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segunda-feira, 14 de julho de 2014

Terrível simetria

Parte das feministas (e não apenas elas) aplicam mal o conceito de falsa simetria. (Não sei a proporção. São pelo menos quatro casos.)

A falsa simetria ocorre quando se desconsidera a desigualdade existente entre um conjunto X de condições de A e de B para aplicar o mesmo tratamento em relação a essas condições. Por exemplo, falar que, como a mulher se aposenta com 60 anos, os homens também deveriam poder se aposentar com essa idade e não com 65 - ignorando que a aposentadoria mais cedo compensa parcialmente a desigualdade nas condições de trabalho: menores salários e dupla jornada, p.e.**

Quando se propõe tratamento igualitário para condições Y de A e de B, em que não há desigualdade sensível, não há que se falar em falsa simetria. P.e., se os homens podem gostar de sexo casual, as mulheres também podem ('poder' no sentido moral).***

O que algumas feministas parecem entender é que falsa simetria se refira à toda igualdade de tratamento proposta com base na extensão ao homem do direito/privilégio/estado dado à mulher. Se invertermos o exemplo acima: "Se as mulheres podem gostar de sexo casual, os homens também podem" - para essas, soa como uma falsa simetria.

Esse exemplo acima é hipotético, mas o seguinte é verdadeiro. Comentei jocosamente no twitter que, na Copa do Mundo de Futebol Feminino ano que vem, as mulheres irão comentar sobre esquemas táticos e habilidades das jogadoras, enquanto os homens irão falar de coxas e quadris. Pra quê? Virei machista (o que, a propósito, declaradamente eu sou*).

Claro, há pressuposições ocultas. Por exemplo, que a brincadeira acima assume que as mulheres só falem sobre coxas e traseiros dos jogadores e não sobre esquemas táticos e desempenhos. Não há nenhuma suposição quanto a isso acima. Quer dizer, supuseram que eu supus. Ótemo.

Outra pressuposição: que implica que as mulheres não tenham o direito de falar sobre a beleza masculina. Novamente, nenhuma suposição como essa lá em cima.

A pressuposição existente e que, aparentemente, não foi percebida é: há um discurso condenatório quanto à objetificação da mulher pelo homem quando este manifesta seu agrado pela beleza física feminina. Até aqui é uma crítica aceitável. Porém, surge um contrassenso quando, por parte de quem tem tal discurso, fazem-se observações de mesma natureza em relação aos jogadores. Não há, aqui, uma falsa assimetria quando se observa que: "então os homens não podem apreciar a beleza feminina, mas as mulheres podem [apreciar a dos homens]?" Não há uma desigualdade na condição humana que permita que um gênero possa ser objetificado e outro não.

A contradição também pode ser desfeita com um discurso mais liberal - em um sentido, menos moralizante: "é ok os homens falarem da beleza das mulheres, desde que as mulheres também possam fazer isso em relação aos homens". O que implica no vice versa: "é ok as mulheres falarem da beleza dos homens, desde que os homens também possam fazer isso em relação às mulheres".

*Vide a observação ao pé do texto aqui.

**Upideite(15/jul/2014): Ou seja, temos as condições X (trabalhistas: salário, jornada); A, digamos, mulheres; e, portanto, B homens. E X_A ≠ X_B (há assimetria). E temos um elemento relacionado a X, aposentadoria (x). Se queremos que X'_A = X'_B (igualdade aqui denotando equivalência), não adianta que, em: X_A + x_a = X'_A e X_B + x_b = X'_B, x_a e x_b sejam iguais (simétricos). x_a e x_b precisam ser antissimétricos; os desiguais precisam ser tratados de modo desigual para restaurardesfazer a desigualdade. Naturalmente o tratamento deve ser no sentido de reduzir a desigualdade, não de aumentá-la.

***Upideite(15/jul/2014): Ou seja, temos as condições Y (direito à liberdade sexual); A, mulheres, e B, homens. E Y_A = Y_B (há simetria). E temos um elemento relacionado a Y, prática sexual (y). Se queremos que Y'_A = Y'_B, com Y'_A = Y_A + y_a e Y'_B = Y_B + y_b, naturalmente, y_a tem que ser igual a y_b (simétricos).

domingo, 13 de outubro de 2013

Don’t Start None, Won’t Be None

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wachemshe hao hao kwangu mtapoa
I got this wrap cloth from Tanzania. It’s a khanga. It was the first khanga I purchased while I was in Africa for my nearly 3 month stay for field research last year. Everyone giggled when they saw me wear it and then gave a nod to suggest, “Well, okay”. I later learned that it translates to “Give trouble to others, but not me”. I laughed, thinking how appropriate it was. I was never a trouble-starter as a kid and I’m no fan of drama, but I always took this 21st century ghetto proverb most seriously:
Don’t start none. Won’t be none.
For those not familiar with inner city anthropology – it is simply a variation of the Golden Rule. Be nice and respectful to me and I will do the same. Everyone doesn’t live by the Golden Rule it seems. (Click to embiggen.)
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The Blog editor of Biology-Online dot org asked me if I would like to blog for them. I asked the conditions. He explained. I said no. He then called me out of my name.
My initial reaction was not civil, I can assure you. I’m far from rah-rah, but the inner South Memphis in me was spoiling for a fight after this unprovoked insult. I felt like Hollywood Cole, pulling my A-line T-shirt off over my head, walking wide leg from corner to corner yelling, “Aww hell nawl!” In my gut I felt so passionately:”Ofek, don’t let me catch you on these streets, homie!”
This is my official response:
It wasn’t just that he called me a whore – he juxtaposed it against my professional being: Are you urban scientist or an urban whore? Completely dismissing me as a scientist, a science communicator (whom he sought for my particular expertise), and someone who could offer something meaningful to his brand.What? Now, I’m so immoral and wrong to inquire about compensation? Plus, it was obvious me that I was supposed to be honored by the request..
After all, Dr. Important Person does it for free so what’s my problem? Listen, I ain’t him and he ain’t me. Folks have reasons – finances, time, energy, aligned missions, whatever – for doing or not doing things. Seriously, all anger aside…this rationalization of working for free and you’ll get exposure is wrong-headed. This is work. I am a professional. Professionals get paid. End of story. Even if I decide to do it pro bono (because I support your mission or I know you, whatevs) – it is still worth something. I’m simply choosing to waive that fee. But the fact is told ol’ boy No; and he got all up in his feelings. So, go sit on a soft internet cushion, Ofek, ’cause you are obviously all butt-hurt over my rejection. And take heed of the advice on my khanga.

You don’t want none of this
Thanks to everyone who helped me focus my righteous anger on these less-celebrated equines. I appreciate your support, words of encouragement, and offers to ride down on his *$$.
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Este é um reblog parte da campanha contra a atitude tacanha da Scientific American de censurar a postagem acima. A SciAm em vez de pedir desculpas à autora pela ofensa proferida pelo editor do sítio web parceiro (e tomar as devidas providências contra o ofensor) apagou a postagem em que a ecóloga urbana DNLee expunha o caso.

Upideite(14/out/2013): A editora da SciAm postou um esclarecimento dos motivos da remoção da postagem de DNLee sobre o episódio. A questão legal é relevante, mas soa como uma desculpa inventada a posteriori, sobretudo pela explicação inicial dada no twitter não mencioná-la - dava a entender que a remoção se dera pela postagem fugir do tema científico.


Upideite(14/out/2013): Nos comentários, @ciencianamidia informa que uma das administradoras do Biology Online se desculpa pela ofensa de um de seus editores à DNLee. O curioso é que o "the Blog Editor" é reduzido a um "our recently hired employee".

Upideite(14/out/2013): Pelo twitter, @ciencianamidia avisa que a postagem foi restaurada.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Oh my Bahls. Existe estupro consentido?

Gerou polêmica a cena em que o diretor de teatro Gerald Thomas, durante uma entrevista ao Programa Pânico, tentava colocar a mão por baixo da saia da apresentadora Nicole Bahls (e também abrir a braguilha de Daniel Zuckerman, caracterizado como Tucano Huck, *também tentou colocar a mão por baixo do vestido de Wellington Muniz, o Ceará, caracterizado como Micome Bahls).

Há um aspecto saudável da grita: parte da sociedade está vigilante quanto aos abusos contra a mulher.

Porém entre as acusações de praticamente um estupro, tentativa de estupro e promoção da cultura do estupro contra Thomas - o que, aliás, lembra-me o episódio envolvendo participantes do BBB12 - faltou atentar para as palavras da que seria a vítima: "Mas ele é gente boa, não foi grosseiro, não."

Assim como faltou àqueles que acusaram o modelo Daniel Echaniz de estupro ouvir antes o que a também modelo Monique Amin tinha a dizer. Depois de ver os vídeos, afirmou em depoimento que tudo fora consentido. E o inquérito foi arquivado por decisão da Justiça.

Ainda que o Programa Pânico seja ao vivo, a entrevista foi gravada e editada (e deverá ir ao ar domingo, 14/abr/2013). Obviamente havia anuência por parte de Bahls. E, houvesse qualquer problema, ela diria. Uma objeção que me apresentaram quando disse que a própria 'vítima' inocentara Thomas é que a violência ocorrera, ela tendo ou não noção da situação. Não me parece ser o caso, porque Nicole Bahls é uma mulher adulta e estava plenamente consciente, teve tempo para pensar no caso. Insistir que ela não tem condições de avaliar o que lhe é ou não agressivo é tirar dela a capacidade de discernimento, o que, peço desculpas se ofendo a alguém, é puro preconceito contra mulheres de boa aparência. Como se ser bonita e ser identificada a um certo culto à imagem fosse impeditivo de se ter discernimento - o odioso estereótipo da "loira burra".

Bahls saiu do programa como uma atração secundária - uma 'paniquete' (sim, o termo oficial é 'panicat') - e retornou como apresentadora (após uma rápida passagem pela Record). Pelo jeito, volta turbinando a audiência (a conferir**).

Disclêimer: O aviso de praxe - sou machista, mas não me orgulho disso.
*Upideite(15/abr/2013): adido a esta data.
Upideite(15/abr/2013): Já subiram um vídeo com a entrevista.
**Upideite(15/abr/2013): Pelo jeito não teve esse efeito de aumento de audiência. Foi de cerca de 7 pontos, a média que vem atingindo nas últimas semanas.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O estrupo* no BBB12

Esse alvoroço a respeito da cena na cama entre dois integrantes do Big Brother Brasil 12 tem trazido alguns aspectos muito perigosos na argumentação.

Acertadamente, vários já criticaram as barbaridades machistas da justificação de um estupro de vulnerável e, mais amplamente, de violência contra as mulheres. Do outro lado, há a alegação de que há racismo na acusação.

Outro ponto deplorável é a condenação prévia, a execração pública de um fato não esclarecido. Houve mesmo estupro?

Os capítulos I (artigos 213 a 216A) e II (artigos 217 a 218B) do Título VI do Código Penal versam sobre os crimes sexuais. Antes de mais nada é preciso que se estabeleça que tenha havido sexo (conjunção carnal) ou ato libidinoso (como manipulação de partes íntimas). O vídeo mostra movimentação sob o edredon, mas isso é apenas sugestivo. Não sabemos o que houve. O acusado diz que houve apenas beijos (visíveis no vídeo) e passada de mão (a depender de onde poderia ser caracterizado ato libidinoso, mas a própria virtual vítima diz que isso foi feito reciprocamente).

Aparentemente não houve violência ou grave ameaça, então o artigo 213 (estupro) não se aplicaria. Não houve aparentemente fraude ou uso proposital de meio que dificultasse ou impedisse a livre manifestação da vontade da vítima, assim, o artigo 215 (violência sexual mediante fraude) também não se aplicaria. Não se trata de assédio sexual por não envolver relações de hierarquia de cargo (artigo 216A). Os artigos 214, 216, 217 estão revogados.

O 218 (corrupção de menores) não é o caso por não se tratar de menor de 14 anos. O 218A não se aplica por não envolver sexo na presença de menor de 14 anos. O 218B (favorecimento de exploração sexual de vulnerável) também não por não ser caso de prostituição, nem de menor de 18 anos.

Restaria o 217A, caso tenha havido sexo ou ato libidinoso não consensual. O artigo (estupro de vulnerável) prevê os seguintes casos: sexo com menor de 14 anos (não é o caso), enfermidade (não é o caso), deficiência mental (não é o caso) ou alguma outra causa em que a vítima não possa oferecer resistência - seria o álcool.

Pelos trechos publicados das falas da suposta vítima, se houve sexo, não foi consensual. Porém, mesmo que tenha havido sexo não consensual, pode ser o caso de não se tratar de estupro de vulnerável se o perpetrador do ato também estivesse sob influência alcoólica que houvesse diminuído sua capacidade de discernimento - a menos que o uso do álcool para a facilitação da prática do sexo tivesse sido intencional (o que não é o caso - a bebida foi ingerida durante festa promovida pela produção do programa).

Diz o Código Penal em seu artigo 28, inciso II:
"Art. 28 - Não excluem a imputabilidade penal:
II - a embriaguez, voluntária ou culposa, pelo álcool ou substância de efeitos análogos.
§ 1º - É isento de pena o agente que, por embriaguez completa, proveniente de caso fortuito ou força maior, era, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento.
§ 2º - A pena pode ser reduzida de um a dois terços, se o agente, por embriaguez, proveniente de caso fortuito ou força maior, não possuía, ao tempo da ação ou da omissão, a plena capacidade de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento."

Ou seja, não sabemos nem ao menos se houve agressão. E, se houve, é possível que o acusado seja inimputável.

Um crime, no entanto, que pode ter ocorrido é o de calúnia (art. 138), caso o acusado não venha a ser condenado em decisão de corte transitada em julgado, por parte dos que saíram a gritar: "estuprador". Claro que o estupro é um crime terrível e se entende, por isso, a comoção, mas o código penal exclui paixão e emoção como desculpas para crimes (art. 28, inc. I) - incluindo os de calúnia e injúria.

Que o caso seja devidamente investigado e apurado. E, *se* se houver cometido crime, que o(s) responsáveis seja(m) devidamente punido(s).

O que não posso deixar de notar, porém, é a estranhíssima atitude da Rede Globo. Na edição de segundadomingo, nada foi dito a não ser "o amor é lindo" pelo apresentador Pedro Bial, após a exibição editada das cenas polêmicas. Na terçasegunda-feira a produção do programa decidiu por expulsar o participante acusado por "grave comportamento inadequado".

"Lindo" é um tanto antitético em relação a "grave e inadequado", não obstante, o que pega é a produção afirmar que "[d]esde domingo de manhã, a direção avalia o comportamento de Daniel, suspeito de ter infringido as regras do programa". As questões são:

1) por que os participantes e o público não foram avisados, então, que havia um participante sob observação?
2) por que os participantes não foram isolados - se havia potencial de comportamento inadequado grave, não haveria risco na exposição dos demais?
3) a Globo, ao perceber o potencial do problema, deu à participante, suposta vítima, todas as informações necessárias para que ela pudesse dar os necessários esclarecimentos? (Isto é, foi mostrado o video à participante para que ela pudesse dizer até onde as ações foram consentidas e a partir de que momento - se houve algum - deixaram de ser?)
4) a Globo acha adequado dizer apenas que se trata de um "grave comportamento inadequado", deixando a suspeição de algo realmente grave (crime de estupro de vulnerável) sobre uma pessoa?


*Obs: Existe, sim, na língua portuguesa a palavra 'estrupo', mas com o significado de 'tumulto, ruído, alvoroço'.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Jogando pedra na Geni (Soninha)...

Enviei agora o comentário abaixo ao blogue do Nassif em função da postagem sobre uma notícia a respeito de Soninha Francine e dos comentários gerados.

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Gente, olhe o assassinato de reputação aí.

1) Especulação sobre a relação pessoal dela com José Serra é de uma torpeza que me envergonha.;

2) Se ela posa ou não nua é questão novamente estritamente pessoal - conservadorismo tacanho criticar alguém por conta disso;

3) A questão do blogue do Gravataí Merengue/Fernando Gouveia sobre o contrato do BNDES, embora eu o critique por ter usado um pseudônimo e não tê-lo assumido, a justiça considerou como estritamente dentro da lei; de resto é uma desavença pessoal entre ele e Nassif fruto de um grande mal entendido; de resto, é uma ação autônoma de GM/FG, quem tiver provas de que foi ação a mando de Soninha Francine (provas, não ilações) que as apresente;

4) Pode-se criticar as decisões políticas e/ou desempenho de Soninha Francine nos cargos que ocupou. Eu tenho minhas críticas, em particular a diversas ações durante a campanha presidencial (o tweet dela do "#sabotagem #medo #coincidência" atribuindo a manobra petista/eleitoral falhas no metrô de São Paulo foi de lascar);

5) Mantenhamos a serenindade e o nível na crítica a adversários políticos.

[]s,

Roberto Takata

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(Sim, dupliquei o 'de resto' no item 3, malsaê.)

Não sou o único incomodado com o baixo nível das críticas. (Recuso-me a reproduzir aqui as barbaridades escritas lá.) Pelo menos outro comentário postado segue na mesma linha:
"ter, 06/09/2011 - 22:48 Rafael Wuthrich
Denunciei dois e poderia denunciar vários. Uma coisa é o comportamento político, o alinhamento à direita e agora a ocupação de cargo público puro e simples; outra é ofender e desqualificar a moça, que tem boa aparência, na minha opinião, mas que não vem ao caso, assim como o que faz nas horas vagas. Não é esse tipo de coisa, salvo quando cômicas, que discutimos aqui."

Espero que Nassif apague rapidinho essas maledicências (não antes de dar um print e anotar o IP pra mandar para as autoridades competentes).

domingo, 24 de abril de 2011

Do banimento das burqas e niqabs na França

A lei francesa 2010-1192 em pleno vigor a partir de 11 de abril de 2011 que trata de ocultação da face em locais públicos é, ela mesma, dissimulada.

Diz o texto do artigo 1o:
"Nul ne peut, dans l'espace public, porter une tenue destinée à dissimuler son visage."

Aparentemente é livre de qualquer conotação antirreligiosa em geral e anti-islâmica em particular. Afinal, não apenas não menciona nenhum tipo em específico como burqa e niqab como implica na proibição da ocultação da face por quaisquer meios: como capacetes, máscaras, balaclavas, etc.

Mas aí vem o segundo parágrafo do art. 2o que lista as exceções:
"II. ― L'interdiction prévue à l'article 1er ne s'applique pas si la tenue est prescrite ou autorisée par des dispositions législatives ou réglementaires, si elle est justifiée par des raisons de santé ou des motifs professionnels, ou si elle s'inscrit dans le cadre de pratiques sportives, de fêtes ou de manifestations artistiques ou traditionnelles."

Claro, bombeiros precisam usar máscaras de oxigênio em incêndios, não faz sentido proibi-los. E esgrimistas? Sim, também liberado. E máscaras de carnaval? Opa, pode sim. E capacete para motocicletas? Claro que pode usar. E máscaras de proteção para vítimas de queimaduras? Sim, sim, não faz sentido proibi-los. Isto é, o artigo 2o em seu parágrafo II desfaz toda a proibição abrangente do artigo 1o menos para... sim, você adivinhou, os aparatos usados por mulheres muçulmanas. O mesmo artifício que baniu das escolas públicas francesas o uso de símbolos religiosos pelos alunos: para não se referir especificamente aos véus islâmicos, referiu-se genericamente a símbolos religiosos, mas para que se aplicasse somente aos véus islâmicos, adjetivou-se com "ostensivo" - a senha para o uso de outros símbolos, menos os véus.

(Se eu fosse advogado de uma muçulmana multada por uso de burqa apelaria para "manifestations traditionnelles" - ao menos no que se refere a alimentos, a legislação europeia considera como tradicional algo em uso contínuo por 25 anos.)

Claro que tem pouco efeito prático, nós daqui manifestarmo-nos sobre leis de acolá, mas é preocupante a escalada do cerco islamofóbico - e xenofóbico mais genericamente (ciganos também são afetados com leis restritivas, além de imigrantes africanos, asiáticos e latinoamericanos) - travestida em atos laicizantes e libertários.

Na edição de 23/abr/2011 da Folha, a Procuradora do MP/SP Luiza Nagib Eluf defende a lei francesa (só pra asssinantes aqui)*. Para responder que a lei *não* fere a laicidade estatal ela elenca três argumentos.
1) "Primeiro, porque, conforme as leis francesas, a humilhação ou a escravização da mulher não é permitida."
2) "Segundo, porque o Alcorão não determina o uso do véu."
3) "Em terceiro lugar, é preciso lembrar que as regras mais elementares de segurança pública recomendam que as pessoas não cubram suas faces e não se ponham mascaradas ao frequentar espaços de uso comum."

1a - se há já uma lei, para que uma nova?
1b - o problema é a humilhação, puna-se a agressão às mulheres. Se um homem açoita uma mulher, o problema é resolvido proibindo-se a posse de açoite ou punindo-se o uso do açoite contra pessoas? E se o homem humilha a esposa fazendo a vestir uma camiseta com os dizeres "sou uma prostituta", vai se proibir o uso de camisetas (talvez camisetas com qualquer tipo de frases)?
2 - para efeito da laicidade pouco importa o que o Corão determina ou deixa de determinar, a laicidade é cega a isso. Ou para se elaborar, aprovar e aplicar uma lei de um estado laico deve consultar primeiro o que um livro sagrado diz para ver se é ou não o caso?
3 - as regras que, pela própria redação da lei, admitem exceções. Por que exatamente a burqa e o niqab seriam perigosos para a segurança pública enquanto palhaços não?

A procuradora segue dizendo: "Por outro lado, quando algumas mulheres árabes se posicionam publicamente a favor da burca ou do niqab (os dois tipos de véu que cobrem o rosto, bem como todo o corpo e até as mãos), essas declarações demonstram a total falta de percepção da realidade e de sua própria condição. São pessoas que foram condicionadas a esse uso durante toda a existência e começaram a acreditar que são felizes assim." Ou seja, reduz essas mulheres a umas incapazes e que necessitam da tutela do estado.

Uma coisa é proibir que se obrigue alguém a fazer uma coisa, outra é proibir qualquer um de fazer essa uma coisa. Será que proibindo o uso de burqa e niqab magicamente as mulheres muçulmanas que são escravizadas pelos maridos ganharão uma consciência emancipatória (não estou nem considerando aqui os maridos que simplesmente proibirão suas esposas de sairem sem burqa e niqab)? Não seria liberdade garantir condições para que ninguém seja obrigado a usar burqas, nuqabs ou qualquer outra coisa contra sua vontade - e que quem quiser, de sua própria vontade, usar possa usá-los?

Proibir a burqa e niqab é, por si só, ineficiente para se atingir o objetivo de impedir a humilhação das mulheres. Enquanto priva dessa opção aquelas que realmente a desejam usar. Para se resolver a crítica situação das muitas mulheres muçulmanas (e não apenas as muçulmanas) submetidas a seus maridos é preciso criar condições: sistemas de denúncias de maus tratos e proteção à mulher, educação e trabalho, assistência social... e, nesse caso, proibir a burqa e niqab é inútil: as que não quiserem utilizar, não utilizarão.

Para algumas seitas cristãs, é obrigatório que as mulheres usem saias. Elas não podem, sob nenhuma hipótese, usar calças. Vai se proibir o uso de saias para libertar mulheres dessas seitas cristãs?

(*via @carloshotta)

Obs: O mesmo disclaimer feito na ocasião da discussão sobre o machismo nos blogues ditos progressistas vale aqui.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Regresso progressista - leitora comenta

Lola Aronovich do Escreva, Lola, Escreva comentou esta postagem:

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Post muito didático, explicando muita coisa pra quem finge não ver. Sobre a parte que me toca, há uma diferença gritante entre ser moderadora de grupo e estar numa mesa. Moderadores de grupo, pelo que me lembro, havia 6 grupos, 2 pra cada, um total de 12 blogueiros, e ainda assim, quantas eram mulheres? Duas? Três? Nas mesas, melhor nem falar. E comigo foi assim: desde que vi o número baixíssimo de mulheres, desde que os nomes começaram a ser divulgados, eu deixei um ou dois comentários no Vi o Mundo reclamando disso. No 1o comentário, fui solenemente ignorada. No 2o, a Maria Frô conversou comigo. E no final, devido a um esforço individual DELA, fui chamada. Antes mesmo disso repeti diversas vezes que blogueiros progressistas homens ignoram a existência de blogs escritos por mulheres. Quer um exemplo? Vamos ver o blogroll deles.

O Eduardo do Cidadania tem 30 blogs linkados, e quantos desses são de mulheres? NENHUM. O blog do Renato Rovai tem 13 blogs linkados. Nenhum de mulheres. O do Leandro Fortes tem 18 blogs linkados. Um é de uma blogueira, aleluia! O do Rodrigo Vianna tem 21 endereços como “sites que eu indico”. Tem um de uma mulher – o da Maria Frô. O do Miro tá cheio de “sítios” linkados. Não vou contar quantos são, mas algo me diz que os de mulheres não devem chegar a 10% (chutando alto). Preciso continuar? Ou tá uma boa amostra pra provar que, de fato, esses blogueiros que fazem parte da comissão do Blogueiros Progressistas NÃO conhecem blogs de mulheres? Ou eles conhecem, e eles só não têm o costume de linkar blogs de mulheres? E por que não, se linkam de homens? (vamos ficar na hipótese de que realmente não conhecem blogs de mulheres. É melhor do que achar que eles conhecem e simplesmente não consideram NENHUM digno de link).

Depois, quando veio a entrevista do Lula, eu demorei um monte pra me manifestar, apesar de DE CARA pensar, quando vi que não havia mulheres: "Oops, eles cometeram esse erro de novo!". E o fato é que nenhuma mulher acabou indo. Depois, muito depois, disseram ter convidado 4 blogueiras (sendo que uma não tem blog), e fico feliz que, apesar de no blogroll dessas feras não constar quase nenhuma blogueiras, eles conheçam QUATRO. Uau, quatro blogueiras inteiras! Quando as 4 disseram que não podiam ir, eles convidaram mais alguém? O processo não teve transparência nenhuma, e muita gente reclamou da falta de mulheres, porque, no ano em que elegemos nossa 1a mulher, pegou mal pacas. E muitos desses blogueiros reconheceram o erro. Eles não percebem, porém, que essa falta de mulheres nos seus blogrolls, nos eventos, nas entrevistas, não é coincidência. É consequência do seu machismo. De ignorarem blogueiras, de não quererem conhecer seus blogs. Mas eles ficam ofendidíssimos quando alguém fala de machismo. E, dessa forma, do alto da sua falta de auto-crítica, do alto de seus egos corporativistas, eles não se permitem mudar. Por isso que eu digo, desde o começo, que o episódio com Nassif não foi isolado. Aí, quando Idelber aponta o óbvio (que é preciso se inteirar sobre feminismo, ao invés de ignorá-lo), eles se unem, furiosos, pra destruir reputações. Essa é a nova mídia? Olhando daqui, parece bastante com a velha.
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Regresso machista

A postagem de um texto crítico ao feminismo (e machista, muito machista) e que utilizava o termo "feminazi" no blogue do Nassif - e de autoria de um leitor desse blogue - acabou suscitando um imbróglio com diversas ramificações.

O texto originalmente foi publicado em uma discussão com Bárbara O. nos comentários de outra postagem no blogue do Nassif.

O desenrolar é tão complexo que eu não saberia fazer um resumo. Aponto duas versões da evolução da história: uma do próprio Nassif, outra de Cynthia Semíramis.

Depois de críticas de diversas pessoas como Idelber Avelar (e de outros que procuraram contemporizar, como Renato Rovai e Conceição Oliveira), Nassif publicou uma retratação - que não foi bem recebida pelas mulheres, como Lola Aronovich.

Nassif desculpou-se, mas os erros cometidos foram grotescos, particularmente três: 1) a própria subida do comentário para uma postagem (até como comentário é ofensivo), 2) a não publicação das respostas das mulheres, 3) as respostas irônicas iniciais às críticas feitas pelo twitter.

Na explicação inicial, Nassif disse que desconhecia o termo "feminazi". À parte o que uma simples googleada poderia resolver, bastava ver a própria sonoridade da palavra - revelando sua composição: feministas + nazistas. É óbvio que isso é ofensivo.

Podemos aceitar que blogues tenham suas idiossincrasias e fujam do que podemos chamar de cultura ou convenções bloguísticas - o padrão geral é que se uma postagem é publicada, mesmo não sendo o autor dela, sem ressalvas, o responsável pelo blogue endossa o conteúdo. No caso do blogue do Nassif, a mecânica é distinta e tem por intuito fomentar a discussão. Bem, há limites do que se pode publicar sob tal escusa - uma postagem ofensiva rompe tais limites.

A retratação de Nassif, embora um tanto tardia, é digna de elogio pelo próprio fato de se reconhecer o erro. No entanto, cheia de ressalvas como veio, isso elimina ou diminui muito do impacto positivo que teria. A bronca das mulheres tem sua razão de ser. O pedido de desculpas foi brando frente ao grau de ofensa cometido (algo vagamente similar é o caso de Bóris Casoy e os garis).

Um tema lateral surgiu em meio a isso: sobre progressismo, esquerdismo e quejandos; mas trato disso em outra postagem.

Disclaimer: Sou machista, admito. Não, não me orgulho. Sim, procuro corrigir esse defeito.