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sexta-feira, 5 de abril de 2019

O peru do Gabeira (Metáfora esportiva, seus degenerados!)

Fernando Gabeira mandou muito mal em sua peça opiniática sobre uso de animais nas religiões afrobrasileiras.

Primeiro, Cecília era uma chimpanzé submetida a maus tratos*. Candomblé, umbanda e quejandos não usam primatas em rituais. Não submetem os bichos a maus tratos.

Então a decisão do STF não tem nada a ver com a decisão do habeas corpus da chimpanzé na ARG. A justiça do BRA tem vários casos decididos de condenação por maus tratos e perda de posse de animais.

Farra do Boi também não é boa analogia. Primeiro que o status de respeito religioso tem um status muito mais alto tanto no ordenamento jurídico brasileiro como no ethos do brasileiro do que o mero entretenimento e mesmo do que alguns aspectos culturais.

Vilipendiar símbolos religiosos é crime, p.e. Se você fizer isso com escudos de times de futebol, é do jogo. Em segundo lugar, a farra do boi tem claros elementos de crueldade com o animal, que fica assustado, que sofre.

"Será que o sacrifício de animais é essencial para sua existência? Assim, como um leigo..." Isso, vc é leigo, não é nem adepto da religião. Pode-se perguntar, pode e deve questionar, mas a sua conclusão não é válida para o ponto de vista da religião.

"Na Baixada Fluminense documentei inúmeros trabalhos religiosos, nem todos usavam animais e, quando usavam, eram apenas uma parte das oferendas." Sim, assim como eleição é apenas uma parte da vida democrática; a maioria dos trabalhos não são por meio de voto vai falar q eleição é um elemento meramente acessório e dispensável à democracia?

E segue: "Mas o peru de Natal é diferente. Ele é comido." Poxa, Gabeira, nem pra estudar o básico pra poder opinar com alguma propriedade? Os animais sacrificados são, sim, comidos depois.

"Mas o fato de comermos peru no Natal e sabermos que milhares morrem diariamente não justifica arrancar o pescoço de uma ave numa celebração mística." Celebração mística como o nascimento do filho de deus entre os cristãos?

Quem aqui come cabeça de peru? Mal vem a cabeça na embalagem, a maioria tem nojo. Então, sim, perus de Natal também são degolados, Gabeira.

Faltou um triz pro Gabeira dizer textualmente que candomblé, umbanda e outros cultos de matriz afro merecem um status menor do que o cristianismo. E que merecem respeito menor do que aspectos econômicos.

Bola fora, pexotada, um frango, um frangaço, um peru.

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Upideite(05.abr.2019): Ao menos era mantida em condições inadequadas.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Como é que é? 23% dos ateus creditam sucesso financeiro a deus? Sim. E não. Provavelmente.

O resultado da pesquisa do Datafolha a respeito da visão religiosa do brasileiro produziu um resultado inusitado. Dentre os que se declararam ser ateu ou não acreditar em deus, 23% dizem concordar com a frase: "Todo o sucesso financeiro de minha vida eu devo, em primeiro lugar, a Deus".

Inusitado, mas não é a primeira vez que algo similar ocorre. Em pesquisa sobre criacionismo, em 2010, 33% dos que se declararam ateu para o Datafolha responderam que deus guiou o processo de evolução das espécies.

O que provavelmente vem ocorrendo é que, como os ateus são grupo muito reduzido no Brasil - em 2010 eram apenas 615 mil segundo o Censo do IBGE, 0,315% da população de então -, essas pesquisas de opinião nacional falham em captar amostras representativas. Os falsos positivos - crentes que erroneamente se declaram ateus - facilmente atingem magnitude equivalente ao dos positivos verdadeiros: basta uma taxa de erro de 1 em 315 para isso se dar.

O erro, então, está em apresentar os valores obtidos sem esse tipo de consideração. Os valores para outros grupos religiosos - com um número bem maior de pessoas que declaram pertencer a eles - provavelmente serão bem mais próximos dos reais.

Com 2.828 entrevistas, são esperadas 9 pessoas que se declaram ateias. Se, entre os 2.819 entrevistados restantes, apenas 1 em 315 erroneamente se declararem ateus, serão 9 falsos ateus na amostra. Aliás, no longo curso, o conjunto de pesquisas do Datafolha podem ajudar a calibrar a taxa de falha nas declarações.

De modo mais ou menos consistente entre um quinto e a metade dos que se identificam como ateus aos entrevistadores do Datafolha dão respostas a outros temas que não são compatíveis. Então a taxa de falha está em algo entre 1 em 315 e 1 em 1.000.

Problema ligado, mas ligeiramente distinto, ocorre também na detecção do tamanho real desses grupos muito pequenos por amostragens nacionais: como do tamanho de torcidas do Fluminense e da Portuguesa, p.e.

Upideite(31/dez/2016): O Datafolha liberou o relatório do levantamento. O número de ateus na pesquisa é bem superior ao esperado em cima dos dados do Censo: foram 38 pessoas que se declararam ateias para os entrevistadores do instituto.

Upideite(31/dez/2016): Veja também:
Pirula. 27/dez/2016. Datafolha e os ateus que rezam por dinheiro.
Leandro Domiciano. Universo Racionalista. 31/dez/2016. Ateus que acreditam em Deus? Entenda o que deu errado na pesquisa do Datafolha.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

O Santo Sudário

Uma análise recém-publicada mostra que não há diferenças nos perfis de espectrometria de massa de carbono-14 em amostras do Sudário de Turim quando se levam em conta contaminantes orgânicos.

"Abstract
This is an editorial regarding a paper published on Thermochimica Acta (R.N. Rogers, Thermochimca Acta, 425 (2005) 189–194). A close-up analysis of the pyrolysis-mass spectra reported in the original paper reveals that the differences found between the samples coming from different parts of the Shroud are just due to the presence of a contaminant with a long aliphatic chain. Except for the presence of the contaminant, the two pyrolysis-mass spectra look alike rather than different. Therefore, the pseudoscientific theory stating that the C14 sample might come from a “medieval invisible mending” remains unsupported by evidences."

["Resumo
Isto é uma mensagem editorial a respeito do artigo publicado em Thermochimica Acta (R.B. Rogers, Thermochimica Acta, 425 (2005) 189-194). Uma análise mais detalhada dos espectros de massa por método pirolítico relatados no artigo original revela que as diferenças encontradas entre as amostras de diferentes partes do sudário devem se apenas à presença de contaminantes de longas cadeias alifáticas. Exceto pela presença de contaminantes, os dois espectros de massa por pirólise são semelhantes e não diferentes. Assim, a teoria pseudocientífica que afirma que a amostra de C14 viria de uma 'emenda medieval invisível' mantém-se sem apoio em indícios."]

(Não chamaria exatamente de pseudocientífica, já que pode ser submetida a testes. Diria que é uma hipótese refutada. Embora possa ser chamada de pseudocientífica na medida em que seja defendida a despeito das refutações empíricas.)

Joe Nickell do CFI (Center for Inquiry) escreve sobre o tema no blog da instituição.*

Abaixo reproduzo texto meu de 2007 no Observatório da Imprensa (atualmente não está mais no ar - há apenas uma cópia no Internet Archive).

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GALILEU O Santo Sudário

Roberto Takata (*)

Reciclar lixo não é a panacéia que resolverá todos os problemas dos resíduos sólidos produzidos em nosso modo "civilizado" de viver. Pode até mesmo causar mais problemas do que resolver, se não for planejado e aplicado adequadamente: e.g. se se fosse branquear o papel reciclado seria gerada uma quantidade maior de poluentes do que na produção de papel comum. Ainda assim – repiso, se bem planejados –, os programas de reciclagem podem ser um grande aliado na batalha pela melhoria da qualidade de vida da população e na conscientização para o exercício da cidadania.

Alguns vestibulares mais preocupados com a capacidade de raciocínio do que de memorização realizam o que se pode chamar de "reciclagem de informações". Questões são formuladas para que o candidato interprete um trecho de livro ou de artigo retirado do noticiário e reflita sobre o seu significado. Podemos realizar este exercício com um artigo de recente edição de Galileu (outubro de 1999). Antes, porém, um esclarecimento: não cuide, leitora (ou leitor) ser implicância minha com a revista ou com o autor do artigo, posto que não é a primeira vez que me pronuncio desfavoravelmente a um texto ali publicado. Quero apenas tecer algumas críticas, em meu julgamento, construtivas; afinal acredito que apontar erros é um passo para solucioná-los, sendo em última instância uma contribuição na busca do aperfeiçoamento constante do trabalho.

O texto referido é "Mistério e fascínio do Santo Sudário". Começa nos informando encontrarem-se presos à trama do tecido pólens mais antigos do que a idade estimada para o sudário pelos cientistas num teste feito em 1988. Segue afirmando ter sido sensacionalista a divulgação, à época, das conclusões de que o sudário teria sido fabricado na Idade Média (entre os anos 1260 e 1390). Pergunto aqui se não serão dois pesos e duas medidas. Senão, vejamos: "A opinião pública embarcou nessa tese [da falsificação do sudário]"; "essa informação [existência de pólens] foi atropelada pelo rolo compressor do teste do carbono 14"; "Ela [a existência de pólens]devolve ao estudo do Sudário a seriedade que o assunto merece"; "detalhe que os autores da tese de falsificação esqueceram de explicar [como a peça foi produzida]"; "No esforço quase irracional de negar a autenticidade do Sudário, alguns estudiosos lançaram mão de todo tipo de hipóteses para explicar a formação da imagem"; "dando [as manchas d’água] à imagem um aspecto ainda mais hierático e misterioso"; "Parece óbvio que o autor do Código [de Pray] o utilizou [ao Sudário] como modelo"; "Esse experimento [do efeito da fumaça na datação do pano] por si só desqualifica completamente a datação [...]" – grifos meus.

Palavras fortes de apelo ao emocional induzindo a se imaginar que o estudo teria sido conduzido de modo descuidado (desleixado? tendencioso?): a isso não se chama sensacionalismo? Ainda mais que não se tratam de citações, mas de julgamentos do próprio autor? Qual a procedência desse julgamento?

O sudário é um objeto realmente fascinante, e julgo não necessitar destes subterfúgios para despertar o interesse das pessoas. Muitos outros pontos (incluindo diversos listados no artigo) revelam-se provocações instigantes para os céticos – uma falsificação tão detalhada?
Mas a crítica feroz se centra no método da datação por carbono-14, referido sete vezes (alguma conotação cabalística?) – e negando três vezes a validade do teste (Mat. 26:34-75?). Apesar disso, em nenhum momento nas dez páginas dedicadas ao assunto é explicado o que afinal vem a ser o carbono-14 e como é realizada a datação.

Troca de carbono
O carbono-14 é um isótopo (forma de um mesmo elemento químico, mas com peso diferente) do carbono; uma outra forma, bem mais abundante, é o carbono-12. O carbono-14 é instável e se transforma em nitrogênio-14, estável, liberando radiação. Essa quantidade perdida é reposta por um processo inverso que ocorre na alta atmosfera com o bombardeamento de 14N por radiações solares de alta energia, de modo que a quantidade de 14C na atmosfera é praticamente constante. O processo de transformação de uma forma instável para outra mais estável, denominada decaimento radioativo, se dá de maneira estocástica – isto é, não se pode prever quando exatamente um determinado átomo vai emitir radiação e se transformar; mas é possível prever o comportamento de uma certa quantidade: depois de um período, chamado de meia-vida, apenas metade dos átomos iniciais não terão decaído, após outro intervalo de mesma duração apenas a metade da metade (um quarto) restará íntegra e assim por diante. A meia-vida do carbono-14 é de 5.730 anos. Então, se soubermos a quantidade original de 14C de um objeto (obviamente contendo carbono) no momento de sua fabricação, e compararmos com a quantidade atual, poderemos saber a idade do objeto por meio de uma função logarítmica.

Como saber a quantidade inicial? No caso do tecido sabemos que foi confeccionado com fibra vegetal. As plantas fixam o carbono retirado do ar na forma de CO2. Sabemos que a razão entre 14C e 12C nas moléculas de CO2 no ar é de 1 para um trilhão (1012) – que vem a ser a proporção, então, nas plantas, nos animais que delas se alimentam e nos produtos derivados: vegetal ou animal (existem exceções, mas não é o caso do linho no qual foi urdido o sudário). Quando o organismo morre, cessa a troca de carbono com o ambiente e, pelo decaimento, a proporção de 14C para 12C se altera – quanto mais tempo se passa menor a proporção de 14C.

O teste de 1988
Em 1988, cientistas retiraram uma amostra do sudário, mediram com um aparelho a quantidade de 14C presente no CO2 formado na queima total do tecido e compararam com uma amostra equivalente de pano novo de linho (em lugar de utilizarem a proporção teórica original). Nessa medição chegaram à idade de cerca de 660 anos dentro de uma margem de erro.

O que se contesta então? Afirma-se que a amostra estava, como todo o sudário, contaminada com bactérias e pólens recentes, fazendo com que no teste resultasse uma idade menor do que a verdadeira. No artigo é citado um trabalho do cientista russo Dmitri Kuznetsov indicando que a fumaça produzida por um incêndio em 1532 atingindo o sudário poderia ter provocado uma troca entre o carbono do tecido e o da fumaça de até 25% do total (isto é, um quarto de todo o carbono do tecido pode ter sido substituído pelo carbono do ar e do material consumido no incêndio) – o que valeu o comentário do autor da matéria de Galileu de que a datação fora completamente desqualificada.

Um rápido cálculo indica que, corrigindo o eventual efeito máximo da fumaça, o ano da fabricação do pano deveria estar em torno de 1255 (não muito longe do mínimo estimado: 1260). Não parece ser tão desabonadora assim: estamos ainda muito longe do ano 33, no qual teria ocorrido a paixão de Cristo.

[Usando apenas o conteúdo de Química e de Matemática do nível médio é plenamente possível realizar tais cálculos. Se se for pensar de modo mais intuitivo é só verificar que um quarto do 14C do tecido será substituído pelo ar atmosférico, o mesmo ocorrendo com o 12C do tecido. Então, se por um lado se perde o 14C pela substituição de parte deste pelo carbono da fumaça (rico em 12C ), por outro ganha-se14C pela substituição de parte do 12C (em muito maior quantidade na amostra) pelo carbono da fumaça: a maior parte do 12C do tecido será trocado pelo da fumaça, mas uma pequena parte (1 em um trilhão) será trocada pelo 14C. Como na fumaça há comparativamente mais carbono-14 do que no tecido, ao final o ganho será maior do que a perda. Se houvesse o autor notado que a queda na proporção de 14C se relaciona com o tempo decorrido em uma função logarítmica, notaria que se esperaria mesmo uma alteração menor se o ano de fabricação estimado (1325 +/- 65) não fosse muito diferente do possível instante da contaminação (1532): se uma troca de 100% do carbono tivesse ocorrido na época de fabricação do sudário não se notaria efeito algum.]

A creditar-se a diferença restante à sujeira acumulada, bactérias e pólens, deveríamos ter uma quantidade de carbono quase duas vezes maior dessa fonte em relação ao carbono do tecido. Pesando o sudário cerca de 9 kg, isso significaria que teríamos mais de 4 kg de pó: a imagem não deveria ser visível debaixo de uma generosa camada de microorganismos e poeira.

Falso argumento
Se existem alguns empecilhos para a hipótese da falsificação, a da autenticidade encontra problemas ainda mais graves. O autor vê dificuldades incontornáveis numa diferença de 70 anos entre a idade estimada (que tem uma variação de 65 anos – para mais ou para menos) e a que poderia ser a real em caso de influência da fumaça (com uma variação em anos da mesma ordem); mas apresenta como se fosse natural a explicação de que a imagem teria se formado a partir de um brilho equivalente à detonação de um artefato nuclear emanado do próprio corpo envolvido pelo pano. E mais, que nesse instante esse corpo estaria flutuando no ar.

Argumenta ainda o autor que "o Sudário já passou por milhares de testes" e "de todos os experimentos, só o do carbono-14 contestou a autenticidade da peça". Creio que, apesar de usar no texto um termo da epistemologia da ciência, "falsear", não entenda de fato o que define a validade lógica de uma hipótese científica – não importa quantos experimentos apontem para a veracidade de uma idéia: se apenas uma observação negá-la, ela necessariamente é falsa (claro, estou simplificando um pouco as coisas, mas creio aqui que não estarei fugindo muito da verdade).

Ainda mais grave, essa argumentação é falsa também ao se mentir por mais duas razões: em nenhum instante é esclarecido que o teste do carbono-14 foi repetido mais duas vezes por laboratórios independentes com o mesmo resultado; outros tipos de testes indicam que o sudário não deve ser autêntico – e.g. a perícia forense não conseguiu detectar traços de sangue no tecido (as manchas, que são tidas como sangue por muitos, ao contrário deste não são escuraa, apesar da idade, e são quimicamente compatíveis com pigmentos utilizados na Europa medieval).

Pregações doutrinárias
Escrevi isto não com o intuito de fazer um libelo contra a autenticidade do Sudário (sim, sou, como qualquer um pôde perceber, cético quanto a isso), mas porque mais uma vez Galileu falhou no processo de divulgação científica. Este artigo contrasta fortemente com um outro publicado na mesma edição, "Cinco mil anos antes de Cabral", em que apesar de também reportar uma tese polêmica e contrária à visão científica tradicional, ainda que mais terrena (povos europeus e incas teriam se aventurado em terras brasileiras muito antes da descoberta oficial), não toma para si as afirmações dos proponentes da idéia, embora simpatize o autor com elas, e coteja com o depoimento de uma opinião cética.

Afirmações cabais de idéias pouco aceitas pela comunidade científica, negligência investigativa com as proposições, ausência de confrontação com opiniões contrárias, omissão de informação, propalação de meias-verdades e, mais grave, mentir categoricamente vão contra o bom jornalismo científico (e muito disso vai contra qualquer tipo de jornalismo – aproximando-se, perdões, mas a comparação é-me inevitável, de pregações doutrinárias).

Dentro do espírito ecologicamente correto poderíamos reprocessar o artigo e tê-lo assim reciclado como um modelo do que não se deveria fazer em termos de jornalismo (científico ou não).

Em tempo: Conforme é dito no próprio artigo, não é nova a alegação da existência de pólens da Palestina mais antigos que a data aceita para o pano. Mas, ao contrário do que se afirma, isso não foi "atropelado pelo rolo compressor" da datação por carbono-14, e sim posto em xeque pela inconsistência dos dados: amostras independentes revelaram conter o Sudário comparativamente muito menos pólen do que a amostra de Max Frei, um criminologista com a credibilidade já abalada anteriormente por sustentar a autenticidade de uma falsificação crassa – os diários de Hitler. Amostra a partir da qual foi feita a afirmação.

Mais informações (céticas, naturalmente) em: , em inglês, e <www.epub.org.br/correio/ciencia/cp960815.htm>.
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(Mais tarde pedi desculpas ao autor do texto na Galileu por comparar o texto dele com lixo. Mas, as críticas, eu as mantenho.)

*via @EliVieira tw.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Má Criação

O ex-presidente da CDMH da Câmara aprontou mais uma e protocolou um projeto de lei, PL 8.099/2014, que torna obrigatório o ensino do criacionismo nas aulas de ciências em todo o país nas escolas públicas e privadas.

Ele chupou o deputado estadual paranaense Artagão Junior que já havia apresentado em 2007 (PL 594/200714) na Assembleia Legislativa do Paraná - e reapresentou este ano (PL 30/2014).

Seguramente, as criaturas sabem que é inconstitucional. Se fazem isso só pra agradar a suas bases ou só pra torrar a paciência dos cidadãos que não seguem suas religiões, eu não sei dizer.

Mas a velha estratégia do duplo padrão. Querem contrabandear o criacionismo para dentro das aulas de ciências com base em argumentos supostamente científicos e religiosos: se se argumenta que religião não deve ser ensinada em aulas de ciências, dizem que é sob a óptica científica de hipótese da diversidade dos seres vivos; se se argumenta que uma teoria já demonstrada falsa não deve ser ensinada em aulas de ciências, dizem que é discriminação religiosa (e que crença religiosa não deve ser alvo de escrutínio científico).

Alguém que diz professar a religião de Cristo deveria se envergonhar de adotar estratégia tão insidiosa e de má-fé, de deturpação e de mentira.

Veja mais em:
DNA Cético: Nunca é demais repetir: criacionismo não é alternativa ao ensino da evolução.
Ceticismo: Mais um projeto de lei para disseminar Criacionismo nas escolas.
Maurício Tuffani: Projeto criacionista de Feliciano é um monumento à ignorância.*
                          Design Inteligente rejeita criacionismo em aulas de ciências**
Dicas de Ciência: Professores, muita atenção!***

*Upideite(15/nov/2014): adido a esta data.
Upideite(17/nov/2014): outra proposição na Câmara dos Deputados com tentativa de introduzir o criacionismo nas escolas públicas - em aulas de ciência ou de história - foi a INC 5.078/2005 do deputado Milton Cardias, do PTB-RS.
**Upideite(17/nov/2014): adido a esta data.
Upideite(25/nov/2014): A Associação Brasileira de Ensino de Biologia (SBEnBio) e a Associação Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências (Abrapec) lançaram uma carta aberta em conjunto contra o PL.
Upideite(26/nov/2014): A Sociedade Brasileira de Física também se manifestou contra.
Upideite(05/dez/2014): A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência publicou carta contrária ao projeto.
***Upideite(26/dez/2014): adido a esta data.
Upideite(05/mar/2014): O Conselho Federal de Biologia também repudia o projeto.

domingo, 14 de setembro de 2014

Criacionismo. Nas escolas públicas, não!

O Brasil, sempre atrasado, agora está meio que tendo que enfrentar a briga do Design Inteligente contra o bom senso. Nos EUA, desde 2005, com o julgamento Kitzmiller v. Distrito Escolar da Área de Dover, está bem claro para o sistema legal que a Teoria do Design Inteligente (TDI) é só uma forma de criacionismo e este, desde 1982, no julgamento McLean v. Conselho da Educação de Arkansas, é considerado uma forma de religião, não tendo nada a ver com ciências.
Os adeptos do criacionismo estão organizados no Brasil já há um bom tempo. Inclusive do TDI. Mas agora, com o crescimento da bancada evangélica, com o sucesso de várias investidas arcaizantes dessa bancada: impedimento da oferta pelo SUS de assistência ao abortamento nos casos que são previstos em lei; retrocesso da agenda de cultura da tolerância e respeito à diversidade sexual (incluindo de orientação sexual) nas escolas; proscrição de campanhas de combate à aids/HIV voltados para o público LGBTT/queer e para prostitutas... estão botando as asinhas de fora e querem que a pseudociência religiosa do criacionismo (sob a alcunha de TDI) seja enfiada nas escolas e universidades públicas nas aulas de ciências. É a proposta que irão defender em seu segundo primeiro congresso de TDI (houve um primeiro primeiro congresso em 2010).
No Rio de Janeiro, em 2004, sob a batuta da governadora evangélica presbiteriana Rosinha Garotinho, o ensino do criacionismo invadiu as escolas públicas pela porta de trás: em meio a aulas de religião.
Não podemos ceder à essa agenda obscurantista. Que eles acreditem, é direito deles. Que ensinem aos filhos deles em escolas confessionais particulares é direito deles. Que queiram impor a visão religiosa deles a todos os demais brasileiros é um abuso que não se pode tolerar.
Duvido que eles gostassem de que os filhos deles fossem obrigatoriamente expostos às lendas de religiões de matrizes africanas.
Pra manter o respeito a todas as formas de crenças é que o Estado tem que ser religiosamente neutro, tem que ser laico. Não pode, assim, permitir a mistura de religião com ciência nas escolas públicas.

domingo, 31 de agosto de 2014

A operação de readequação sexual no programa da Marina Silva

Um antes e depois do texto do programa de governo da Senadora Marina Silva para as eleições presidenciais de 2014.

Sumiu todo o trecho a respeito da transfobia. Não se fala mais em sociedade sexista, heteronormativa e excludente em relação às diferenças (virou apenas diferenças de visões de mundo e sugere que a questão da sexualidade é simplesmente uma das "escolhas feitas em cada área da vida"). Se um certo pastor pressionar um pouco mais, vão tirar completamente menção à sexualidade (agora restrita somente ao cabeçalho introdutório - ui!).

Entre as propostas, claro, tiraram a menção àao PL 122 de criminalização da homofobia. Casamento civil vira somente união civil - e não há mais compromisso de apoiar propostas sobre a questão. Não se compromete mais a aprovar o PL Identidade de Gênero Brasileira (lei João W. Nery), só a cumpri-la caso se transforme em lei (o que é óbvio, constitucionalmente todo mundo é obrigado a obedecer à lei e fazê-la cumprir). Não se fala mais em eliminar obstáculo à adoção por casais homoafetivos, diz-se em fazer as mesmas exigências a casais homo e heteroafetivos (em princípio é o que deve ser, mas isso pode significar obstáculos diferenciais - digamos, passe a se exigir tanto de casais homo como hetero garantias dos avós). Deixa de se comprometer a produzir materiais didáticos sobre orientação sexual e novas formas de família (afinal, família é só a velha: homem e mulher). Sumiu o compromisso de manter e ampliar os programas atuais. E não vai mais dar efetividade ao Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos LGBT, só vai levar em consideração (o que permite analisar e ignorar).
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LGBT
Não podemos mais permitir que os direitos humanos e a dignidade das minorias sexuais continuem sendo violados em nome do preconceito. O direito de vivenciar a sexualidade e o direito às oportunidades devem ser garantidos a todos, indistintamente.
Texto original Texto malafaizado
Ainda que tenhamos dificuldade para admitir, vivemos em uma sociedade sexista, heteronormativa e excludente em relação às diferenças. Os direitos humanos e a dignidade das pessoas são constantemente violados e guiados, sobretudo, pela cultura hegemônica de grupos majoritários (brancos, heterossexuais, homens etc.). Uma sociedade em que somente a maioria – seus valores, tabus e interesses – é atendida pelo poder político, enquanto as minorias sociais e sexuais silenciam, não pode ser considerada democrática. É preciso olhar com respeito às demandas de grupos minoritários e de grupos discriminados. A população LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) encontra-se no rol dos que carecem de políticas públicas específicas.

O direito de expressar sentimentos e vivenciar a sexualidade deve ser garantido a todos. As demandas da população LGBT já estão nas agendas internacionais. No Brasil, no entanto, precisamos superar o fundamentalismo incrustrado no Legislativo e nos diversos aparelhos estatais, que condenam o processo de reconhecimento dos direitos LGBT e interferem nele.

A Constituição de 1988 prega a liberdade e a igualdade de todas as brasileiras e todos os brasileiros sem distinção de qualquer natureza. Contudo, dados da Secretária Nacional de Direitos Humanos mostram que, de 2011 a 2012, os crimes homofóbicos cresceram 11% em nosso país. De acordo com o Grupo Gay da Bahia, houve 338 assassinatos com motivação homofóbica e transfóbica só no ano de 2012. Tais crimes maculam nossa democracia e ofendem o princípio da convivência na diversidade.

No seio da própria categoria, travestis e transexuais são o grupo mais vulnerável e invisível socialmente. A grande maioria deixa a escola ainda muito jovem. A discriminação sofrida por causa da identidade de gênero divergente faz com que tenham dificuldades para concluir os estudos. É necessário gerar um ambiente que assegure formação e capacitação profissional aos transgêneros.

Como o preconceito é difuso e muitas vezes mascarado, enfrentá-lo é tarefa intersetorial que envolve não só o governo, mas também as esferas da educação e da cultura, nas quais se constroem valores e se transformam mentalidades.
Ainda que tenhamos dificuldade para admitir, vivemos em uma sociedade que tem muita dificuldade de lidar com as diferenças de visão de mundo, de forma de viver e de escolhas feitas em cada área da vida. Essa dificuldade chega a assumir formas agressivas e sem amparo em qualquer princípio que remeta a relações pacíficas, democráticas e fraternas entre as pessoas. Nossa cultura tem traços que refletem interesses de grupos que acumularam poder enquanto os que são considerados minoria não encontram espaços de expressão de seus interesses. A democracia só avança se superar a forma tradicional de supremacia da maioria sobre a minoria e passar a buscar que todos tenham formas dignas de se expressar e ter atendidos seus interesses. Os grupos LGBT estão entre essas minorias que têm direitos civis que precisam ser respeitados, defendidos e reconhecidos, pois a Constituição Federal diz que todos são iguais perante a lei, independentemente de idade, sexo, raça, classe social. Assim como em relação às mulheres, aos idosos e às crianças, algumas políticas públicas precisam ser desenvolvidas para atender a especificidade das populações LGBT.

A violência que chega ao assassinato, vitima muitos dos membros dos grupos LGBT. Dados oficiais indicam que, entre 2011 e 2012, os crimes contra esse grupo aumentaram em 11% em nosso país. Outros sofrem tanto preconceito que abandonam a escola e abrem mão de toda a oportunidade que a educação pode dar, o que também, de certa forma, corresponde a uma expressão simbólica de morte.

É preciso desenvolver ações que eduquem a população para o convívio respeitoso com a diferença e a capacidade de reconhecer os direitos civis de todos.

PARA ASSEGURAR DIREITOS E COMBATER A DISCRIMINAÇÃO
• Apoiar propostas em defesa do casamento civil igualitário, com vistas à aprovação dos projetos de lei e da emenda constitucional em tramitação, que garantem o direito ao casamento igualitário na Constituição e no Código Civil.
• Articular no Legislativo a votação do PLC 122/06, que equipara a discriminação baseada na orientação sexual e na identidade de gênero àquelas já previstas em lei para quem discrimina em razão de cor, etnia, nacionalidade e religião.
• Comprometer-se com a aprovação do Projeto de Lei da Identidade de Gênero Brasileira − conhecida como Lei João W. Nery −, que regulamenta o direito ao reconhecimento da identidade de gênero das “pessoas trans”, com base no modo como se sentem e se veem, dispensando a morosa autorização judicial, os laudos médicos e psicológicos, as cirurgias e as hormonioterapias.
• Eliminar obstáculos à adoção de crianças por casais homoafetivos.
• Normatizar e especificar o conceito de homofobia no âmbito da administração pública e criar mecanismos para aferir os crimes de natureza homofóbica.
• Incluir o combate ao bullying, à homofobia e ao preconceito no Plano Nacional de Educação, desenvolvendo material didático destinado a conscientizar sobre a diversidade de orientação sexual e às novas formas de família.
• Garantir e ampliar a oferta de tratamentos e serviços de saúde para que atendam às demandas e necessidades especiais da população LGBT no SUS.
• Manter e ampliar os serviços já existentes, que hoje atendem com capacidade ínfima e filas de espera enormes.
• Assegurar que os cursos e oportunidades de educação e capacitação formal atendam aos anseios de formação que a população LGBT possui, para garantir ingresso no mercado de trabalho.
• Dar efetividade ao Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos LGBT.
PARA ASSEGURAR DIREITOS E COMBATER A DISCRIMINAÇÃO
• Garantir os direitos oriundos da união civil entre pessoas do mesmo sexo.
• Aprovado no Congresso Nacional o Projeto de Lei da Identidade de Gênero Brasileira – conhecida como a Lei João W. Nery – que regulamenta o direito ao reconhecimento da identidade de gênero das “pessoas trans”, com base no modo como se sentem e veem, dispensar a morosa autorização judicial, os laudos médicos e psicológicos, as cirurgias e as hormonioterapias.
• Como nos processos de adoção interessa o bem-estar da criança que será adotada, dar tratamento igual aos casais adotantes, com todas as exigências e cuidados iguais para ambas as modalidades de união, homo ou heterossexual.
• Normatizar e especificar o conceito de homofobia no âmbito da administração pública e criar mecanismos para aferir os crimes de natureza homofóbica.
• Incluir o combate ao bullying, à homofobia e ao preconceito no Plano Nacional de Educação.
• Garantir e ampliar a oferta de tratamentos e serviços de saúde para que atendam as necessidades especiais da população LGBT no SUS.
• Assegurar que os cursos e oportunidades de educação e capacitação formal considerem os anseios de formação da população LGBT para garantir ingresso no mercado de trabalho.
• Considerar as proposições do Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos LGBT na elaboração de políticas públicas específicas para populações LGBT.
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quinta-feira, 17 de abril de 2014

O Saci Pererê histórico existiu?

Esqueça poderesemos mágicos. Nada de se deslocar no meio de redemoinho de vento, portanto. Fiquemos só com o essencial: um garoto negro, de uma perna só, que gosta de fazer travessuras. Provavelmente que tenha vivido na antiga região das Missões no Sul do Brasil no fim do século XVIII.

1) Temos relatos de vários autores independentes sobre o avistamento do Saci. (Critério da multiplicidade.)
2) A maioria dos relatos são sobre as peças que ele prega. (Critério do constrangimento.)
3) As características básicas sobre o Saci nos múltiplos relatos são mantidas. (Critério da coerência.)
4) Escravos negros estavam presentes na região desde o início da colonização portuguesa (entre os fins do séc. 17 e início do 18). (Critério da plausibilidade histórica.)
5) O Saci não pertence nem propriamente à mitologia indígena (ainda que algo similar ao curupira), nem à mitologia portuguesa. (Critério da dissimilaridade.)

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Este texto é uma leve sacaneada com o Reinaldo José Lopes (a quem e cujo trabalho admiro muito) e sua série sobre o Jesus histórico em seu blog Darwin e Deus (cuja leitura recomendo muito - embora eu mesmo pouco tenha lido por causa do paywall poroso da Folha): http://darwinedeus.blogfolha.uol.com.br/2014/04/15/desculpai-mas-jesus-existiu-um-preambulo/
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Embora uma provocação ao Reynolds, não se pretende ser uma afronta a sua religião, nem à fé dos cristãos. Quero apenas discutir a validade dos critérios de autenticidade como critério de veracidade dos relatos.

(Não defendo a inexistência de um Josué Nazareno histórico, apenas que os indícios de sua existência são muito fraquinhos. Como já tratei aqui mesmo neste blogue.)

quarta-feira, 27 de março de 2013

CCJ extingue soberania nacional

Para quê serve a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania da Câmara Federal dos Deputados? Teoricamente para analisar as propostas legislativas quanto à constitucionalidade e garantias fundamentais do cidadão brasileiro.

Os excelentíssimos senhores integrantes da CCJ, no entanto, acabam de aprovar a admissibilidade  da PEC 99/2011 de autoria de João Campos do PSDB-GO. Essa PEC inclui entre as instituições que podem entrar com ação direta de inconstitucionalidade (ADIN) e ação declaratória de constitucionalidade (ADC) as associações religiosas de âmbito regionalnacional. Diz o autor na justificativa:

"Após bom debate, a Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional deliberou por apresentar proposta de Emenda à Constituição objetivando inserir Associações Religiosas de caráter nacional (exemplo: CGADB - Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil, CONAMAD - Convenção Nacional das Assembléias de Deus no Brasil Ministério Madureira, CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil, Convenção Batista Nacional, Colégio Episcopal da Igreja Metodista, etc.)"

CNBB é ICAR. A ICAR tem um estado, o Vaticano. Vão mesmo deixar uma instituição sob ordens de um estado estrangeiro meter o bedelho em leis nacionais?

Nos etcs., creio, sob pena de discriminação religiosa, incluírem os anglicanos. A Igreja Anglicana está sob ordens do monarca inglês. Vão deixar uma instituição sob ordens de um regente estrangeiro meter o bedelho em leis nacionais?

Nossa lei impede que partidos políticos estrangeiros financiem campanhas em território nacional. Estrangeiros residentes no país não podem participar de manifestações que eventualmente sejam contrários aos interesses nacionais. E vão, assim, de bandeja entregar parte substancial de nossa soberania à entidades regidas por chefes de estados estrangeiros - nos exemplos acima: Francisco do Vaticano e Elizabeth II do Reino Unido?

Não dá pra apenas excluir esses casos e deixar o resto, isso seria discriminação religiosa. A única alternativa sensata é excluir *todas* as denominações religiosas igualmente da possibilidade de impetrarem uma ADIN ou uma ADC.

Um atentado tão óbvio à soberania nacional - um dos valores orientadores da Constituição Federal - passou pela CCJ. Para que serve a CCJ? (Espero que a temeridade dessa PEC seja barrada em alguma instância mais centrada.)

Upideite(28/mar/2013): Há ainda que se notar que muitas denominações protestantes são ramos de igrejas cristãs com sedes em outros países - onde as orientações principais são tomadas. O mesmo vale para igrejas de outras religiões que seguem líderes residentes no exterior, como a Seicho-no-Iê.

Upideite(28/mar/2013): Disclêimer: Eu sou arcipreste de uma igreja oficialmente reconhecida no Brasil, a Igreja Heliocêntrica do Sagrado EvangÉlio.

Upideite(28/mar/2013): Em nome da liberdade religiosa, há muito pouca restrição à abertura de novas igrejas no país. A IHSE foi aberta com o propósito de demonstrar que é mais fácil abrir uma igreja do que uma empresa. Concordo que deva ser assim. Essa grande liberdade, no entanto, permite que pessoas pouco honestas - picaretas mesmo - tenham suas próprias igrejas. A PEC 99/11 é temerária também nesse aspecto. Qualquer um, inclusive pessoas mal intencionadas, podem ter sua igreja e teriam o poder de entrar com ADIN e ADC - por exemplo, um traficante de drogas poderia dizer que uma lei sobre controle de psicotrópicos atrapalharia sua igreja, que diz que entorpecentes são canais para comunicação com sua divindade (e temos seitas e igrejas que usam substâncias alteradoras de estados de consciência em seus rituais). A justificativa de que a PEC é democratizante e permite que associações religiosas questionem leis que possam afetar seus interesses caberia para quase tudo - por que associações feministas não poderiam, então, entrar com ADIN contra leis que possam afetar direitos das mulheres? Por que associações ambientalistas não poderiam ter o mesmo direito de questionar leis que possam fragilizar a proteção à natureza?

Upideite(28/mar/2013): Grupos estrangeiros poderiam facilmente criar igrejas no país e interferirem em temas nacionais para benefício próprio. Soberania zero. Para impedir isso teria que se restringir a atividade religiosa, o que não é nada desejável. Então é melhor derrubarem essa ideia fora de lugar.

Updieite(28/mar/2013): Estou enviando o email abaixo para os nobres deputados federais:
"Excelentíssimo Senhor Deputado Federal XXXX,

Por meio desta gostaria de chamar a atenção para a inconstitucionalidade do PEC 99/2011 por atentar contra a soberania nacional.

A CNBB é um órgão colegiado da Igreja Católica Apostólica Romana que responde diretamente a um estado estrangeiro, o Vaticano.

Os filiados ao anglicanismo também respondem a um soberano estrangeiro, a Rainha da Inglaterra.

Como, por outro lado, não faz sentido excluir somente estas denominações, por implicar em discriminação religiosa, e, por outro, outras denominações e religiões responderem a uma matriz e líderes que estão em outros países, nenhuma associação religiosa deveria ter o poder de impetrar um pedido de ADIN ou ADC.

Cordialmente,

Roberto Takata"

Upideite(29/mar/2013): Abaixo, o esquema de como a soberania nacional é afetada pela PEC 99/2011.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Religião e Ciências: conflito, complementaridade, independência

Em seu blogue, Carlos Orsi defende a tese do "naturalismo como conclusão lógica da ciência".

Herton Escobar, do Estadão, relata um estudo feito por um grupo do Instituto de Biociências comparando citações religiosas em dissertações e teses defendidas por pós-graduando de Ciências Biológicas e de Medicina Veterinária. O coordenador da pesquisa, o Prof. Dr. Antonio Carlos Marques comenta a respeito do índice de 8% dos trabalhos de alunos de Biologia: "Por um lado, é uma porcentagem baixa, comparada ao nível de religiosidade da sociedade como um todo. Por outro, é um número alto, se pensarmos que estes alunos são treinados para pesquisar e ensinar disciplinas que têm a evolução biológica como princípio fundamental". Na mesma linha de Dawkins, Marques condiciona a aceitação da realidade da evolução biológica ao ateísmo (ou à ateidade). E mais, a respeito da presença das citações: "É um antagonismo curioso, ver duas visões contraditórias incorporadas no mesmo documento". Ou seja, para o pesquisador ciência e religião são incompatíveis.

Discordo.

Alhures desenvolvi a argumentação que reproduzo abaixo.

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"Podemos assumir que nosso mundo se ordena a partir de leis naturais. E moldamos a nossa visão de como o mundo funciona sob a perspectiva dessas leis. Podemos a todo instante reformular o modo como expressamos essas leis, mas não iremos questionar se tais leis existem.

É a hipótese da existência de leis naturais que torna possível todo o processo posterior de estudo do mundo sob o ponto de vista cientifico. (Existem outras visões complementares, como a de que o mundo é inteligível, que ele não é autocontraditório, etc.)

Mas quando uma previsão falha, isto é, uma teoria falha no teste de hipótese, não dizemos: 'isso prova que a lei não existe'. E sim: 'isso faz com que tenhamos que reformular a lei'. E tocamos o barco. (E não imaginaremos que a lei mudou entre um teste e outro, e sim que a formulação anterior deveria estar errada: a lei era a mesma desde sempre, apenas não a compreendíamos bem antes.) Já houve casos em que dados consistentes não poderiam ser explicados por nenhum processo natural conhecido. O que fizeram? Criaram uma nova lei. As forças que mantêm os núcleons unidos no interior do átomo não poderiam ser explicadas em termos das então conhecidas forças gravitacional e eletromagnética – inventaram a força nuclear forte. (A invenção em si não traz nenhum problema, é uma solução perfeitamente aceitável, apenas é preciso que se possa testar essa hipótese.)

Por outro lado, uma das alternativas é assumir que o mundo se ordena a partir de uma entidade metafísica que, na falta de um nome melhor, podemos chamar de deus. E essa a ideia da existência de uma divindade? Ela poderia ser a substituta da ideia da existência de leis naturais? No meu entender, sim. O custo seria que não teremos como sustentar uma visão eterna de um deus – teríamos que estar dispostos a reformular constantemente a ideia que fazemos a respeito dela – do mesmo modo como fazemos com as leis naturais. Provavelmente um religioso do tipo mais comum teria certa dificuldade em operar desse modo, mas é uma alternativa, tanto quanto podemos perceber, viável de se encarar o mundo.

Em resumo, duas grandes concepções de mundo possíveis:

A visão naturalista:
1 - existem leis naturais;
2 - as leis naturais possuem estas características;
3 - essas características determinam estas consequências.

Podemos verificar as consequências por meio empírico. Se os resultados batem com as previsões, mantemos o esquema. Se os resultados são diferentes, alteramos a premissa 2 e não a premissa 1.

A visão espiritualista:
A - existe deus (ou outras divindades ou uma força transcendente);
B - deus possui estas características;
C - essas características determinam estas consequências

E a pessoa pode mudar B, sem abandonar A, caso C não se confirme.

É uma situação análoga à visão naturalista.

A grande questão é que muitos adeptos da visão espiritualista se aferram tanto a A quanto a B. E nisso acaba-se por gerar necessariamente um conflito com o conhecimento científico. Se estivessem dispostos a mudar B sempre que necessário, talvez tivessem condições de produzir alguma coisa com essa visão. Repare-se, então, que o conflito entre uma visão espiritualista e uma visão científica não reside necessariamente na hipótese da existência de uma divindade, mas sim em um dogmatismo sobre preconcepções a respeito dessa divindade. (Como nota acrescente-se que, como estamos considerando divindade aqui como uma entidade metafísica, seria possível criar visões equivalentes a partir de entidades afins como o Monstro de Espaguete Voador, o Unicórnio Invisível Cor-de-Rosa, o Porco Voador, ou até mesmo a xícara espacial de Russell, caso se trate de uma xícara metafísica: isto é, um princípio ordenador de visão de mundo.)

Também não iríamos analisar a própria existência de deus a partir dos parâmetros que analisaríamos as formulações a respeito de como seria esse deus.

Agora, uma vez que se escolha uma das alternativas, claro que a outra é analisável sob esse ângulo. Se escolhemos a via da aceitação da existência de leis naturais, podemos questionar o que significa aceitar a existência de deus, com consequências geradas a partir da aceitação da existência de leis naturais: como quebra de princípio da conservação da energia ou a própria inexistência de algo fora da natureza, a questão da complexidade, etc. [...]


De outra feita, se escolhemos a via da aceitação de uma 'vontade' superior, uma entidade metafísica divina; podemos analisar a questão da existência de leis naturais: por que elas são dessa forma e não de outro modo, como na questão do princípio antrópico forte.

Em suma, o que os fatos podem sim é eventualmente refutar uma determinada concepção de divindade, assim como refutar uma determinada concepção de leis naturais. O que os cientistas não-religiosos preferem é manter a tese de que leis naturais existem e que, se o resultado contradiz a previsão, então a concepção atual de leis naturais está errada e essa concepção precisa ser reformulada. O mesmo, em tese, poderia ocorrer com as concepções de divindades, mas por tradição isso não é feito."

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É, a meu ver, então bobagem forçar a barra e vincular as ciências ao ateísmo/ateidade. Se não por outra coisa, pelo efeito deletério que parece ter em relação à aceitação das ciências pela população em geral. (Pesquisas qualitativas e quantitativas indicam isso. Sempre que se faz a dicotomia evolução/deus, a aceitação da teoria evolutiva cai entre os pesquisados. Em painéis de testes de enquadramento de apresentação da teoria evolutiva, as Academias Nacionais de Ciências dos EUA verificaram que quando a teoria evolutiva é ensinada sem conflito aberto com a religiosidade, o público a aceita melhor.) Mas, sobretudo, porque é mentira que ciência e religião sejam necessariamente incompatíveis.

Considero que seja inevitável (ou quase) a intervenção de uma viés ideológico. Não devemos, porém, atropelar os fatos, substituindo dados consubstanciados por achismos, preencher lacunas com pensamentos volitivos (whishful thinking). Há já alguns bons dados para se guiar a discussão.

Se, com razão, os cientófilos defendem a análise factual nas questões sobre homossexualidade, aborto, células-tronco, evolução... devemos defender, então, também a análise factual na questão do embate entre a visão científica e a visão religiosa.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Ateus de alma humana: Minha cordial discordância a Carlos Orsi

O jornalista Carlos Orsi escreveu em seu blogue um texto em defesa do direitos ateus em debocharem abertamente do sentimento religioso das pessoas: "Cuidado com quem prega o ateísmo de 'alma branca'".

A linha de defesa, pelo que entendi, passa por:
1) Liberdade de expressão;
2) Direito de resposta: "eles (os religiosos) que começaram, professor";
3) Estão apenas dizendo a verdade: "religião *é* ridícula";
4) Estratégia retórica: tem que bater o pau na mesa pra se fazer respeitar;
5) Dizer que não deveriam ridicularizar seria o mesmo que dizer que negros deveriam saber seu lugar, homossexuais devem ser discretos e mulheres devem se vestir como pudicas.

1) Como o próprio Orsi reconhece nos comentários da postagem dele, a liberdade de expressão tem limites: de um lado, a lei, e de outro, há a reprovação dos intelectuais. E, bem, aparentemente parte dos intelectuais acham que essa ridicularização passou mesmo o limite do bom gosto e da civilidade a ponto de fazerem crítica pública a essas ações, inclusive intelectuais dentro da própria comunidade ateísta e ateia. (Quanto ao limite legal estou mais incerto - creio que ninguém ainda tenha sido processado.)

2) Em conjunto com certas interpretações de (1) isso acaba legitimando também o próprio discurso *contra* os ateus (ou contra a ateidade/ateísmo). Por quê? Porque de um lado, se *todo mundo* tem a liberdade de dizer *o que quiser*, esse "todo mundo" inclui os religiosos e esse "o que quiser" inclui descascar os ateus. De outro, é o princípio em que a reciprocidade elimina a ofensa inicial. Os dois se xingaram, estão quites. Ninguém tem que falar nada de ninguém. (É um dispositivo de exclusão de pena no Código Penal para os casos de injúrias - art. 140:
"§ 1º - O juiz pode deixar de aplicar a pena: I - quando o ofendido, de forma reprovável, provocou diretamente a injúria; II - no caso de retorsão imediata, que consista em outra injúria."
Isto é, ateus ficam sem a carta do "quero respeito", a menos que ambas as partes se sentem para um armistício.
E a prioridade da provocação é invertida quando começa a caçoar de Ganexa - há poucos casos de atritos entre hindus (religiões orientais de modo geral, e as de matrizes nativas e africanas também) e ateus no Brasil.

3) O conceito de ridicularidade é extremamente subjetivo ou, no máximo, intersubjetivo. Mas mesmo assim há coisas que não precisam ser ditas por serem provocações puras, sem nenhum aspecto pedagógico. Sério, qual o sentido de ridicularizar Ganexa? O mesmo sentido do Rodeio das Gordas, pelo visto. Ninguém há de defender a humilhação de pessoas obesas para que "elas se toquem e comecem a fazer regime, faz até bem pra saúde delas" - oquei, há gente que defende isso, mas acho que concordaremos que é uma tentativa absurda de justificação.

4) De um lado há que se discutir se a hora é agora. E de outro se é verdade que isso é necessário. Orsi também reconhece nos comentários da postagem dele a possibilidade de escalada, o que chama de "corrida armamentista". Se o efeito desejado é de *convencimento*, isso parece um tiro pela culatra.

5) A comparação não procede como argumentei lá na postagem de Orsi:
"A comparação com 'negro saber seu lugar', 'homossexuais não pode[m] andar de mãos dadas na rua', 'mulher não pode usar roupa sensual' não é bom [sic, boa] em relação a 'ateus devem ser respeitosos'. Em primeiro lugar, desrespeito é criticável - mesmo o responsivo. Além disso, desrespeito *não* é uma característica intrinsecamente necessária para o exercício da ateidade ou do ateísmo. Em terceiro lugar - ligando-se com o primeiro -, 'negro saber seu lugar' restringe os direitos dos negros porque todo mundo, menos os negros, podem ir e vir para qualquer lugar, 'homossexual deve ser discreto' restringe o direito dos homossexuais porque todo mundo, menos os homossexuais, podem demonstrar afeto em público; 'mulher deve se vestir puritanamente' restringe os direitos das mulheres porque todo mundo, menos as mulheres, podem se vestir do jeito que quiserem.

'Ateus devem se comportar' só é comparável a essas situações se a todo mundo, menos os ateus, fosse dado o direito de ser desrespeitoso."

O desrespeito por parte dos ateus em relação aos religiosos deve ser criticado. Também devem ser criticados os desrespeito dos religiosos em relação aos ateus. E também o desrespeito de grupos religiosos em relação a outros grupos religiosos.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Os sem religião estão crescendo no Brasil?

Resposta curta: provavelmente não. A despeito das reportagens sobre o trabalho da FGV coordenado por Marcelo Neri em cima dos dados do IBGE (particularmente da amostra dos censos), não se pode falar que o número de pessoas que declaram não ter nenhuma religião esteja aumentando no Brasil.

Menos ainda falar que o número de ateus está crescendo como fez a BBC Brasil: "Proporção de católicos volta a cair no Brasil; crescem evangélicos e ateus".

Os sem religião não são compostos apenas por ateus. Na verdade, uma fração pequena dos sem religião são ateus. A maioria são os que acreditam em deus, mas não seguem nenhuma religião. Outra parte, menor, mas ainda maior do que ateus*, são os agnósticos.

Abaixo um gráfico com os dados da amostra do Censo desde 1991:
E se incluirmos os dados do Datafolha:
Fazendo um gráfico somente dos sem religião:
Vemos que na verdade, seu número tende a oscilar ao longo dos anos - um período de cerca de 4 a 6 anos.

Tudo o que se pode dizer é que os católicos são cada vez menos numerosos e os evangélicos pentecostais são cada vez mais numerosos.

Upideite(24/ago/2011): Bem, dá pra falar em aumento dos sem religião em um quadro temporal mais amplo. O gráfico abaixo é retirado do relatório coordenado por Neri.
Mas a tendência parece ter parado por volta da década de 1990.

*Upideite(17/mar/2013): Estava errada a minha afirmação de que, no Brasil, havia mais agnósticos do que ateus. São 615,1 mil ateus contra apenas 124,4 mil agnósticos declarados.

domingo, 12 de dezembro de 2010

ATEA tu, Brutus? - 2

A ATEA continua sua saga (acho que podemos chamar disso) para tentar emplacar a campanha do "Ônibus ateu". Desta vez as empresas de ônibus estão criando resistências.

O argumento delas é de que as mensagens são ofensivas à religião e crença - violando legislação local e nacional sobre publicidade.

Pelo menos para algumas peças, eu concordo: as mensagens são ofensivas, sim, à religião.


Vincular crença em deus a Hitler e ao terrorismo não é o melhor exemplo de relações públicas.

Com razão, representaram no MP contra o apresentador Datena por dizer que criminosos são ateus (e vice-versa), e vão usar o mesmo tipo de argumento sobre religião?

Continuo favorável à organização de grupos sociais na defesa de seus direitos. Continuo favorável a que ateus se organizem para combater o preconceito contra eles. Continuo favorável à campanhas do tipo "ônibus ateu". Apenas acho que deveriam escolher melhor as frases. Poderiam, por exemplo, só usar a imagem de Chaplin identificando-o como ateu - não precisa usar imagem de Hitler dizendo que ele acredita em deus.

Ou só a frase mote da campanha: "Diga não ao preconceito contra os ateus".

sábado, 5 de junho de 2010

Credere o non credere

Inspirado na postagem de Karl Ecce Medicus, sugiro abaixo uma taxonomia em relação aos diferentes posicionamentos filosóficos sobre a existência ou não de uma divindade.

Clique na imagem para ampliar.

domingo, 16 de maio de 2010

Dogmas e pragmas

Um tema recorrente nos círculos céticos-racionalistas (entenda aqui o ceticismo e o racionismo como o neoceticismo e o neorracionalismo e não os ceticismo e racionalismo filosóficos clássicos) é a diferença entre o pensamento religioso e o cético-racionalista (que quase sempre igualam com o pensamento científico).

É rara uma visão positivista clássica: de que as ciências forneçam um conhecimento com certeza absoluta. Mas é muito comum ainda um resquício do cientificismo, de que esse conhecimento é assintoticamente próximo de 100% de certeza (quanto mais se testa, mais certo é) e que tal conhecimento supera de tal feita os outros tipos de visão de mundo que as alternativas deveriam ser desconsideradas - ou varridas do mapa.

O pensamento religioso é, nessa visão, pautado em fé dogmática. (A maioria pensa nas religiões como alegações de verdades reveladas - características das grandes religiões monoteístas e até do budismo primitivo - em seu conceito de Nirvana ou iluminação -, uma generalização que desconsidera muitas formas de espiritualismo e religião.)

Geralmente a fé é vista como uma crença sem bases - e a fé dogmática, a crença cega e renintente: a aceitação de verdades reveladas incontestáveis e indiscutíveis. (Se assim fosse não deveríamos notar nenhuma evolução no pensamento religioso - o que não é rigorosamente verdadeiro, muitas delas passam por reformas: especialmente após períodos de crise: e se alguém lembrar das mudanças de paradigmas kuhnianos não estará tão longe, mas há também adaptações lentas, contínuas e graduais às mudanças do comportamento das pessoas. Não são raras as cismas, criando-se novas correntes ou mesmo novas religiões, mas mesmo dentro de uma linhagem contínua de tradições ocorrem tais mudanças.)

Mas dentro da perspectiva de muitos céticos-racionalistas, o racionalismo e ceticismo se baseiam na dúvida sistemática: questionando-se todo tipo de afirmações (e negações). A isso se junta um empirismo reformado: os fatos naturais e a experimentação controlada (científica) como juízes de tais afirmações.

A tais seria uma grande bobagem (não direi heresia) qualquer tentativa de paralelismo entre as visões religiosas (irracionais e crédulas por natureza, e incontestáveis para seus proponentes) e as visões cético-racionalistas (ponderadas e baseadas em fatos, e sempre sujeitas a revisões segundo seus defensores).

Concordaria que há diferenças. Mas questiono se são mesmo diametralmente opostos e mutuamente excludentes.

Sou um dos primeiros a condenar execuções baseadas em questões religiosas: p.e. dilapidação de adúlteras (raramente homens adúlteros sofrem o mesmo destino) por ferir leis divinas. "Selvageria, irracionalidade, primitivismo teocrático" são pensamentos que ecoam também em minha mente. Prender, castigar ou mesmo matar alguém porque autoridades religiosas dizem que é assim que se deve proceder. "Isso é errado aos olhos de deus", é assim e sem questionamentos.

Vejamos no entanto sob uma perspectiva comparativa mais sutil (sem com isso significar qualquer condescendência com o tipo de pensamento acima).

Os céticos-racionalistas concordam que os postulados científicos são contestáveis, estão sujeitos a mudanças (quando os fatos assim o exigirem). Isso é relativamente neutro quando se trata da descrição do funcionamento do mundo natural. "Ok, a Terra gira ao redor do Sol e não contrário. E mesmo isso poderá ser revisto se indícios novos apontarem o contrário." É uma visão liberal que tem a vantagem extra de não levar ninguém à fogueira por defender o oposto (embora críticos digam, não sem razão, que haverá a condenação à fogueira das vaidades daqueles que contrariarem o pensamento científico vigente).

Mas há um lado prático que influi de modo terrível sobre a vida das pessoas. Um exemplo fácil é a condenação de uma pessoa por, digamos homicídio, baseando-se em exames de ADN. Dizem que há uma certeza de 99,9% de que uma pessoa seja a origem de uma dada amostra de material genético. Porém essa "certeza" se baseiam na aceitação de certos postulados - por exemplo, na distribuição de certos polimorfismos na população. Não estou dizendo que o suspeito não deva ser condenado por isso (e, repito, que isso justifique a condenação por adultério de mulheres em países teocráticos). Apenas uma reflexão para que as diferenças envolvem um pouco mais de sutileza do que pontos obviamente mutuamente excludentes.

Temos "fé" suficiente em que os postulados científicos (e matemáticos) utilizados nas conclusões são firmes o bastante para justificar a condenação de pessoas (e, em certos países, mesmo à morte).

(Bom frisar também, seria grosseira simplificação - para não dizer erro - dizer que não há nenhuma oposição entre o pensamento religioso em geral e a abordagem cético-racionalista.)

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Aquele abraço

Eu gosto da imagem do Cristo Redentor sobre o Corcovado. Mesmo que a estátua esteticamente não seja a mais perfeita, mas quem disse que eu entendo de estética? (Aliás, não entendo de nada e não pretendo me fazer de entendido.)

Agora, a Arquidiocese do Rio de Janeiro assume uma postura ridícula de acionar na justiça a Columbia Pictures pelo uso da imagem do Cristo Redentor no filme 2012. Quer indenização. Indenizar o quê, catzo?

Posso estar enganado, mas nem o Vaticano foi tão longe quando no mesmo filme a Capela Sistina vem abaixo.

E vem com a alegação de que o Cristo Redentor é símbolo religioso. Se for símbolo religioso então a ICAR é quem deveria cuidar de sua administração e manutenção, em vez de deixar tudo às custas do erário e só receber as prebendas. Aliás, se o Cristo Redentor é símbolo religioso, então o que fazem os crucifixos nas repartições públicas? Nessas horas o crucifixo deixa de ser um símbolo religioso segundo a ICAR. Porque, se for um, tem que ser retirado - já que a CF estabelece a separação entre Igreja e Estado.

sábado, 28 de novembro de 2009

Cinco razões para rejeitar o darwinismo

Segue um excerto do meu livro:

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Razões para se renunciar ao darwinismo

A teoria da evolução por seleção natural é, assim, pelos melhores indícios disponíveis, uma teoria científica solidamente sustentada pelos fatos, ainda que não seja irrefutável (característica necessária para que a consideremos – sob Popper – científica). Mas há motivos para não se adotar o termo darwinismo. O leitor atento terá notado que pouco uso fiz da expressão nos parágrafos precedentes e pouco uso (se algum) farei mais adiante. Listo a seguir cinco motivos para não chamar de darwinismo à teoria da evolução por seleção natural:

1) Darwinismo com seu sufixo -ismo tende a implicar em uma doutrina. Como a teoria da evolução não necessita de crença ou fé, não há razão para ser darwinista.

2) Darwinismo implica em um certo culto à pessoa. Embora, a figura de Darwin seja admirável em muitos aspectos, admiração é melhor do que culto, pois nos permite o distanciamento para fazer críticas eventuais necessárias.

3) Darwinismo refere-se somente à Darwin. Qual Darwin? Charles Robert Darwin? Erasmus Darwin? Robert Darwin?

4) Darwinismo refere-se às idéias de Darwin. Charles Robert Darwin desenvolveu muitas idéias, algumas boas e atuais, outras que se reveleram equivocadas. A qual delas se refere? Pangênese? Evolução por seleção natural? Formação dos recifes de coral por subsidência?

5) Darwinismo nega a participação essencial de outros autores como Alfred Russel Wallace.

Porém, o uso consagrou o termo, de modo que é amplamente empregado – o significado exato apresenta variações, incluindo ou excluindo determinadas características: Gould, como dito acima, chama de darwinismo à teoria da evolução que enfatiza a seleção como agente causador da evolução, o indivíduo como alvo essencial ou único da seleção e o gradualismo; Ernst Mayr (2005. Biologia, ciência única: reflexões sobre a autonomia de uma disciplina científica. Cia. das Letras. 272 pp.) considera cinco aspectos distintos: evolução propriamente dita, ancestralidade em comum, multiplicação de espécies, gradualismo e seleção natural.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Livro grátis

ERRATA: Conforme alertou-me José Colucci, cometi pelo menos um erro ao comentar a virulência de Christopher Hitchens em relação à religião. Usei a versão traduzida em que ele chama uma ex-professora sua de "velha idiota", na versão original é "old trout", não é tão forte quanto "idiota", apenas "boba".

Upideite(29/nov/2009): Um trecho do livro aqui e um trecho modificado aqui.



*Como o envio é manual, pode haver alguma demora caso eu tenha problema de acesso à internet.

*O endereço de email será mantido em sigilo, não sendo repassado para terceiros nem usado para spams.