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sexta-feira, 14 de junho de 2013

PM = Pega na Mentira #ProtestaSP

Sob um certo aspecto, pior do que a violência física dos golpes de cassetetes, dos tiros de bala de borracha, do efeito das bombas de gás lacrimogênio e spray de pimenta é a violência da carice de pau das "explicações" para a truculência policial e outros atos comprometedores. Abaixo uma pequena coleção.

*Cena presenciada pelo iG contraria versão da PM para início de confronto
"Polícia alegou que manifestantes descumpriram acordo ao entrarem na rua da Consolação, mas negociação mostra coronel pedindo que manifestantes ficassem na avenida"

"É o risco da profissão", diz comandante da PM sobre jornalistas feridos durante manifestação em SP

Vinagre pode virar bomba, diz comandante de operação contra protesto em SP
"De acordo com o responsável pela ação, o tenente-coronel Ben-Hur Junqueira, o vinagre representa uma série de riscos em grandes aglomerações de pessoas. Ele chegou a dizer que a substância pode dar origem a uma bomba, embora não tenha dado mais detalhes de como chegou a essa conclusão."

Após golpear carro da corporação em protesto em SP, PM diz que tirava estilhaços
"'Já temos a apuração. Ele não estava quebrando. Na verdade ele estava tirando os estilhaços de um vidro já quebrado durante a manifestação. Isso já está esclarecido', disse Grella."

Bala que atingiu repórter da 'Folha' foi disparada para o chão, diz PM

Balanço oficial da PM aponta só policiais feridos em protesto

Ah, a deliciosa sensação de ser chamado na caradura de estúpido...

Reitero, no entanto, que o problema não são *os* PMs, mas *a* PM e seu modo de agir e se justificar.

*Upideite(16/jun/2013): adido a esta data.

DENÚNCIA: PM DETÉM AÇÃO TERRORISTA

MELIANTE vinculado a revista SUBVERSIVA foi detido por valorosos agentes do excelso órgão mantenedor da ORDEM PÚBLICA, a Polícia Militar do Estado de São Paulo, portando, sem os necessários registros e autorização legais exigidos para produtos CONTROLADOS pelo exército, solução de ÁCIDO metanocarboxílico, também denominado de ÁCIDO etanóico, em monóxido de diidrogênio.

A perigosa substância, obtida da OXIDAÇÃO de METILCARBINOL (uma potente DROGA PSICOATIVA), é utilizada na fabricação de EXPLOSIVOS e PESTICIDAS. Em contato com a pele, mucosas, olhos e vias aéreas, o ÁCIDO metanocarboxílico pode causar: IRRITAÇÃO ocular, dérmica, nasal, laríngica; QUEIMADURAS nos olhos e pele; sensibilização da pele; EROSÃO dentária; escurecimento dérmico, hiperceratose; CONJUNTIVITE, lacrimação; EDEMA faríngeo e BRONQUITE crônica. Pode INFLAMAR se exposto a temperaturas acima de 39oC e EXPLODIR em mistura com o ar a 5,6%.
(http://migre.me/f0MsV)

Somente na Federação Russa, todos os anos, 16.000 pessoas são vítimas de acidentes com o composto. Sendo alta a taxa de mortalidade por INTOXICAÇÃO: 3.360 MORTES anuais.
(http://migre.me/f0MHi)

Claramente, portanto, trata-se de um esquema TERRORISTA, devendo o FACÍNORA ser enquadrado na LEI DE SEGURANÇA NACIONAL.
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http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/sp/2013-06-13/jornalista-e-preso-por-porte-de-vinagre-durante-protesto-no-centro-de-sp.html

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Uma grande marca de São Paulo #ProtestaSP



Upideite(13/jun/2013): "Quem acompanhou a manifestação contra o aumento das tarifas de ônibus ao longo dos dois quilômetros que vão do Teatro Municipal à esquina da Consolação com a rua Maria Antônia pode assegurar: os distúrbios desta quinta-feira começaram às 19h10m, pela ação da polícia, mais precisamente por um grupo de uns vinte homens da tropa de choque, com suas fardas cinzentas, que, a olho nu, chegaram com esse propósito." Elio Gaspari. A PM começou a batalha na Maria Antônia.

Upideite(13/jun/2013): Mais marcas de São Paulo, essa do dia 11/jun/2013.

Upideite(16/jun/2013): Muito mais marcas aqui.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Governo Dilma perdeu o rumo

Não, não é a economia, Mr. Carville!

É o social, estúpido!

Os pibinhos incomodam. É preciso ficar atento à inflação. Sim, o Bolsa Família vai bem, obrigado. Elogie-se, com restrições, o Brasil Carinhoso. A instalação da Comissão da Verdade foi importante.

Mas os sinais são claríssimos do afastamento do governo Dilma daquilo que historicamente marcou o PT: a conexão com os movimentos sociais.

A condução desastrosa da questão indígena, que resultou na morte de um ser humano terena. A Funai está em processo de ser descaracterizada. E cereja do bolo: devido à identificação de um falso índio, a PF irá promover uma devassa em RG de indígenas. Muito que bem, falsificação ideológica é crime e deve, sim, ser combatida. Mas, por que a PF, sob comando do Ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, não fala em devassar títulos de propriedades se também temos sabidamente títulos falsos? E a devassa na PF para verificar se o tiro que matou Oziel Gabriel partiu de uma arma de um policial federal, cadê?

Agora, o mesmo Ministro da Justiça disse que os protestos de São Paulo e Rio de Janeiro contra o aumento das tarifas de transporte coletivo seriam analisadas pela PF. O que a PF tem a ver com caso? A própria nota do MJ reconhece que os casos de vandalismo são da alçada estadual. O Excelentíssimo Senhor Ministro Cardozo suspeita que o Movimento Passe Livre seja um grupo terrorista?

Eu sou crítico aos atos de vandalismo de destruição de propriedades públicas e privadas ocorridas durante os protestos. Afinal, o que o coitado do jornaleiro tem a ver com os aumentos das tarifas para ter sua banca destruída? Critico também a ação truculenta da polícia, sobretudo nos momentos em que parte para o ataque sem haver provocação prévia e quando atinge inocentes. Mas... o que a PF tem a ver com isso?

E o Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, não apenas retirou de circulação campanha de proteção da saúde voltada às prostitutas após grita de setores conservadores religiosos, como demitiu Dirceu Greco, diretor do Departamento de DST, Aids e hepatites virais, responsável pela campanha.

Anteriormente, em 2011, também cedendo à pressão de conservadores religiosos, o MEC, então sob responsabilidade de Fernando Haddad, atual prefeito da capital paulista, cancelou a distribuição de kits de campanha contra a homofobia nas escolas.

O PT, como partido, deu uma bola fora total ao deixar a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal nas mãos de um conservador religioso.

E a presidenta Dilma Rousseff tem deixado isso rolar de boa. Para que elegemos um governo de esquerda, se suas ações são de um conservadorismo tacanho?

É bom que Rousseff retome o rumo rapidinho, deixando de ficar refém da agenda dos conservadores religiosos.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Sobrou pro índio... de novo

O jornalista Claudio Angelo, em seu blog Curupira, disse em outubro do ano passado: "Está em curso no Brasil um revival do sentimento mais primordial da nossa nacionalidade: o ódio ao índio."

Só não sei se é mesmo um revival, a impressão que tenho é de que nunca houve um esmorecimento.

O que, a mim, parece ser uma certa novidade é um *governo* declaradamente de matiz *esquerdista*, na prática, atuar contra os direitos dos índios.

Não apenas nos grandes projetos nacionais como as usinas de Belo Monte e outras que avançam sobre reservas indígenas. (Considero que são projetos importantes e defensáveis, no entanto, houve e há atropelo no processo de sua implantação.) Mas agora em processo de desocupação e reintegração de posse com ação da *Polícia Federal* resultou na morte de um índia terena - Osiel Gabriel. Os índios ocupam a fazenda Buriti, que ocupa área dentro da região de 17 mil hectares que, por levantamento da Funai de 2001, deveria fazer parte da reserva terena em Mato Grosso do Sul.

E, mais, *ministra* da Casa-Civil, a senhora Gleisi Hoffmann, discursa em sentido de enfraquecer o órgão da União responsável pela questão indígena, incluindo o *Ministério da Agricultura* noa demarcação de reservas. A Casa Civil é o braço direito da presidência e, com a presidenta calada, a inferência é que há, no mínimo, anuência tácita de Rousseff. O mesmo processo de enfraquecimento do Ibama na questão ambiental durante os governos Lula é enfrentado agora pela Funai. Sempre com o fortalecimento dos interesses ruralistas.

Não é que os ruralistas sejam inerentemente malvados. Representam interesses legítimos de produtores rurais (não de todo, principalmente da parcela dos *grandes* produtores - levando a reboque os médios e pequenos). Mas não é possível se atropelar interesses difusos e fundamentais como o meio ambiente e os direitos dos povos indígenas - de quem usurpamos as terras ao longo do processo formativo brasileiro e de quem continuamos a roubar as áreas de sustento e identidade cultural, mesmo as já demarcadas na década de 1990 - em nome de interesses econômicos (dos ruralistas) e políticos (do governo federal em contar com apoio dos ruralistas).

Se a morte de Gabriel foi mesmo provocada por tiro de um policial federal (uma nova autópsia foi pedida), o governo Rousseff terá ainda mais contas a prestar.

domingo, 5 de maio de 2013

A tal "bolsa bandido" - e quando o bandido usa GAP?

A revista Veja, em sua chamada para matéria de capa desta semana (ed. 2320):
"Uma cruel inversão de valores
No Brasil, familiares de alguém morto por bandidos não têm direito a nenhum benefício exclusivo, ao passo que as famílias dos presos contam com o auxílio-reclusão – ou 'bolsa-bandido'. Para ajudar a restaurar a distinção entre vítimas e criminosos, a reportagem VEJA percorreu o país para ouvir crianças e adolescentes que perderam o pai, a mãe ou ambos nas mãos de assassinos Revista VEJA Edição 2320 8 de maio de 2013 É revoltante.
É intolerável
O estado ampara as famílias de quem cometeu crimes bárbaros. Quem cuida das vítimas?"

Não tem direito *exclusivo*, mas tem direito, no caso, à pensão por morte. Corresponde a 100% do valor da aposentadoria que recebia a vítima ou a que teria direito em caso de invalidez. O valor médio do benefício pago é de R$ 756.

O auxílio-reclusão, bom notar que quem recebe é a *família* não o presidiário, é pago apenas se o segurado estiver preso em regime fechado ou semi-aberto sem receber salário (não é pago se estiver em liberdade condicional ou em regime aberto e é suspenso se o segurado estiver fugido) e há um teto para o salário de contribuição que tem direito ao benefício (atualmente é de R$ 971,78) - o benefício é apenas para famílias carentes. O benefício médio pago é de R$ 681,86. Tampouco é *exclusivo* para quem for preso por homicídio.

Qual o motivo de revolta? Se um sujeito comete crime e é preso, a família deve ficar na miséria sem arrimo? Não.

Se um sujeito morre, a família deve ficar na miséria sem arrimo? Não.

Os dois casos são atendidos.

A família do morto também pode pedir indenização:
"Art. 948. No caso de homicídio, a indenização consiste, sem excluir outras reparações:
I - no pagamento das despesas com o tratamento da vítima, seu funeral e o luto da família;
II - na prestação de alimentos às pessoas a quem o morto os devia, levando-se em conta a duração provável da vida da vítima."

Se necessário, podem também ser atendidas, via SUS, para apoio psicológico. Em nível estadual, há ainda os Centros de Apoio às Vítimas de Crimes. O Cravi (Centro de Referência e Apoio à Vítima), de São Paulo, em novembro do ano passado, lançou uma cartilha de orientação às vítimas e seus familiares.

Nem todos esses instrumentos, infelizmente, funcionam como se desejaria e, claro, a dor da perda dificilmente é compensada por qualquer apoio material; mas maniqueísmo barato que se aproveita justamente da dor alheia é algo altamente reprovável - infelizmente tem se tornado padrão, não apenas da Veja, mas de todo um setor midiático que pretende capitalizar em cima das inseguranças do brasileiro (bem como de seu conservadorismo).

Vale lembrar palavras da própria Veja, há 15 anos, quando da terrível morte do índio pataxó Galdino dos Santos, queimado vivo por jovens brasilenses quando dormia em um banco de praça:
"Qualquer pessoa honesta com seus sentimentos sabe que, diante de um crime brutal, às vezes o que se deseja não é justiça mas a vingança, que dá satisfação imediata, alivia e até repara a dor sentida. Mas a Justiça não é isso. Ela existe para que as partes sejam ouvidas, os fatos examinados e, por fim, um juiz, no silêncio de seu gabinete, dê uma sentença de acordo com a lei e com sua consciência. É fácil pedir punições exemplares especialmente quando se trata dos filhos alheios. Também é agradável empolgar-se com o clamor popular a dificuldade é que, muitas vezes, se clama pelas causas erradas, ou mesmo por penas injustas, ou até pela condenação de inocentes, como ocorria no Brasil nos anos do regime militar."

O que mudou de lá para cá? Apenas o ano? Será que o fato de o crime de então ter sido cometido por jovens da classe média contra um índio miserável ativou uma visão mais comedida?

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Juíza processa blog do Sakamoto por publicar e criticar liminar da magistrada

Leonardo Sakamoto está sendo processado pela juíza Marli Lopes da Costa de Goes Nogueira por haver reproduzido e criticado no blog do próprio jornalista teor da liminar da magistrada que suspendia uma ação do Ministério Público de liberação de trabalhadores em condições análogas à escravidão.

A juíza quer que o texto e os comentários sejam removidos sob pena de multa diária de R$ 10 mil, além de um valor a ser determinado por danos morais.

Sakamoto não irá remover até a decisão final.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Manifesto pela correção política

Ok, não é um manifesto. Mas ouvindo o excelente podcast Dispersando do Scienceblogs Brasil sobre Humor, flagrei-me um tanto incomodado com críticas que considero injustas ao politicamente correto.

Hoje todo mundo critica o politicamente correto que nem sei bem onde recai o patrulhamento denunciado quando se diz, orgulhoso, que se é politicamente incorreto. O patrulhamento é tão baixo que a maioria das pessoas se sentem seguras em dizer isso.

Esse estado de coisas ganhou força lá na década de 1990, mas, ao contrário do que a maioria pensa, não pelo aumento da proeminência do politicamente correto, e sim pelo aumento da reação do que chamarei aqui de politicamente incorreto - a contrarreação conservadora à correção política. (Mais ou menos nos mesmos moldes da contrarreação conservadora à implantação das políticas de ações afirmativas no Brasil atualmente.)

Infelizmente a imagem de um bando de carolas censurando nomes feios pegou. Não levantarei o dedo em riste contra ninguém - eu mesmo embarquei de primeira onda contra o politicamente correto.

A correção política não se restringe a simplesmente uma tentativa de renomear as coisas. Há esse aspecto e há exageros. Não se jogue, porém, o bebê junto com a água da bacia.

Sim, nomes importam
Disso se sabe há muito. Não por acaso, monarcas dão-se títulos grandiloquentes: Alexandre, o Grande; Guilherme I, o Conquistador - nenhum deles irá se autodenominar: Sarrus, o Néscio; Luzer, o Perdedor. Isso se dá nas marcas das empresas e produtos. Ao contrário do que poetizava Shakespeare em Romeu e Julieta, uma rosa com outro nome pode não exalar o mesmo doce olor. Ninguém se diz abortista, chama-se pró-escolha - e isso é deliberado, quem seria contra a liberdade de escolha? - os anti-aborto chamam-se, pró-vida, quem seria contra a vida? Negacionistas climáticos chamam-se "céticos".

Ao se usarem nomes já carregados de estigmas: aidético, leproso, tísico... essa carga é, sim, transferida. Nomes não são neutros, palavras não são neutras: eu sou perseverante, tu és obstinado, ele é casmurro... um mesmo ato pode ser visto positiva ou negativamente, e palavras carregam esses conceitos valorativos. Palavras machucam. Podem incitar violência. Podem influenciar as atitudes e pontos de vista. Word is sword, a palavra é mais forte do que a espada - não chega a tanto, mas tem poder. (Não chegam a curar câncer ou coisas do tipo, infelizmente.)

Quando o termo "negro" nos EUA - ou "preto" aqui - está contaminado de carga negativa, pode-se optar por se tentar resgatar ou cooptar o termo: a torcida palmeirense internalizou o antes ofensivo "porco", neutralizando-o; ou buscar um termo mais neutro - ou até positivo: não se espera que a torcida são-paulina aceite o "bambi". O movimento negro nos EUA, preferiu o termo "black", e, no Brasil, o termo "negro" (interessante a simetria quiasmática). Há alguns que carregam uma conotação ainda mais neutra e "acadêmica'" como "afro-americanos" ou "afro-descendentes". Quando se está fora do grupo pode soar como algo cosmético, mas quando se é vítima, isso pode fazer diferença substancial na autoimagem.

Eventualmente o termo pode se desgastar e readquirir uma conotação negativa e será preciso procurar outro.

Não, não são apenas os nomes
Renomear coisas é um dos aspectos menores da correção política. Campanhas de esclarecimento à população contra a discriminação invisível e inconsciente: quem anda normalmente não sente a diferença que fazem as rampas de acesso na mobilidade (pode até achá-las um tanto incômodas). Mudar a legislação para impedir atos discriminatórios: não pode usar o elevador social só porque está com roupa de doméstica?

A correção política se traduz em outro nome: justiça social. Quem será contra? A correção política busca a inclusão social de grupos minoritários, sua integração efetiva à sociedade. Acesso à educação, aos bens de consumo, aos serviços sociais, proteção à sua integridade física e moral. Ao pleno exercício de umas coisinhas chamadas: direitos humanos e garantias constitucionais.

A correção política também pode ser traduzida por outro nome: cidadania. Cidadania de quem é politicamente correto - o respeito à alteridade, a proteção aos necessitados -, e a cidadania dos próprios sujeitos dos grupos minoritários - o resgate de sua identidade e do pertencimento à sociedade.

Passa por pequenas coisas como não jogar lixo na rua, valorizar o comércio de bairro, usar transporte coletivo e segue até grandes questões de direitos humanos, discriminação social, meio ambiente... Claro que, criada pela Nova Esquerda (nova à época, já que surgiu na década de 1970), a questão da correção passa em muito pelo ponto de vista progressista (o Brasil é um lugar estranho, temos um Partido Progressista que é uma das coisas mais reacionárias, um Democratas que acolhe os que se locupletaram na ditadura, um PTB que de trabalhista não tem nem sombra e um PSDB cada vez menos social-democrata), mas, de novo, quem há de ser contra os direitos das mulheres, dos negros e das demais minorias sociais? Quem há de ser contra a preservação dos recursos naturais?

Sim, sempre tem uns - novamente sem eufemismos - babacas que não entendem, como estes e este, que não enxergam a diferença entre ser minoria e ser maioria. Ou, nas palavras de Renan Picoreti (do n-Dimensional): "Tem coisa mais ridícula que membro de maioria social se fazer de perseguido?"

Correção política não é chatice. Não mais do que respeitar os outros é chatice.

Ser politicamente incorreto é achar que homem que é homem bate em mulher (pode até não saber porque está batendo, mas ela saberá porque está apanhando), que lugar de preto é na cozinha e só pode tomar laranjada quando sai briga na feira, que os animais podem ser torturados à vontade, que veado tem mais é que apanhar pra aprender a ser gente, que os pobres que se explodam, que véios, doentes mentais, aleijados e outros incômodos têm mais é que ficar escondidos em casa e não enfeiando as ruas e pedindo acesso e mobilidade para locais públicos; é defender o "estupra, mas não mata" ou "se o estupro é inevitável, relaxa e goza", afinal se a mulher é estuprada, foi porque provocou... Se você discorda de todas essas barbaridades, parabéns, você é politicamente *correto* - apenas discorda do nome, pois caiu no trote dos conservadores, WASPs e ranhetas (nessa ordem), da década de 90 do século passado: os pápis dos atuais neocons (incluindo a direita religiosa americana).

quarta-feira, 10 de março de 2010

Por que não te calas, Lula? - 2

Agora, juntando injúria ao insulto, Lula emenda esta a respeito dos presos políticos em Cuba:

"Temos de respeitar a determinação da Justiça e do governo cubanos. A greve de fome não pode ser um pretexto de direitos humanos para liberar as pessoas. Imagine se todos os bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade."

sexta-feira, 5 de março de 2010

Por que não te calas, Lula?

Até é compreensível - embora não plenamente justificável, a meu ver - a vista grossa que governantes que se pretendem democráticos fazem de violações de direitos humanos cometidos por governos aliados ou de países nos quais possuem certos interesses (econômicos, milatares, políticos...).

Por isso os EUA não pressionam tanto o governo da China a respeito das seguidas violações contra os direitos humanos de ativistas contrários à ditadura do PC chinês. No episódio da invasão ao Google, a diplomacia americana, sempre tão afeita aos interesses de sua indústria, um tanto que tentou colocar panos quentes.

Que o Brasil não condene as violações em Cuba, no Irã, ou mesmo em Sudão, ainda que vergonhoso, é analisável à luz da doutrina da solução dialogada. Agora, passa de qualquer limite razoável o que foi fartamente comentado semana passada. Lula, em visita à Cuba, tendo coincidido com a morte, em decorrência da greve de fome, do preso político Orlando Zapata comentou o seguinte: "Lamento profundamente que uma pessoa se deixe morrer por uma greve de fome".

Menos pior se tivesse preferido se calar ou mesmo tergiversar. Poderia ter sido até ambíguo: lamentando a morte sem culpar o regime castrista. Mas acabou saindo essa besteira incomensurável.

(Claro que nem o Brasil, nem os EUA são livres de críticas de violações - graves - aos direitos humanos. Guantánamo é a vergonha do tio Sam, as prisões brasileiras também vivenciam diariamente horrores cometidos contra presos comuns.)

domingo, 10 de janeiro de 2010

Quando o Fla x Flu cega

Paulo Henrique Amorim fez uma leitura errada da manchete da Folha e caiu de pau no ministro Paulo Vannuchi.

A manchete é: 'Vannuchi ameaça demissão se plano punir torturados'.

PHA leu: 'se punir *torturadores*'. E desceu o sarrafo no ministro. (Eu também desceria se ele tivesse dito isso. Ou se a Folha tivesse escrito isso. Não se disse, nem se escreveu tal bobagem.)


Mal, Paulão, mal.

No blogue do Nassif também há uma postagem sobre o tema. Um leitor diz que houve manipulação na manchete. O leitor também parece ter lido "torturadores" em vez de "torturados". Nassif comenta que ainda assim houve uma manipulação, pois a hipótese de se punir torturados não existe. De certo modo não existe e a manchete não é mais adequada, porém daí a se falar em manipulação acho exagerado.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Decreto 7.037/2009

Reinaldo Azevedo e Sergio Abranches desancam o decreto 7.037/2009: inconstitucional, ditatorial, ambos afirmam uníssonos. Segundo os dois, bastaria ler para verificar tais características.

Li e não achei nada de mais. Concordo com o Azevedo no que diz respeito ao blablablá de introdução aos eixos no anexo do decreto - dispensável por pouco objetivo. De resto são objetivos que considero muito válidos: chegam atrasados, mas pelo menos chegaram. É um dos poucos projetos dos governos Lula que avançam na questão dos direitos humanos propriamente dito, área tremendamente deficitária na administração cefalópoda.

A ICAR, claro, está de cabelo em pé com os itens sobre a laicidade estatal, coisa que está em nossa CF e ela - e vários órgãos do governo - insistem em ignorar. Como a questão da ostentação de símbolos religiosos em repartições públicas.