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sábado, 11 de junho de 2016

O pescador e o homeopata

Repostando um breve conto que publiquei alhures.
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Pescador: "Cuidado ao imbarcá. Coloque os pé bem firmes no fundo do barco e afastados um do outro pra se equilibrá. Isso..."
Turista: "Uf, pronto. Obrigado. Como é seu nome mesmo?"
Pescador: "Meu nome é João Carlos, mas o sinhô pode me chamá de Joca. E qual a sua graça?"
Turista: "Sou doutor Charles Yaitanes."
Joca: "Ah, dotô Charles, que nem meu fio, ele fez dotorado em Química na federal..."
Yaitanes: "Na verdade, não fiz doutorado, sou médico homeopata."
Joca: "Ah, nem sabia qui tinha médico especialista nas omoplatas..."
Y: "Não, não. Eu faço homeopatia."
J: "Qui trocésse?"
Y: "É a cura pelos semelhantes."
J: "Não aenterdi.."
Y: "Assim, se a pessoa tem um problema, usamos uma coisa que causa esse problema para curar o problema."
J: "Como assim?"
Y: "Por exemplo, se a pessoa tem pressão alta..."
J: "Ah, eu tenho isso aê, dotô. O médico do posto disse qui é pra eu evitá o sar."
Y: "Isso. Mas pra tratar a pressão alta, usamos o natrum muriaticum."
J: "Qui trocésse?"
Y: "É o cloreto de sódio..."
J: "Mas, pelo que em alembro do que meu fio mi falô, isso é sar di cuzinha, num é?"
Y: "Sim."
J: "Mas o sar não faz mar?"
Y: "Sim, mas esse é o princípio da cura pelos semelhantes."
J: "Intão é só eu comê sar pra melhorá minha pressão?"
Y: "Não, não. Você tem que tomar o natrum muriaticum..."
J: "Que é o sar..."
Y: "Não."
J: "Mas o dotô cabô de dizê qui..."
Y: "Não, é o sal, mas não o é sal. Ele é dissolvido em água."
J: "Ah, aí ele fica bem fraquinho, né?"
Y: "Não, ele fica mais forte!"
J: "Cuméquié?"
Y: "Com a diluição na água, o efeito curativo do natrum muriaticum fica mais forte."
J: "Então é só eu botá um cadim de sar no copo di água i..."
Y: "Não. É preciso fazer várias diluições. Primeiro coloca-se 60 g de sal em um litro de água pura. Aí pega-se 100 ml dessa solução e se dilui em 900 ml de água pura. Pega-se 100 ml dessa nova solução e dilui-se em 900 ml de água pura."
J: "E quantas vez isso, dotô?"
Y: "Depende. Pode ser 30, 100 vezes. Quanto pior a doença, mais forte tem que ser o medicamento."
J: "Mas cum tanta diluição assim, a gente num fica só com água pura?"
Y: "Sim. Mas a água tem memória, ela guarda a informação da molécula original que foi diluída nela."
J: "Intão a água aqui do lago tem memória dos peixes qui nadam nela?"
Y: "Não. A memória se forma com o processo especial de diluição e dinamização que usamos."
J: "Dinamização?"
Y: "Isso. Quando fazemos a diluição, sacudimos o frasco em que ela é realizada, batemos vigorosamente contra uma tira de couro de cavalo; isso ativa a energia vital da molécula e cria a memória da água."
O pescador ficou calado o resto da pescaria. Apenas ligeiras instruções sobre como colocar a isca no anzol e lançá-la aos peixes. Em várias ocasiões pensou em contar a vez em que pescara uma piapara de 2 metros. Mas a vergonha o vencia. Não tinha causo que pudesse bater esse que o médico lhe contara.
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quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Unicamp promove criacionismo obrigatório a seus alunos - leitores comentam

Subi os comentários dos leitores na postagem original a respeito de uma palestra na Unicamp intitulada "Ciência e fé", mas publico também nesta postagem à parte para uma melhor indexação (maior visibilidade não terá porque o NAQ é muito pouco visitado).

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Mayara
"O professor Tessler afirmou que não estava na palestra, sendo assim, fontes que estavam presentes seriam mais confiáveis para uma descrição do que de fato foi falado. Apenas para citar uma fonte que realmente assistiu a palestra: Luciana 'estou impressionada na quantidade de questionamentos e críticas de pessoas que nem assistiram. A palestra é sim sobre fisiologia e como o nosso corpo reage a situações ligadas à 'fé' e afins.... Sobre a glândula pineal, etc... É muito interessante e está longe de ter uma conotação religiosa. Sobre a obrigatoriedade? É a abertura de um evento de IC, uma palestra... poderia ser qualquer tema. Qual é o problema?! Vc entra, não gostou, sai! Nunca vi tanto besteirol sendo discutido em um grupo de uma universidade como essa. O povo posta qualquer coisa e não percebe as dimensões que isso pode chegar. Lamentável!!! E o tal Leandro (professor???!!!) nem assistiu e fica dizendo que 'segundo relatos é de fundo religioso'.... por favor, né?!'. O que inseri entre aspas foi o que ela mesma escreveu no facebook no grupo de discussão da Unicamp.

Também acho válido ressaltar o comentário da professora que ministra Evolução na Unicamp, Mariana Nery. Ela mesma postou no grupo de discussões da universidade: 'INACREDITÁVEL, como hoje em dia as pessoas compartilham informações antes de checar. Muito irresponsável da parte de vocês primeiro postar algo que não diz muito (afinal, dou aula de EVOLUÇÃO na UNICAMP e na minha aula poderiam muito bem ter fotografado slides parecidos, mas cujo teor jamais versa sobre o criacionismo/DI). EXTREMAMENTE IRRESPONSÁVEL que compartilhem e se revoltem com tão pouco. Compartilharem um post de alguém que NEM ESTEVE na palestra e que diz que 'Não era uma palestra criacionista, mas com um fundo religioso segundo relatos.' (publicado no twitter dele). O professor Miguel, extremamente querido e respeitado, fala sobre os mecanismos fisiológicos da fé. Não estava doutrinando ninguém. Postagem totalmente sem contexto e que não quer dizer NADA. Apurem antes de se deixar levar por posts de twitter e facebook. Conversem com alguém que esteve na palestra, ou melhor, com o próprio palestrante. APUREM antes de publicar qualquer coisa. Estou profundamente chocada com vocês.'"
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"Olá, estava na palestra também, e, de fato, não foi uma palestra criacionista. Vou copiar o que escrevi na página do Eli Vieira porque já escrevi isso em várias páginas da internet nessa última hora, desculpe:

"Eu estava nessa palestra aí e ela de forma alguma foi uma palestra criacionista. Na verdade foi um elogio à ciência, na qual o palestrante contrapôs o modo de pensamento científico à fé. Para isso, ele apresentou narrativas bíblicas e discursos criacionistas que foram ironizados durante a apresentação. Pessoalmente, não gostei da palestra, achei muito debochada e superficial. Mas definitivamente foi uma palestra pró-ciência. Não senti nem mesmo o 'tom religioso'. Na verdade, o que o palestrante fez foi usar argumentos do tipo "Deus ia querer que vc questionasse mesmo" da mesma forma que é comum entre pessoas com descaso pela heresia falar que 'se sexo fosse pecado, não seria tão bom'. Já que o incêndio se alastrou, e foi alastrado por alguém que não estava presente à palestra, diga-se de passagem, acho razoável que você coloque um disclaimer sobre a história em um novo post, já que muita gente não vai descer até aqui nos comentários. No mínimo isso aqui é um caso de 'lei do fulano-cujo-nome-não-sei' sobre ironia na internet, com o agravante que o caso aconteceu no mundo real e foi depenado para ser jogado na web."
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terça-feira, 17 de novembro de 2015

Unicamp promove criacionismo obrigatório a seus alunos

Developing story.

Quando o professor Leandro Tessler, do Cultura Científica, comentou numo almoço que haveria uma palestra obrigatória para os alunos de iniciação científica em exatas e tecnológicas da Unicamp durante o 23° Congresso de Iniciação Científica da Unicamp com o título "Ciência da Fé", nutri a esperança de que poderia ser uma apresentação científica: sobre processos cognitivos e biológicos ligados ao sentimento da fé (eventualmente estudos de genes que estariam correlacionados a uma maior ou menor expressão de religiosidade; estudos de padrões de ressonância magnética funcional de pessoas durante a reza ou exposição a imagens religiosas ou algo assim).

Mas Tessler, que já havia tentado me demover de minha fé na boa fé do evento, demoliu minha ilusão tuitando partes da palestra.





A estratégia da cunha abriu uma fenda, um Grand Canyon, na Unicamp. É preciso uma resposta muito séria da comunidade científica e uma cobrança de responsabilidade da Pró-Reitoria de Pesquisa da instituição.*

Não é apenas um evento perdido aproveitando-se do nome da universidade. É um evento oficial. Não é apenas uma pseudociência defendida em um evento oficial. É a pseudociência apresentada de forma *obrigatória* aos alunos.

Assim que obtiver mais detalhes atualizo esta postagem.

*Upideite(17/nov/2015):




Não considero um plot twist**. Há uma gradação no espectro criacionista. Ainda é preciso uma cobrança de responsabilidade. Ainda que mais matizada do que se, p.e., fosse uma defesa explícita do criacionismo como tentaram fazer uma vez.

Mas é bom dizer que há relatos dizendo que não houve tom religioso.

Upideite(17/nov/2015): Nos comentários, leitora Mayara dá uma versão diferente sobre a palestra:
"O professor Tessler afirmou que não estava na palestra, sendo assim, fontes que estavam presentes seriam mais confiáveis para uma descrição do que de fato foi falado. Apenas para citar uma fonte que realmente assistiu a palestra: Luciana 'estou impressionada na quantidade de questionamentos e críticas de pessoas que nem assistiram. A palestra é sim sobre fisiologia e como o nosso corpo reage a situações ligadas à 'fé' e afins.... Sobre a glândula pineal, etc... É muito interessante e está longe de ter uma conotação religiosa. Sobre a obrigatoriedade? É a abertura de um evento de IC, uma palestra... poderia ser qualquer tema. Qual é o problema?! Vc entra, não gostou, sai! Nunca vi tanto besteirol sendo discutido em um grupo de uma universidade como essa. O povo posta qualquer coisa e não percebe as dimensões que isso pode chegar. Lamentável!!! E o tal Leandro (professor???!!!) nem assistiu e fica dizendo que 'segundo relatos é de fundo religioso'.... por favor, né?!'. O que inseri entre aspas foi o que ela mesma escreveu no facebook no grupo de discussão da Unicamp.

Também acho válido ressaltar o comentário da professora que ministra Evolução na Unicamp, Mariana Nery. Ela mesma postou no grupo de discussões da universidade: 'INACREDITÁVEL, como hoje em dia as pessoas compartilham informações antes de checar. Muito irresponsável da parte de vocês primeiro postar algo que não diz muito (afinal, dou aula de EVOLUÇÃO na UNICAMP e na minha aula poderiam muito bem ter fotografado slides parecidos, mas cujo teor jamais versa sobre o criacionismo/DI). EXTREMAMENTE IRRESPONSÁVEL que compartilhem e se revoltem com tão pouco. Compartilharem um post de alguém que NEM ESTEVE na palestra e que diz que 'Não era uma palestra criacionista, mas com um fundo religioso segundo relatos.' (publicado no twitter dele). O professor Miguel, extremamente querido e respeitado, fala sobre os mecanismos fisiológicos da fé. Não estava doutrinando ninguém. Postagem totalmente sem contexto e que não quer dizer NADA. Apurem antes de se deixar levar por posts de twitter e facebook. Conversem com alguém que esteve na palestra, ou melhor, com o próprio palestrante. APUREM antes de publicar qualquer coisa. Estou profundamente chocada com vocês.'"

Upideite(17/nov/2015): Comentário lateral: A expressão "glândula pineal" me faz soar alguns alarmas. Ela tem uma função importante bem estabelecida na regulação do ritmo circadiano. Mas é alvo de várias hipóteses pseudocientíficas ou não bem estabelecidas ou descartadas promovidas por várias correntes religiosas - muitas dessas visões com raízes na hipótese de Descartes de que a glândula pineal seria a sede da alma.

Comentário lateral 2: Não coloco em questão o profissionalismo e conhecimento do Prof. Dr. Miguel Areas dentro de sua especialidade - e só o cito aqui porque acabou sendo nomeado no comentário (nem reproduzi o tweet em que o nome do professor aparecia). (Vários depoimentos atestam que ele é querido. Mas, mesmo que ele fosse detestado, não deveria mudar a análise do caso.)

Minha encrenca é com a instituição, escalando uma palestra (usando eufemismo) estranha para ICs. Sim, sim, universidade é local para o debate franco e aberto de ideias, para a liberdade de pensamento, pluralidade de pontos de vistas, etc. etc. Só que ainda parece caracterizada a estratégia de cunha.

**Upideite(18/nov/2015): Leitor/a vsiccag corrobora versão da leitura Mayara:
"Olá, estava na palestra também, e, de fato, não foi uma palestra criacionista. Vou copiar o que escrevi na página do Eli Vieira porque já escrevi isso em várias páginas da internet nessa última hora, desculpe:

"Eu estava nessa palestra aí e ela de forma alguma foi uma palestra criacionista. Na verdade foi um elogio à ciência, na qual o palestrante contrapôs o modo de pensamento científico à fé. Para isso, ele apresentou narrativas bíblicas e discursos criacionistas que foram ironizados durante a apresentação. Pessoalmente, não gostei da palestra, achei muito debochada e superficial. Mas definitivamente foi uma palestra pró-ciência. Não senti nem mesmo o 'tom religioso'. Na verdade, o que o palestrante fez foi usar argumentos do tipo "Deus ia querer que vc questionasse mesmo" da mesma forma que é comum entre pessoas com descaso pela heresia falar que 'se sexo fosse pecado, não seria tão bom'. Já que o incêndio se alastrou, e foi alastrado por alguém que não estava presente à palestra, diga-se de passagem, acho razoável que você coloque um disclaimer sobre a história em um novo post, já que muita gente não vai descer até aqui nos comentários. No mínimo isso aqui é um caso de 'lei do fulano-cujo-nome-não-sei' sobre ironia na internet, com o agravante que o caso aconteceu no mundo real e foi depenado para ser jogado na web."

Agora seria o caso de um plot twist. A palestra teria um tom de deboche em relação às narrativas religiosas. Estou usando o futuro do pretérito com aspecto verbal de suposição não porque eu duvide da honestidade do depoimento de vsiccag, mas é porque há depoimentos conflitantes.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

O Santo Sudário

Uma análise recém-publicada mostra que não há diferenças nos perfis de espectrometria de massa de carbono-14 em amostras do Sudário de Turim quando se levam em conta contaminantes orgânicos.

"Abstract
This is an editorial regarding a paper published on Thermochimica Acta (R.N. Rogers, Thermochimca Acta, 425 (2005) 189–194). A close-up analysis of the pyrolysis-mass spectra reported in the original paper reveals that the differences found between the samples coming from different parts of the Shroud are just due to the presence of a contaminant with a long aliphatic chain. Except for the presence of the contaminant, the two pyrolysis-mass spectra look alike rather than different. Therefore, the pseudoscientific theory stating that the C14 sample might come from a “medieval invisible mending” remains unsupported by evidences."

["Resumo
Isto é uma mensagem editorial a respeito do artigo publicado em Thermochimica Acta (R.B. Rogers, Thermochimica Acta, 425 (2005) 189-194). Uma análise mais detalhada dos espectros de massa por método pirolítico relatados no artigo original revela que as diferenças encontradas entre as amostras de diferentes partes do sudário devem se apenas à presença de contaminantes de longas cadeias alifáticas. Exceto pela presença de contaminantes, os dois espectros de massa por pirólise são semelhantes e não diferentes. Assim, a teoria pseudocientífica que afirma que a amostra de C14 viria de uma 'emenda medieval invisível' mantém-se sem apoio em indícios."]

(Não chamaria exatamente de pseudocientífica, já que pode ser submetida a testes. Diria que é uma hipótese refutada. Embora possa ser chamada de pseudocientífica na medida em que seja defendida a despeito das refutações empíricas.)

Joe Nickell do CFI (Center for Inquiry) escreve sobre o tema no blog da instituição.*

Abaixo reproduzo texto meu de 2007 no Observatório da Imprensa (atualmente não está mais no ar - há apenas uma cópia no Internet Archive).

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GALILEU O Santo Sudário

Roberto Takata (*)

Reciclar lixo não é a panacéia que resolverá todos os problemas dos resíduos sólidos produzidos em nosso modo "civilizado" de viver. Pode até mesmo causar mais problemas do que resolver, se não for planejado e aplicado adequadamente: e.g. se se fosse branquear o papel reciclado seria gerada uma quantidade maior de poluentes do que na produção de papel comum. Ainda assim – repiso, se bem planejados –, os programas de reciclagem podem ser um grande aliado na batalha pela melhoria da qualidade de vida da população e na conscientização para o exercício da cidadania.

Alguns vestibulares mais preocupados com a capacidade de raciocínio do que de memorização realizam o que se pode chamar de "reciclagem de informações". Questões são formuladas para que o candidato interprete um trecho de livro ou de artigo retirado do noticiário e reflita sobre o seu significado. Podemos realizar este exercício com um artigo de recente edição de Galileu (outubro de 1999). Antes, porém, um esclarecimento: não cuide, leitora (ou leitor) ser implicância minha com a revista ou com o autor do artigo, posto que não é a primeira vez que me pronuncio desfavoravelmente a um texto ali publicado. Quero apenas tecer algumas críticas, em meu julgamento, construtivas; afinal acredito que apontar erros é um passo para solucioná-los, sendo em última instância uma contribuição na busca do aperfeiçoamento constante do trabalho.

O texto referido é "Mistério e fascínio do Santo Sudário". Começa nos informando encontrarem-se presos à trama do tecido pólens mais antigos do que a idade estimada para o sudário pelos cientistas num teste feito em 1988. Segue afirmando ter sido sensacionalista a divulgação, à época, das conclusões de que o sudário teria sido fabricado na Idade Média (entre os anos 1260 e 1390). Pergunto aqui se não serão dois pesos e duas medidas. Senão, vejamos: "A opinião pública embarcou nessa tese [da falsificação do sudário]"; "essa informação [existência de pólens] foi atropelada pelo rolo compressor do teste do carbono 14"; "Ela [a existência de pólens]devolve ao estudo do Sudário a seriedade que o assunto merece"; "detalhe que os autores da tese de falsificação esqueceram de explicar [como a peça foi produzida]"; "No esforço quase irracional de negar a autenticidade do Sudário, alguns estudiosos lançaram mão de todo tipo de hipóteses para explicar a formação da imagem"; "dando [as manchas d’água] à imagem um aspecto ainda mais hierático e misterioso"; "Parece óbvio que o autor do Código [de Pray] o utilizou [ao Sudário] como modelo"; "Esse experimento [do efeito da fumaça na datação do pano] por si só desqualifica completamente a datação [...]" – grifos meus.

Palavras fortes de apelo ao emocional induzindo a se imaginar que o estudo teria sido conduzido de modo descuidado (desleixado? tendencioso?): a isso não se chama sensacionalismo? Ainda mais que não se tratam de citações, mas de julgamentos do próprio autor? Qual a procedência desse julgamento?

O sudário é um objeto realmente fascinante, e julgo não necessitar destes subterfúgios para despertar o interesse das pessoas. Muitos outros pontos (incluindo diversos listados no artigo) revelam-se provocações instigantes para os céticos – uma falsificação tão detalhada?
Mas a crítica feroz se centra no método da datação por carbono-14, referido sete vezes (alguma conotação cabalística?) – e negando três vezes a validade do teste (Mat. 26:34-75?). Apesar disso, em nenhum momento nas dez páginas dedicadas ao assunto é explicado o que afinal vem a ser o carbono-14 e como é realizada a datação.

Troca de carbono
O carbono-14 é um isótopo (forma de um mesmo elemento químico, mas com peso diferente) do carbono; uma outra forma, bem mais abundante, é o carbono-12. O carbono-14 é instável e se transforma em nitrogênio-14, estável, liberando radiação. Essa quantidade perdida é reposta por um processo inverso que ocorre na alta atmosfera com o bombardeamento de 14N por radiações solares de alta energia, de modo que a quantidade de 14C na atmosfera é praticamente constante. O processo de transformação de uma forma instável para outra mais estável, denominada decaimento radioativo, se dá de maneira estocástica – isto é, não se pode prever quando exatamente um determinado átomo vai emitir radiação e se transformar; mas é possível prever o comportamento de uma certa quantidade: depois de um período, chamado de meia-vida, apenas metade dos átomos iniciais não terão decaído, após outro intervalo de mesma duração apenas a metade da metade (um quarto) restará íntegra e assim por diante. A meia-vida do carbono-14 é de 5.730 anos. Então, se soubermos a quantidade original de 14C de um objeto (obviamente contendo carbono) no momento de sua fabricação, e compararmos com a quantidade atual, poderemos saber a idade do objeto por meio de uma função logarítmica.

Como saber a quantidade inicial? No caso do tecido sabemos que foi confeccionado com fibra vegetal. As plantas fixam o carbono retirado do ar na forma de CO2. Sabemos que a razão entre 14C e 12C nas moléculas de CO2 no ar é de 1 para um trilhão (1012) – que vem a ser a proporção, então, nas plantas, nos animais que delas se alimentam e nos produtos derivados: vegetal ou animal (existem exceções, mas não é o caso do linho no qual foi urdido o sudário). Quando o organismo morre, cessa a troca de carbono com o ambiente e, pelo decaimento, a proporção de 14C para 12C se altera – quanto mais tempo se passa menor a proporção de 14C.

O teste de 1988
Em 1988, cientistas retiraram uma amostra do sudário, mediram com um aparelho a quantidade de 14C presente no CO2 formado na queima total do tecido e compararam com uma amostra equivalente de pano novo de linho (em lugar de utilizarem a proporção teórica original). Nessa medição chegaram à idade de cerca de 660 anos dentro de uma margem de erro.

O que se contesta então? Afirma-se que a amostra estava, como todo o sudário, contaminada com bactérias e pólens recentes, fazendo com que no teste resultasse uma idade menor do que a verdadeira. No artigo é citado um trabalho do cientista russo Dmitri Kuznetsov indicando que a fumaça produzida por um incêndio em 1532 atingindo o sudário poderia ter provocado uma troca entre o carbono do tecido e o da fumaça de até 25% do total (isto é, um quarto de todo o carbono do tecido pode ter sido substituído pelo carbono do ar e do material consumido no incêndio) – o que valeu o comentário do autor da matéria de Galileu de que a datação fora completamente desqualificada.

Um rápido cálculo indica que, corrigindo o eventual efeito máximo da fumaça, o ano da fabricação do pano deveria estar em torno de 1255 (não muito longe do mínimo estimado: 1260). Não parece ser tão desabonadora assim: estamos ainda muito longe do ano 33, no qual teria ocorrido a paixão de Cristo.

[Usando apenas o conteúdo de Química e de Matemática do nível médio é plenamente possível realizar tais cálculos. Se se for pensar de modo mais intuitivo é só verificar que um quarto do 14C do tecido será substituído pelo ar atmosférico, o mesmo ocorrendo com o 12C do tecido. Então, se por um lado se perde o 14C pela substituição de parte deste pelo carbono da fumaça (rico em 12C ), por outro ganha-se14C pela substituição de parte do 12C (em muito maior quantidade na amostra) pelo carbono da fumaça: a maior parte do 12C do tecido será trocado pelo da fumaça, mas uma pequena parte (1 em um trilhão) será trocada pelo 14C. Como na fumaça há comparativamente mais carbono-14 do que no tecido, ao final o ganho será maior do que a perda. Se houvesse o autor notado que a queda na proporção de 14C se relaciona com o tempo decorrido em uma função logarítmica, notaria que se esperaria mesmo uma alteração menor se o ano de fabricação estimado (1325 +/- 65) não fosse muito diferente do possível instante da contaminação (1532): se uma troca de 100% do carbono tivesse ocorrido na época de fabricação do sudário não se notaria efeito algum.]

A creditar-se a diferença restante à sujeira acumulada, bactérias e pólens, deveríamos ter uma quantidade de carbono quase duas vezes maior dessa fonte em relação ao carbono do tecido. Pesando o sudário cerca de 9 kg, isso significaria que teríamos mais de 4 kg de pó: a imagem não deveria ser visível debaixo de uma generosa camada de microorganismos e poeira.

Falso argumento
Se existem alguns empecilhos para a hipótese da falsificação, a da autenticidade encontra problemas ainda mais graves. O autor vê dificuldades incontornáveis numa diferença de 70 anos entre a idade estimada (que tem uma variação de 65 anos – para mais ou para menos) e a que poderia ser a real em caso de influência da fumaça (com uma variação em anos da mesma ordem); mas apresenta como se fosse natural a explicação de que a imagem teria se formado a partir de um brilho equivalente à detonação de um artefato nuclear emanado do próprio corpo envolvido pelo pano. E mais, que nesse instante esse corpo estaria flutuando no ar.

Argumenta ainda o autor que "o Sudário já passou por milhares de testes" e "de todos os experimentos, só o do carbono-14 contestou a autenticidade da peça". Creio que, apesar de usar no texto um termo da epistemologia da ciência, "falsear", não entenda de fato o que define a validade lógica de uma hipótese científica – não importa quantos experimentos apontem para a veracidade de uma idéia: se apenas uma observação negá-la, ela necessariamente é falsa (claro, estou simplificando um pouco as coisas, mas creio aqui que não estarei fugindo muito da verdade).

Ainda mais grave, essa argumentação é falsa também ao se mentir por mais duas razões: em nenhum instante é esclarecido que o teste do carbono-14 foi repetido mais duas vezes por laboratórios independentes com o mesmo resultado; outros tipos de testes indicam que o sudário não deve ser autêntico – e.g. a perícia forense não conseguiu detectar traços de sangue no tecido (as manchas, que são tidas como sangue por muitos, ao contrário deste não são escuraa, apesar da idade, e são quimicamente compatíveis com pigmentos utilizados na Europa medieval).

Pregações doutrinárias
Escrevi isto não com o intuito de fazer um libelo contra a autenticidade do Sudário (sim, sou, como qualquer um pôde perceber, cético quanto a isso), mas porque mais uma vez Galileu falhou no processo de divulgação científica. Este artigo contrasta fortemente com um outro publicado na mesma edição, "Cinco mil anos antes de Cabral", em que apesar de também reportar uma tese polêmica e contrária à visão científica tradicional, ainda que mais terrena (povos europeus e incas teriam se aventurado em terras brasileiras muito antes da descoberta oficial), não toma para si as afirmações dos proponentes da idéia, embora simpatize o autor com elas, e coteja com o depoimento de uma opinião cética.

Afirmações cabais de idéias pouco aceitas pela comunidade científica, negligência investigativa com as proposições, ausência de confrontação com opiniões contrárias, omissão de informação, propalação de meias-verdades e, mais grave, mentir categoricamente vão contra o bom jornalismo científico (e muito disso vai contra qualquer tipo de jornalismo – aproximando-se, perdões, mas a comparação é-me inevitável, de pregações doutrinárias).

Dentro do espírito ecologicamente correto poderíamos reprocessar o artigo e tê-lo assim reciclado como um modelo do que não se deveria fazer em termos de jornalismo (científico ou não).

Em tempo: Conforme é dito no próprio artigo, não é nova a alegação da existência de pólens da Palestina mais antigos que a data aceita para o pano. Mas, ao contrário do que se afirma, isso não foi "atropelado pelo rolo compressor" da datação por carbono-14, e sim posto em xeque pela inconsistência dos dados: amostras independentes revelaram conter o Sudário comparativamente muito menos pólen do que a amostra de Max Frei, um criminologista com a credibilidade já abalada anteriormente por sustentar a autenticidade de uma falsificação crassa – os diários de Hitler. Amostra a partir da qual foi feita a afirmação.

Mais informações (céticas, naturalmente) em: , em inglês, e <www.epub.org.br/correio/ciencia/cp960815.htm>.
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(Mais tarde pedi desculpas ao autor do texto na Galileu por comparar o texto dele com lixo. Mas, as críticas, eu as mantenho.)

*via @EliVieira tw.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Má Criação

O ex-presidente da CDMH da Câmara aprontou mais uma e protocolou um projeto de lei, PL 8.099/2014, que torna obrigatório o ensino do criacionismo nas aulas de ciências em todo o país nas escolas públicas e privadas.

Ele chupou o deputado estadual paranaense Artagão Junior que já havia apresentado em 2007 (PL 594/200714) na Assembleia Legislativa do Paraná - e reapresentou este ano (PL 30/2014).

Seguramente, as criaturas sabem que é inconstitucional. Se fazem isso só pra agradar a suas bases ou só pra torrar a paciência dos cidadãos que não seguem suas religiões, eu não sei dizer.

Mas a velha estratégia do duplo padrão. Querem contrabandear o criacionismo para dentro das aulas de ciências com base em argumentos supostamente científicos e religiosos: se se argumenta que religião não deve ser ensinada em aulas de ciências, dizem que é sob a óptica científica de hipótese da diversidade dos seres vivos; se se argumenta que uma teoria já demonstrada falsa não deve ser ensinada em aulas de ciências, dizem que é discriminação religiosa (e que crença religiosa não deve ser alvo de escrutínio científico).

Alguém que diz professar a religião de Cristo deveria se envergonhar de adotar estratégia tão insidiosa e de má-fé, de deturpação e de mentira.

Veja mais em:
DNA Cético: Nunca é demais repetir: criacionismo não é alternativa ao ensino da evolução.
Ceticismo: Mais um projeto de lei para disseminar Criacionismo nas escolas.
Maurício Tuffani: Projeto criacionista de Feliciano é um monumento à ignorância.*
                          Design Inteligente rejeita criacionismo em aulas de ciências**
Dicas de Ciência: Professores, muita atenção!***

*Upideite(15/nov/2014): adido a esta data.
Upideite(17/nov/2014): outra proposição na Câmara dos Deputados com tentativa de introduzir o criacionismo nas escolas públicas - em aulas de ciência ou de história - foi a INC 5.078/2005 do deputado Milton Cardias, do PTB-RS.
**Upideite(17/nov/2014): adido a esta data.
Upideite(25/nov/2014): A Associação Brasileira de Ensino de Biologia (SBEnBio) e a Associação Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências (Abrapec) lançaram uma carta aberta em conjunto contra o PL.
Upideite(26/nov/2014): A Sociedade Brasileira de Física também se manifestou contra.
Upideite(05/dez/2014): A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência publicou carta contrária ao projeto.
***Upideite(26/dez/2014): adido a esta data.
Upideite(05/mar/2014): O Conselho Federal de Biologia também repudia o projeto.

domingo, 14 de setembro de 2014

Criacionismo. Nas escolas públicas, não!

O Brasil, sempre atrasado, agora está meio que tendo que enfrentar a briga do Design Inteligente contra o bom senso. Nos EUA, desde 2005, com o julgamento Kitzmiller v. Distrito Escolar da Área de Dover, está bem claro para o sistema legal que a Teoria do Design Inteligente (TDI) é só uma forma de criacionismo e este, desde 1982, no julgamento McLean v. Conselho da Educação de Arkansas, é considerado uma forma de religião, não tendo nada a ver com ciências.
Os adeptos do criacionismo estão organizados no Brasil já há um bom tempo. Inclusive do TDI. Mas agora, com o crescimento da bancada evangélica, com o sucesso de várias investidas arcaizantes dessa bancada: impedimento da oferta pelo SUS de assistência ao abortamento nos casos que são previstos em lei; retrocesso da agenda de cultura da tolerância e respeito à diversidade sexual (incluindo de orientação sexual) nas escolas; proscrição de campanhas de combate à aids/HIV voltados para o público LGBTT/queer e para prostitutas... estão botando as asinhas de fora e querem que a pseudociência religiosa do criacionismo (sob a alcunha de TDI) seja enfiada nas escolas e universidades públicas nas aulas de ciências. É a proposta que irão defender em seu segundo primeiro congresso de TDI (houve um primeiro primeiro congresso em 2010).
No Rio de Janeiro, em 2004, sob a batuta da governadora evangélica presbiteriana Rosinha Garotinho, o ensino do criacionismo invadiu as escolas públicas pela porta de trás: em meio a aulas de religião.
Não podemos ceder à essa agenda obscurantista. Que eles acreditem, é direito deles. Que ensinem aos filhos deles em escolas confessionais particulares é direito deles. Que queiram impor a visão religiosa deles a todos os demais brasileiros é um abuso que não se pode tolerar.
Duvido que eles gostassem de que os filhos deles fossem obrigatoriamente expostos às lendas de religiões de matrizes africanas.
Pra manter o respeito a todas as formas de crenças é que o Estado tem que ser religiosamente neutro, tem que ser laico. Não pode, assim, permitir a mistura de religião com ciência nas escolas públicas.

sábado, 26 de abril de 2014

A forquilha CxP (Ciência x Pseudociências)

Continuando no tema do status epistemológico das ciências.
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Sim, o que chamamos de ciência (e os detratores de "forma de dominação cartesiano-materialista do capitalismo ocidental") erra com boa frequência. E, sim, o que chamamos de pseudociências (e os defensores de "ciências alternativas") acerta ocasionalmente. Mas, então, qual a diferença?
A prática científica está eivada de modismos, lapsos, estatísticas ruins, interpretações errôneas, pressões de pares, influências econômicas, erros honestos, práticas duvidosas e até fraudes. Mas isso tudo *não* faz parte integrante do processo de produção do conhecimento científico - é o contrário das boas práticas - e está presente em qualquer outra área de atividade humana. Sempre que procuramos controlar a influência de tais fatores, temos uma melhora na confiabilidade dos resultados. Fraudes e cia. conduz-nos, via de regra, a becos sem saída, a resultados que não podem ser reproduzidos honestamente, que nos leva a predições errôneas a respeito de fenômenos naturais.
A prática pseudo... alternativa também tem seus fraudadores. Porém, na melhor das hipóteses (melhor para as pseudo... alternativas), um processo fraudulento não é distinguível em termos de resultados de um processo feito diligentemente seguindo todas as práticas prescritas nos manuais e tradições. Mas, com frequência, é sim distinguível. No entanto, os resultados *fraudados* são melhores do que os não fraudados. Uma astromante charlatã que contrata espiões acerta mais sobre os detalhes da vida do consulente do que uma astromante que siga estritamente as regras de interpretações de mapas natais e de sinastria. Uma empresa desonesta de meteorologia espírita acerta com mais frequência as previsões do tempo ao consultar... bem, as previsões do tempo feitas pela meteorologia científica do que uma empresa honesta de meteorologia espírita que apenas canaliza espíritos desencarnados para consultá-los quanto às condições do tempo em uma dada data.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Unicamp sedia evento criacionista

Sob o inocente nome de 1° Fórum de Filosofia e Ciência das Origens a Unicamp sediará um evento promovido por criacionistas.

O incauto poderá pensar que se trata de um evento científico ou acadêmico normal dada as credenciais apresentadas no site e os nomes das palestras.

"geólogo pela Universidade Estadual Paulista, Unesp (1980), mestre em Geotecnia pela Universidade de São Paulo (USP) (1986) e doutor (1992) em Geotecnia/Engenharia Civil pela USP. Foi professor e pesquisador da Uneso, de 1982 a 1990 e professor e pesquisador da USP de 1990 a 1995. Atualmente é professor de Geologia e Mecânica das Rochas, no Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp). É membro do Núcleo de Estudos das Origens (NEO) da mesma instituição e do Earth History Research Center, onde suas áreas de interesse estão a geologia e a vulcanologia. É diretor da sub-sede brasileira do Geoscience Research Institute."

"Ph.D. em física, em raios cósmicos de altíssima energia e interações nucleon-nucleon. Entre 1972 e 1978 trabalhou no Laboratório de Alta Tensão da General Electric Company, projetando equipamentos e pesquisando os fenômenos de alta tensão. Enquanto estava lá, recebeu uma patente nos EUA e uma das IR-100 prêmios da revista Pesquisa Industrial. Em 1979, trabalhou para a Sandia National Laboratories (Novo México) em física nuclear, geofísica, pesquisas potência pulsada e física atômica e nuclear teóricas. Em 1985, começou a trabalhar com Sandia da 'Partícula Boca projecto de fusão', e foi co-inventor do especial de laser disparado interruptores de alta tensão' de percussão", atualmente entrando em uso mais amplo. Na última década viu a Sandia dar maior ênfase em física nuclear teórica e hidrodinâmica de radiação, em um esforço para ajudar a produzir a primeira fusão termonuclear em escala laboratorial do mundo. Além de ganhar duas outras patentes dos EUA, [...] recebeu dois prêmios de Sandia, incluindo um Prêmio de Excelência pelas contribuições para a teoria target ion-fusion luz." [Podemos ver que o currículo foi traduzido no Google Translator...]

"químico brasileiro, membro da Academia Brasileira de Ciências. Atualmente é o presidente da Fundação Internacional da Espectrometria de Massa (IMSF, International Mass Spectrometry Foundation). [...] pesquisador e professor do Instituto de Química da Unicamp, é diretor fundador do laboratório ThoMSon de Espectrometria de Massa da Unicamp e editor associado do Journal of Mass Spectrometry. É recipiente da Ordem Nacional do Mérito Científico."

"'A Química do Universo e da Vida'. Uma abordagem científica sobre as evidências que a química do Universo e dos seres vivos apresentam para responder a questão 'De onde viemos'"

"[L]ivro Starlight and Time Uma apresentação da teoria de Humphreys baseada no modelo relativístico de Einstein sobre a origem do universo"

"Modelos em geociências: aspectos científicos e metafísicos"

"'O relato das origens e as remotas tradições sumerianas' Abordará as evidências de que a Arqueologia ajuda a iluminar o mistério das origens humanas"

"'A cobertura midiática da origem da vida' Apresentação de casos que ilustram a cobertura da mídia sobre a origem da vida no Brasil e também no mundo e suas consequências sociológicas"
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Só quem conhece os trabalhos extra-acadêmicos de Nahor Neves de Souza Jr., Russell Humphreys e Marcos Nogueira Eberlin perceberá que são todos criacionistas. O único que não oculta esse vínculo no minicurrículo é Michelson Borges:

"é escritor, autor de livros como A História da Vida, Por Que Creio, entre outros. Jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), editor da Casa Publicadora Brasileira e membro da Sociedade Criacionista Brasileira. É mestre em Teologia pelo Unasp."

Tanto o Núcleo de Estudos das Origens, como o Earth History Research Center e o Geoscience Research Institute são entidades criacionistas.

Claro que a universidade comporta uma pluralidade de pontos de vista e blablablá whiskas sachê... Mas está evidente a estratégia de cunha adotada desde 1998 pelo grupo do Design Intelligente. Adotando nomes de palestras supostamente de caráter científico ou puramente acadêmico ocultam suas intenções de proselitismo cristão fundamentalista do criacionismo - atraindo pessoas desavisadas achando que irão mesmo discutir origem da vida e do universo de modo racional e científico e filosófico.

Se alguém duvida que isso pode ocorrer, eu postei sobre o evento em um grupo de discussão de *céticos e racionalistas*, com o título igual ao desta postagem e com o aviso "E os caras tentam ocultar o caráter criacionista com nomes de palestras que indicam outra coisa".

Uma das respostas foi:
"porquê são criacionistas? pelos nomes não dá para entender isso. Você está falando por saber pessoalmente as opiniões dos palestrantes?"

Avisado sobre o vínculo criacionista de um dos palestrantes:
"'Se o nome é FÓRUM DE FILOSOFIA DISCUTE A ORIGEM DO UNIVERSO é bem razoável que existam todas as opiniões, não?'"

Calcule o estrago que faz na cabeça de quem não participa de debates cético-racionalistas a respeito do modus operandi desses grupos criacionistas*... Oremos.

(Não vou linkar para os sítios web criacionistas, quem quiser pode googlear.)

*Upideite(11/out/2013): Recebi a notícia de um amigo jornalista empolgado com o evento e alheio ao caráter criacionista.

Upideite(13/out/2013): O Prof. Dr. Leandro Tessler, da Unicamp, comenta mais sobre o evento em seu Cultura Científica.

Upideite(14/out/2013): Pelo twitter, Tessler informa que o evento foi cancelado (tiraram a página que anunciava o evento):

terça-feira, 3 de abril de 2012

Homeopatia na SciAm Brasil

A Scientific American Brasil, veículo da Duetto Editorial (sob licença da Scientific American Inc.), publicou um texto sobre homeopatia sob o título "Eficiência Questionada da Homeopatia".

O texto no entanto não questiona a homeopatia, antes, a defende. Ou tenta defender. Ataca, com certa correção, o abuso de agrotóxicos nos sistemas de produção vegetal, mas em que isso mostra a eficácia da homeopatia no combate a pragas agrícolas é algo difícil de se atinar.

A passagem mais constrangedora é: "a homeopatia não se relaciona com a química, mas com a física quântica, pois trabalha com energia, não com elementos químicos que podem ser qualificados e quantificados."

Primeiro: homeopatia trabalha com compostos químicos - todas as tinturas e diluições são produzidas e identificadas de acordo com os compostos e misturas correspondentes ao princípio ativo - p.e. arsenicum album, que é produzido por diluições sucessiva de trióxido de arsênio e em condições bem quantificadas - tanto é que se usam denominações de diluição como 12X (a tintura original é diluída 12 vezes tomando-se uma parte em dez a cada vez). Portanto qualificados e quantificados.

Segundo: a física quântica também lida com compostos químicos, por exemplo, a hibridação dos orbitais de carbono que formam ligações duplas.

Terceiro: energia é um conceito que não diz respeito somente à física quântica; a própria química lida com energia - como a entalpia.

Quarto: Não importa se a homeopatia lida ou não com compostos que podem ser qualificados ou quantificados. Importa se ela tem ou não efeitos curativos sobre sistemas. A literatura científica indica bastante claramente que *não* tem efeito - tirante eventual efeito placebo.

Quinto: Não há nada na física quântica que apoie a homeopatia e seus princípios da cura pelos semelhantes e potencialização por ultradiluição.*

Em suma, um texto mal escrito que não traz nenhum resultado indicativo de que a homeopatia tenha algum eficácia. Isso causou um pequeno burburinho no twitter: aqui, aqui, aqui.

Em defesa, a SciAm Brasil publicou o tweet: "Sobre a nota de homeopatia (abril): refere-se a um curso sério da UFV, com apoio do CNPq e envolvimento da Unesco/Fundação Banco do Brasil".

Mas:
a) Não é uma nota, é um texto apologético;
b) O curso da UFV é só citado, não é o objeto principal do texto;
c) O critério de seriedade é discutível - apenas ter a marca do CNPq, Unesco e Fundação Banco do Brasil(?) não indica que haja validade nas técnicas;
d) O curso (de extensão) não é apenas sobre homeopatia, mas inclui também plantas medicinais e produção orgânica.*

O caso foi parar no blogue Science-Based Medicine (SBM). E, entre os comentários, o da editora-chefe da SciAm americana: Mariette DiChristina. Uma crítica bastante contundente à publicação pela versão brazuca:
"mdichristinaon 03 Apr 2012 at 1:55 pm
I’m grateful to Tim Farley for letting me know about this post so that I can clear up matters.
Scientific American does _not_ condone the pseudoscience of homeopathy.Duetto, the company that licenses the right to produce Scientific American in Brazil, is an independent entity; it purchases the right to translate Scientific American’s articles and also to add local stories. I have inquired about this item, and have been told included this article was included because the work is 'has support of Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) the main brazilian agency for scientific research.' I do not yet know what that 'support' entails–whether it is funded by that agency or whether it means something else.In any case, this piece clearly should not have been published. I have brought this problem to the attention of both the editor of the Brazilian edition and the head of the Scientific American business, who manages relationships with licensees.Needless to say, I deeply regret the appearance of this fatally flawed article, which would never have been published if Scientific American had been consulted beforehand.I am easy to find on Twitter (at mdichristina) and e-mail (mdichristina at sciam.com) if you have future questions about Scientific American.(via @luizbento)


A motivação que vejo percebo na publicação do texto é a visão do editor-chefe da SciAmBrasil. Ulisses Capozzoli tem uma ideia de ciências menos hard do que o usual dos cientófilos mais ativos. Não é uma opção ruim em si. Isso permite um pensamento menos bitolado - como aquela oposição chata a respeito das duas culturas e a visão tacanha de que as ciências humanas não são ciências de verdade. Mas traz esse perigo de incluir no círculo científico bobagens do tipo homeopatia, ufologia, astromancia e outras pseudociências.

Coisa similar - e agravada pela visão de curto prazo de pura vendagem - corroeu completamente a respeitabilidade da Superinteressante.


Disclêimer: Conheço Capozzoli pessoalmente e respeito seu trabalho. Não falei com ele sobre o tema.

*Upideite(04/abr/2012): Adido a esta data.
Upideite(04/abr/2012): Manterei listagem de outros blogues e páginas que também falam sobre isso
O Lado Oculto da Lua (reproduzido também no Bule Voador)
Via Gene
O Telhado de Vidro, sobre a resposta de Capozzoli.
Ceticismo.net
Chi vó, non pó
Cultura Científica
DNA Cético
Carlos Orsi
Desafio 10:23 (reproduz o publicado no SBM)
Upideite(05/abr/2012): Ulisses Capozzoli reconhece o erro da publicação do texto. (via @samir_elian)

sábado, 21 de janeiro de 2012

Sheldrake no blogue do Nassif

Nassif reproduz em seu blogue trecho de entrevista de Rupert Sheldrake dada à revista Episteme do grupo de História e Filosofia das Ciências da UFRGS: "Como Sheldrake desafiou os consensos científicos".

Acabei de enviar o comentário abaixo.
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Não é desafio, não é heresia. É simplesmente trabalho mal-feito. Os poucos trabalhos publicados (em revistas científicas) por Sheldrake nessa área que supostamente desafiaria os conhecimentos científicos estabelecidos são de pouca validade: quando há, os controles das variáveis são pobres (lembro de um estudo em que ele sugeria que um processo de fusão nuclear a frio ocorreria no interior dos organismos de pintainhos por se desenvolverem em um ambiente teoricamente sem suplementação de cálcio; mas não reconheceu a possibilidade de contaminação das fontes* - mais ou menos o mesmo tipo de problema que pode ter ocorrido naquela história de bactérias que usam arsênio).

Sua hipótese dos campos mórficos não se sustenta pela simples constatação de que, se lançarmos uma moeda, há uma chance de mais ou menos 50% de dar cara. Se campos mórficos funcionassem do modo como Sheldrake afirma que funciona, há muito tempo a jogada de moeda teria que ter se consolidado a dar 100% uma das faces em específico. Afinal, os tais campos mórficos, para Sheldrake, teriam fixado a estrutura organizada dos cristais a partir de um processo inicialmente caótico e casual: as poucas vezes em que cristais se formavam no início moldariam o campo mórfico que aumentaria o número de novos cristais que modificariam o campo mórfico até que toda vez a estrutura cristalina se estabelecesse. Em lançamento de moedas também há flutuações casuais que levariam a um maior número de uma das faces do que de outra. Se existissem campos mórficos, isso mudaria a probabilidade do resultado do lançamento. Ao fim, isso levaria a apenas um dos lados ser o resultado de qualquer lançamento de moeda.

Sabemos que isso não ocorre, logo, a hipótese de campos mórficos é refutada.

Essa cultura da iconoclastia não é necessariamente má. Mas a iconoclastia pela iconoclastia sem uma argumentação sólida baseada em fatos (e não em interpretações desviantes de experimentos mal planejados e mal executados) é criticável.

Qualquer pessoa pode contestar o que a ciência (ou outro estabelecimento) diz. A questão não é contestar, mas apresentar os dados que sustentam sua contestação.

Einstein não é Einstein somente por desdizer o que Newton disse sobre tempo e espaços absolutos. Einstein é Einstein por suas predições terem se confirmado - como os dados do eclipse em Sobral e o ajustamento da órbita do planeta Mercúrio.

Sheldrake desdiz o que a ciência diz. E daí? Suas previsões se confirmam? As moedas dizem que não. E não é lance de sorte.

[]s,

Roberto Takata

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*Pois é, Sheldrake considera a hipótese de fusão a frio biológica mais plausível do que contaminação de nutrientes.

Upideite(22/jan/2012): Mais algumas respostas minhas a comentários postados no blogue.
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@superperplexo

Sim, Sheldrake é cientista. Não muda o fato de que muitos dos experimentos que ele faz é mal-feito: não controla bem variáveis interferentes. Diga-se de passagem, que não é um problema exclusivo de Sheldrake. Mesmo cientistas conceituados, como Linus Pauling e Luc Montagnier (dois nobelistas, com méritos) caem nessas armadilhas para dar sustenta [sic, deveria ser 'para dar sustento a'] suas pet ideas - respectivamente, megadosagem de vitamina C na prevenção de cânceres e homeopatia.

Desafiar modelos mentais predominantes (predominantes apenas no mainstream científico, na população em geral, o que predomina são as visões misticoides como de Sheldrake, Goswami, Capra e outros) qualquer um pode fazer. O que é necessário é ter fatos que sustentem o desafio, do contrário é apenas bazófia.

As perguntas sobre a natureza das ciências, dos processos científicos, do conhecimento científico, de seu papel no empoderamento social de certos grupos, etc... é relevante para muito além da discussão a respeito da contribuição de indivíduos como Sheldrake. Mas, qualquer que seja a definição dada, não irá diminuir o ponto que, sem fatos que apoiem uma dada hipótese, sem dados que confirmem uma dada previsão, é tudo questão de gogó.

O respeito que a sociedade dá ao conhecimento científico advém do fato de que ele funciona. Aplicando-se as teorias científicas, suas predições são acertadas: dimensionamos o sistema elétrico de acordo com as leis da eletricidade (p.e., U = Ri), usinas nucleares valem-se da famosa equação einsteniana (E = mc^2), melhoristas genéticos valem-se do conhecimento de como funciona a herança genética e assim por diante.

O teoria que Sheldrake nos propõe falha miseravelmente quando testada. E é isso o que importa aqui.

[]s,

Roberto Takata

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@Erly Ricci

Em nenhum momento debati a questão mofogênica. Se o fizesse, provavelmente, eu usaria um pedaço de pão e o deixaria guardado em um local úmido e escuro.

O que apresentei foi o resultado das moedas como contestação aos campos mórficos. Embora vagamente baseado nos campos morfogenéticos da biologia do desenvolvimento, os campos mórficos não se resumem a eles (vale dizer que há uma explicação bem elaborada e testada sobre campos morfogenéticos a partir de padrões de expressão de genes controladores do desenvolvimento).

Para Sheldrake, os campos mórficos explicam desde a morfogênese embrionária à formação de novas estruturas culturais, passando pela formação de cristais, galáxias e basicamente qualquer estrutura - física ou lógica - do universo. O paradigma dos campos mórficos é o do efeito do centésimo macaco: (a história é mais uma lenda urbana do que um fato real) um macaco em uma ilha aprendeu a lavar batatas em água salgada antes de comê-la[s], lentamente alguns outros macacos, observando o primeiro macaco, também passaram a lavar os alimentos, quando atingiu-se um número crítico (neste caso, 100 indivíduos), instantaneamente todos os macacos da ilha passaram a fazer o mesmo (mesmo os que jamais observaram esse comportamento antes). (A parte real da história é que há mesmo alguns macacos selvagens japoneses que lavam batatas na água salgada, mas jamais foi observado o tal efeito do centésimo macaco.) Para Sheldrake, o primeiro macaco modificou ligeiramente o campo mórfico correspondente ao comportamento de preparo de alimentos dessa população de macacos, aumentando a facilidade com que outros macacos aprendessem o novo comportamento, qdo novos macacos aprenderam, o campo mórfico modificou-se mais, facilitando ainda mais que mais macacos aprendessem; atingindo o limiar, o campo mórfico estaria firmemente conformado (estaria em ressonância) para esse novo comportamento - então todos os demais seriam afetado pela nova configuração do campo mórfico e passariam a exibir o novo comportamento.

Como disse no meu primeiro comentário, isso vale também para a formação de cristais - por que, digamos, o diamante tem a configuração tetraédrica invariante? Para Sheldrake, foi porque de início, os átomos de carbono se organizavam caoticamente. Mas alguns se organizaram casualmente em formato tetraédrico. Isso alterou o campo mórfico da rede cristalina do diamante e o processo seguiu como no modelo do centésimo macaco.

Oras, o mesmo princípio aplicar-se-ia no resultado de lançamento de moedas. Campos mórficos monetários assim determinariam e assim funcionariam. Mas não funcionam.

E não apenas lançamentos de moedas não funcionam assim. Não há casos conhecidos de transmissão de características somáticas adquiridas; se induzirmos a formação de falhas na rede cristalina do diamante, isso não fará com essa falha seja reproduzida em outros eventos de cristalização.

Em outras palavras, campos mórficos são uma hipótese firmemente refutada. Insistir neles, sem um embasamento factual, é um ato [que] não se constitui em um desafio real ao conhecimento científico, muito menos aos processos científicos.

[]s,

Roberto Takata

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sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Bye bye Geocities: creation vs evolution

Com o fim do Geocities, publicarei algumas coisas aqui que estavam em minhas páginas apagadas.

Para começar a série, um desenho explicativo da diferença de visão de mundo entre um criacionista e um cientista.