepatites virais, responsável pela campanha.

Anteriormente, em 2011, também cedendo à pressão de conservadores religiosos, o MEC, então sob responsabilidade de Fernando Haddad, atual prefeito da capital paulista, cancelou a distribuição de kits de campanha contra a homofobia nas escolas.

O PT, como partido, deu uma bola fora total ao deixar a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal nas mãos de um conservador religioso.

E a presidenta Dilma Rousseff tem deixado isso rolar de boa. Para que elegemos um governo de esquerda, se suas ações são de um conservadorismo tacanho?

É bom que Rousseff retome o rumo rapidinho, deixando de ficar refém da agenda dos conservadores religiosos.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Manifesto pela correção política

Ok, não é um manifesto. Mas ouvindo o excelente podcast Dispersando do Scienceblogs Brasil sobre Humor, flagrei-me um tanto incomodado com críticas que considero injustas ao politicamente correto.

Hoje todo mundo critica o politicamente correto que nem sei bem onde recai o patrulhamento denunciado quando se diz, orgulhoso, que se é politicamente incorreto. O patrulhamento é tão baixo que a maioria das pessoas se sentem seguras em dizer isso.

Esse estado de coisas ganhou força lá na década de 1990, mas, ao contrário do que a maioria pensa, não pelo aumento da proeminência do politicamente correto, e sim pelo aumento da reação do que chamarei aqui de politicamente incorreto - a contrarreação conservadora à correção política. (Mais ou menos nos mesmos moldes da contrarreação conservadora à implantação das políticas de ações afirmativas no Brasil atualmente.)

Infelizmente a imagem de um bando de carolas censurando nomes feios pegou. Não levantarei o dedo em riste contra ninguém - eu mesmo embarquei de primeira onda contra o politicamente correto.

A correção política não se restringe a simplesmente uma tentativa de renomear as coisas. Há esse aspecto e há exageros. Não se jogue, porém, o bebê junto com a água da bacia.

Sim, nomes importam
Disso se sabe há muito. Não por acaso, monarcas dão-se títulos grandiloquentes: Alexandre, o Grande; Guilherme I, o Conquistador - nenhum deles irá se autodenominar: Sarrus, o Néscio; Luzer, o Perdedor. Isso se dá nas marcas das empresas e produtos. Ao contrário do que poetizava Shakespeare em Romeu e Julieta, uma rosa com outro nome pode não exalar o mesmo doce olor. Ninguém se diz abortista, chama-se pró-escolha - e isso é deliberado, quem seria contra a liberdade de escolha? - os anti-aborto chamam-se, pró-vida, quem seria contra a vida? Negacionistas climáticos chamam-se "céticos".

Ao se usarem nomes já carregados de estigmas: aidético, leproso, tísico... essa carga é, sim, transferida. Nomes não são neutros, palavras não são neutras: eu sou perseverante, tu és obstinado, ele é casmurro... um mesmo ato pode ser visto positiva ou negativamente, e palavras carregam esses conceitos valorativos. Palavras machucam. Podem incitar violência. Podem influenciar as atitudes e pontos de vista. Word is sword, a palavra é mais forte do que a espada - não chega a tanto, mas tem poder. (Não chegam a curar câncer ou coisas do tipo, infelizmente.)

Quando o termo "negro" nos EUA - ou "preto" aqui - está contaminado de carga negativa, pode-se optar por se tentar resgatar ou cooptar o termo: a torcida palmeirense internalizou o antes ofensivo "porco", neutralizando-o; ou buscar um termo mais neutro - ou até positivo: não se espera que a torcida são-paulina aceite o "bambi". O movimento negro nos EUA, preferiu o termo "black", e, no Brasil, o termo "negro" (interessante a simetria quiasmática). Há alguns que carregam uma conotação ainda mais neutra e "acadêmica'" como "afro-americanos" ou "afro-descendentes". Quando se está fora do grupo pode soar como algo cosmético, mas quando se é vítima, isso pode fazer diferença substancial na autoimagem.

Eventualmente o termo pode se desgastar e readquirir uma conotação negativa e será preciso procurar outro.

Não, não são apenas os nomes
Renomear coisas é um dos aspectos menores da correção política. Campanhas de esclarecimento à população contra a discriminação invisível e inconsciente: quem anda normalmente não sente a diferença que fazem as rampas de acesso na mobilidade (pode até achá-las um tanto incômodas). Mudar a legislação para impedir atos discriminatórios: não pode usar o elevador social só porque está com roupa de doméstica?

A correção política se traduz em outro nome: justiça social. Quem será contra? A correção política busca a inclusão social de grupos minoritários, sua integração efetiva à sociedade. Acesso à educação, aos bens de consumo, aos serviços sociais, proteção à sua integridade física e moral. Ao pleno exercício de umas coisinhas chamadas: direitos humanos e garantias constitucionais.

A correção política também pode ser traduzida por outro nome: cidadania. Cidadania de quem é politicamente correto - o respeito à alteridade, a proteção aos necessitados -, e a cidadania dos próprios sujeitos dos grupos minoritários - o resgate de sua identidade e do pertencimento à sociedade.

Passa por pequenas coisas como não jogar lixo na rua, valorizar o comércio de bairro, usar transporte coletivo e segue até grandes questões de direitos humanos, discriminação social, meio ambiente... Claro que, criada pela Nova Esquerda (nova à época, já que surgiu na década de 1970), a questão da correção passa em muito pelo ponto de vista progressista (o Brasil é um lugar estranho, temos um Partido Progressista que é uma das coisas mais reacionárias, um Democratas que acolhe os que se locupletaram na ditadura, um PTB que de trabalhista não tem nem sombra e um PSDB cada vez menos social-democrata), mas, de novo, quem há de ser contra os direitos das mulheres, dos negros e das demais minorias sociais? Quem há de ser contra a preservação dos recursos naturais?

Sim, sempre tem uns - novamente sem eufemismos - babacas que não entendem, como estes e este, que não enxergam a diferença entre ser minoria e ser maioria. Ou, nas palavras de Renan Picoreti (do n-Dimensional): "Tem coisa mais ridícula que membro de maioria social se fazer de perseguido?"

Correção política não é chatice. Não mais do que respeitar os outros é chatice.

Ser politicamente incorreto é achar que homem que é homem bate em mulher (pode até não saber porque está batendo, mas ela saberá porque está apanhando), que lugar de preto é na cozinha e só pode tomar laranjada quando sai briga na feira, que os animais podem ser torturados à vontade, que veado tem mais é que apanhar pra aprender a ser gente, que os pobres que se explodam, que véios, doentes mentais, aleijados e outros incômodos têm mais é que ficar escondidos em casa e não enfeiando as ruas e pedindo acesso e mobilidade para locais públicos; é defender o "estupra, mas não mata" ou "se o estupro é inevitável, relaxa e goza", afinal se a mulher é estuprada, foi porque provocou... Se você discorda de todas essas barbaridades, parabéns, você é politicamente *correto* - apenas discorda do nome, pois caiu no trote dos conservadores, WASPs e ranhetas (nessa ordem), da década de 90 do século passado: os pápis dos atuais neocons (incluindo a direita religiosa americana).