sexta-feira, 8 de julho de 2016
Uma longa jornada: o efeito de longas horas trabalhadas na saúde
Após polêmica nas mídias sociais e tradicionais sobre fala do empresário a respeito da jornada de trabalho no Brasil, a entidade publicou nota afirmando que seu mandatário: "JAMAIS defendeu o aumento da jornada de trabalho brasileira, limitada pela Constituição Federal em 44 horas semanais" (grifo deles.)
Para provarem o ponto, na mesma nota republicam a transcrição correta do que disse Andrade:
"Nós aqui no Brasil temos 44 horas de trabalho semanais. As centrais sindicais tentam passar esse número para 40. A França, que tem 36 horas, passou agora para 80, a possibilidade de até 80 horas de trabalho semanal (sic, são 60 horas) e até 12 horas diárias de trabalho. A razão disso é muito simples, é que a França perdeu a competitividade da sua indústria com relação aos outros países da Europa. Então, a França está revertendo e revendo as suas medidas para criar competitividade. O mundo é assim. A gente tem que estar aberto para fazer essas mudanças. E nós ficamos aqui realmente ansiosos para que essas mudanças sejam apresentadas no menor tempo possível."
Ou seja, se jamais defendeu, jamais defendeu até então... pois o trecho é exatamente a defesa da adoção de uma jornada estendida de 12 horas e 60 horas por semana.
Questões políticas à parte; temos uma literatura científica já com algum tamanho sobre os efeitos que jornadas extensas têm na saúde do trabalhador.
Em 2004, o National Institute for Occupational Safety and Health publicou um estudo de revisão sobre a literatura acerca do tema. A conclusão geral foi:
"In 16 of 22 studies addressing general health effects, overtime was associated with poorer perceived general health, increased injury rates, more illnesses, or increased mortality. One meta-analysis of long work hours suggested a possible weak relationship with preterm birth. Overtime was associated with unhealthy weight gain in two studies, increased alcohol use in two of three studies, increased smoking in one of two studies, and poorer neuropsychological test performance in one study. Some reports did not support this trend, finding no relationship between long work hours and leisure-time physical activity (two of three studies) and no relationship with drug abuse (one study)."
["Em 16 dos 22 estudos referindo-se a efeitos gerais na saúde, as horas estendidas associaram-se a uma saúde geral percebida pior, aumento de taxa de acidentes, mais doenças ou aumento da mortalidade. Uma meta-análise de longas jornadas sugeriu uma relação fraca com nascimentos prematuros. As horas estendidas foram associadas a um ganho de peso não-saudável em dois de três estudos, aumento de consumo de álcool em três, aumento de uso de tabaco em um de dois estudos e pior desempenho em testes neuropsicológicos em um estudo. Alguns estudos não apoiam essa tendência, não encontrando relação entre longa jornada e atividade física durante as folgas (dois de três estudos) e também não encontrando relação com abuso de drogas (um estudo). "]
Uma meta-análise de Virtanen et al. (2012), incluindo 12 estudos com um total de 22.518 participantes, concluiu que jornadas longas de trabalho aumentam o risco de se desenvolver doenças cardíacas coronarianas em 40%.
Vyas et al (2012), em meta-análise de 34 estudos com 2.011.935 pessoas no total, concluem que: "[o]n the basis of the Canadian prevalence of shift work of 32.8%, the population attributable risks related to shift work were 7.0% for myocardial infarction, 7.3% for all coronary events, and 1.6% for ischaemic stroke." ["Com base na prevalência canadense de jornada de trabalho, de 32,8% de riscos populacionais atribuíveis à jornada de trabalho, 7,0% foram de infarto do miocárdio, 7,3% para todos os eventos coronarianos e 1,5% para derrame isquêmico."]
Ao que tudo indica, o presidente da CNI não chegou a ver esses efeitos deletérios à saúde do trabalhador de longas jornadas de trabalho que ele diz que não defende - mesmo estranhamente proferindo palavras que indicam o contrário.
quarta-feira, 18 de maio de 2016
Menos leitos, menos saúde?
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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015
Fosfoetanolamina: Minhas cordiais discordâncias a Bruno de Pierro
Embora concorde que o reconhecimento dos limites das ciências seja importante, discordo dos exemplos dados e de algumas frases que ao menos na aparência têm um sentido de universalidade, mas que, elas mesmas, devem ser bem mais restritas na prática.
Ele começa contando um exemplo pessoal da musicoterapia e de seu efeito. De Pierro diz: "É simples: há um impacto positivo inegável na vida dos pacientes que são submetidos a terapias musicais." Bem, em princípio, qualquer coisa é negável - do contrário não faz parte do escopo científico (voltaremos a este ponto logo mais abaixo). Mas o que de Pierro quer dizer é outra coisa: "Basta visitar um desses lugares para ver idosos se movimentarem, sorrirem, inclusive aquele vovô rabugento. Como representar isso em gráficos, números, estatísticas? Não sei, mas os resultados, vivos, notórios, pulsantes, estão aí, diante dos nossos olhos."
Não basta visitar e ver. Muito do desenvolvimento do pensamento científico e filosófico deu-se no embate contra exatamente as subjetividades das impressões pessoais, na falibilidade de nossos sentidos. Por exemplo, há frequentemente uma diferença entre as estimativas dos participantes de manifestações entre os organizadores dos protestos e as autoridades contestadas. Os dois foram lá e viram. Mas viram coisas diferentes. São sinceros no que narram a respeito do que viram? Desconfiamos que não, porém se vamos nos basear apenas no "ir lá e ver", vamos apenas no fiar em qual narrativa mais nos agrada.
Há várias falhas no processo de simplesmente "ir e ver". O vovô rabugento está sorrindo por causa da música ou a despeito da música? E se, antes da música, mais gente estivesse sorrindo? "Ah, mas eles estavam sérios antes de começarmos a tocar a música". Mas e se começaram a tocar a música quando o efeito dos medicamentos começaram a fazer efeito?
Se o processo de inquirição científica tem limitações - e tem -, o processo de "ir e ver" também tem. E, em muitos casos, limitações até mais graves.
De Pierro prossegue: "Nem tudo cabe dentro de um artigo científico. Nem sempre os parâmetros da ciência são capazes de fornecer respostas. Quando isso não acontece, o que deve ser feito?"
Nem tudo cabe no artigo científico. Nem sempre os parâmetros da ciência são capazes de fornecer respostas. Não é o caso da musicoterapia. É possível, sim, representar os efeitos em gráficos, números e estatísticas, de modo mais abrangente e confiável do que pelo método de "ir e ver". Os melhores dados até o momento indicam que, para alguns usos (como para pessoas com desordens de espectro do autismo), a musicoterapia tem um bom efeito psicológico. Isso pode ser medido de diferentes formas: questionários para pacientes e seus familiares, medições de parâmetros fisiológicos associados a estresse (pressão arterial, frequência cardíaca, apetite, etc.), até a frequência e a duração dos sorrisos podem ser mensurados.(Infelizmente para o caso de adultos com demência, os dados disponíveis são ruins para se tirar qualquer conclusão por ora. Mas isso não é por falta de instrumento adequado de medição e, sim, por falta de aplicação adequada desses instrumentos.)
Pouca coisa que se refira a efeitos sobre a saúde fica de fora do que é verificável em termos científicos. Sobretudo o que se alega de cura de doenças e melhora de sintomas. Basta dividir os pacientes em dois grupos - de preferência de modo aleatório e com um número grande de indivíduos em cada grupo -, expor um dos grupos ao fator que se alega ter efeito, enquanto o outro grupo não recebe tal fator - de preferência sem que nem os pacientes, nem os atendentes saibam se foi ou não aplicado o fator para este ou aquele paciente. Ao final de um tempo, verificam-se os índices de melhora e de cura em cada grupo. Se o fator é misterioso (por exemplo, orações intercessórias), o estado de saúde do paciente é bem mais mundano e comezinho.
"Os maus cientistas (sim, eles existem, e não são raros) primeiramente desqualificarão o objeto que por eles não pode ser medido, analisado, compreendido ou explorado. Depois, caso haja uma pressão na sociedade ou mesmo de setores da própria comunidade científica, irão se debruçar sobre o objeto, tentando adaptá-lo aos moldes da ciência. Se o objeto, ou fenômeno, não puder ser explicado pela ciência, imediatamente será rebaixado ao posto de 'não-científico', 'charlatanismo', 'crença', 'placebo', etc."
Tirando "charlatanismo" não vejo nenhum rebaixamento com a classificação sob os demais termos antes de 'etc.' Argumentei a respeito de outra postagem de de Pierro sobre as limitações das ciências ante o saber dito tradicional que o fato de algo ser considerado "não científico" não significa que isso seja ruim. Arte é, em boa medida, não científica. A arte não se torna menor por conta disso. Mas, se algo não permite a análise pelas ciências, então não se trata de ciências. E se, ainda assim, insiste-se que seja um tipo de ciência, então estaremos diante de uma pseudociência - bastante afim do "charlatanismo" elencado por Bruno. Se algo que é charlatanismo é classificado como charlatanismo, não é rebaixamento.
"quando algo ainda não pode ser comprovado cientificamente, a resposta deve ser no sentido de desqualificar?"
Não. A resposta deve ser no sentido de qualificar segundo as qualidades. Se não é científico, não podemos dizer que seja científico. Se é charlatanismo, não podemos deixar de dizer que seja charlatanismo.
Se algo pode, em princípio, ser comprovado cientificamente e, a despeito da aplicação correta de metodologia científica, falha em ser comprovado cientificamente, então, esse "[ainda] não pode ser comprovado cientificamente" qualifica-se como "cientificamente refutado" e faz pouco sentido continuar tendo o que foi refutado como válido.
Se algo pode, em princípio, ser comprovado cientificamente, mas nenhum esforço sistemático foi feito para sua validação científica, então esse "ainda não pode ser comprovado cientificamente" qualifica-se como "não devidamente testado".
Da musicoterapia, de Pierro faz a ponte, então, para a fosfoetanolamina, defendendo que os pacientes possam escolher se desejam ou não receber o composto:
"No caso da fosfo, diante da ausência de um medicamente que de fato combata o câncer, parentes e pacientes recorrem ao que há disponível e que está dando resultado, mesmo que ainda não tenha sido legitimado pela ciência. Sabem dos riscos, mas não querem mais sofrer.
É justo dizer a eles: esperem, ainda não concluímos todos os testes?
[...]
Aceitamos que um rapaz maior de idade possa fumar um cigarro com milhares de substâncias que foram cientificamente comprovadas tóxicas, usando o argumento de que o indivíduo tem o direito de decidir sobre o próprio corpo. Por que não aceitar que o mesmo rapaz, que depois pode ter um câncer de pulmão, não possa ter o direito de utilizar a fosfo, como saída última para a cura?"
Há diferença importante. Quando o rapaz decide-se por fumar, ele não está em situação de desespero. O desespero chamado à baila para que empatizemos com o paciente é um fator que tira boa parte da capacidade de decisão racional. No caso do fumo, justamente pelos sabidos efeitos tóxicos, há empenho governamental para que as pessoas *deixem* de fumar. Não há nenhum programa governamental para fornecer cigarro pelo SUS e espero que não pleiteiem isso. Não há demanda para que o governo produza fumígeros. E espero que não permitam isso.
E mais do que isso, a questão não é tirar do paciente o direito de utilizar a fosfoetanolamina mesmo informado de que não há os devidos testes sobre sua segurança e eficácia. As questões são que: 1) dentro de uma instituição pública, um composto não devidamente testado estava sendo fornecido como se provavelmente curasse o câncer; 2) esse composto estava sendo produzido de maneira irregular.
Agora demanda-se que essa instituição utilize-se de recursos já escassos para produzir o composto sem os devidos testes.
Como nota de Pierro, pacientes desesperados recorrem a tudo o que há de disponível. Há milhares de compostos e processos não devidamente testados utilizados por dezenas de milhares de pacientes com câncer - chás de todo tipo, beberagens, imposições de mãos, compostos experimentais dos mais variados tipos - por quê, então, a *fosfoetanolamina* e não esses outros compostos? Ok, há os pacientes da Pho-s organizados em suas petições. Agora, se isso vale para a Pho-s deverá valer para petições futuras. Só com medicamentos sob o princípio do uso compassivo já se gasta cerca de R$ 1 bilhão por ano. E por que pacientes com câncer? E os diabéticos, portadores de HIV, epiléticos, cirróticos, hanseáticos, pacientes com insuficiência renal, cardíacos, obesos, etc?
Podem usar? Podem. As pessoas têm o direito ao desespero. Mas não cabe às autoridades alimentarem esperanças não embasadas e que têm grandes chances de serem falsas.
Em nome da empatia, da capacidade de entender o sofrimento alheio (e nem sempre alheio apenas), não podemos jogar no lixo as estatísticas. Algo como 90% dos compostos que entram na fase clínica de pesquisa são rejeitados antes de chegarem ao mercado - e uma fração é retirada depois que se descobrem efeitos adversos graves não detectados nos testes anteriores.
Que tipo de ganho temos realmente com "mais flexibilidades e novas dinâmicas" com um processo - fornecer deliberadamente em larga escala (ao menos na escala das demandas judiciais) compostos sem os testes prévios necessários - em que, estatisticamente, pelo menos 90% dos pacientes estarão em uma situação pior (no mínimo perderam tempo e dinheiro) do que se recebessem placebo?
Então, é mais do que justo dizer para os pacientes: "este composto ainda não foi devidamente testado, para que possamos liberá-lo para a comercialização e/ou distribuição governamental, pedimos que esperem; entendemos seus desejos, mas os riscos são altos; o processo de testes prévios dos compostos antes da liberação, no cômputo geral, tem salvado vidas e aumentado os anos de vida com saúde médio da população - não são protocolos tirados do nariz para alimentar algum desejo oculto sádico de ver o sofrimento alheio; ao contrário, foi e vem sendo desenvolvido ao longo dos anos para cobrir as falhas anteriores que expuseram pessoas a consequências mais do que trágicas com medicamentos não devidamente testados - sendo o caso da talidomida um exemplo bem conhecido, mas nem de longe o único; não é um procedimento a prova de falhas, mas é bem mais seguro do que a aprovação liberal - ainda que de uso circunscrito - de compostos sob demandas sociais sem os devidos testes prévios".
O uso compassivo deve ser considerado. Mas com uma visão bem mais abrangente do que o "ir e ver". O "ir e ver" pode complementar as planilhas frias, porém jamais substituir protocolos devidamente validados para avaliação de compostos e tratamentos.
sexta-feira, 30 de outubro de 2015
Mitos sobre a fosfoetanolamina
Não exatamente. Há testes pré-clínicos indicando resultados promissores: in vitro (com células de cultura derivadas de tecidos tumorais humanos) e in vivo (em camundongos com tecidos tumorais humanos). Porém, é discutível de que apenas esses testes sejam suficientes para justificar já a passagem para os testes clínicos (em humanos) - e certamente não justificam a aplicação terapêutica em humanos: o próprio autor principal de vários desses testes, o farmacêutico Adilson Kleber Ferreira, considera que são necessários ainda mais testes pré-clínicos antes de ir para o teste com humanos.
2) a fosfoetanolamina era distribuída há anos para pacientes com tumor, isso prova que é segura
Não. Não foi distribuída de modo controlado com o devido acompanhamento médico. Efeitos colaterais importantes podem ter sido deixados de ser relatados. Se a distribuição é indício de alguma coisa é que falta fiscalização e punição quanto ao exercício irregular de medicina e violação da lei sobre produção e distribuição de compostos com fins terapêuticos.
Além disso, há relatos também da ineficácia da fosfoetanolamina. De novo, isso também não é prova de que a fosfoetanolamina seja ineficaz. É preciso que se façam testes controlados.
3) a fosfoetanolamina é produzida naturalmente pelo organismo humano, então deve ser segura
Pode não ser. A fosfoetanolamina sintética é administrada em doses muito maiores do que a naturalmente produzida (a concentração em tecidos de ratos é por volta de 0,35 g/kg; a dose administrada em testes é de cerca de 0,8 g/kg por via oral; em testes com aplicação intraperitoneal, as doses variam de 0,035 a 0,07 g/kg - em ratos, a DL50 oral da o-fosforiletanolamina é de 5,82 g/kg, em camundongos, a DL50 intravenosa é de 0,639 g/kg**) e pode conter contaminantes - especialmente se produzidas em condições quase artesanais em um laboratório universitário.
*A vitamina D é naturalmente sintetizada pelo corpo humano - a exposição normal ao sol permite a produção endógena de algo entre 15.10^-6 a 15.10^-5 g por dia. Mas doses diárias de 10.000 UI - cerca de 0,00025 g (25.10^-5) - são tóxicas.
4) os casos relatados de pacientes que tomaram a fosfoetanolamina e se curaram mostram que o composto é eficaz
Não. Há uma boa porcentagem de casos de remissão espontânea do câncer. Além disso, não há como atribuir a cura à fosfoetanolamina e não a outras causas (como outras terapias realizadas em conjunto) justamente por falta de controle: os pacientes se curaram por causa da fosfoetanolamina ou a despeito dela?
5) a indústria farmacêutica não tem interesse em algo barato como a fosfoetanolamina
Ao contrário. Algo que *custe* barato pode proporcionar uma margem de *lucro* *maior*. Se 60 cápsulas por mês custam R$ 1,60; se isso for vendido a R$ 1.000, será um lucro muito mais extraordinário do que a margem média da indústria farmacêutica - de 10 a 40% (20% na média). A aspirina movimenta mais de 1 bilhão USD ao ano e dá lucro de 80%, custando centavos.
6) são pacientes terminais, não têm nada a perder em tomar a fosfoetanolamina mesmo sem testes
Não é bem assim. Podem perder a vida, podem ficar em uma situação ainda pior, não sabemos sem os devidos testes.
7) então devem ser feitos imediatamente testes com a fosfoetanolamina
Depende. Como dito no item 1, é discutível que os testes pré-clínicos realizados até o momento sejam suficientes para se passar já para a fase clínica. Mesmo que se considere que seja justificado, há que se pensar na questão dos custos dos estudos: quem deve
Os pesquisadores detentores da patente do método de síntese de fosfoetanolamina recusaram-se a cedê-la para parceiros - como a Fiocruz - interessados em industrializar o composto e testá-lo. O dinheiro público deve bancar os testes de milhões de reais para que os pesquisadores façam dinheiro sem riscos financeiros maiores caso o composto seja bem sucedido para entrar no mercado?
Por que esse dinheiro deve ser investido na fosfoetanolamina e não nos testes e desenvolvimento de outros compostos tão ou mais promissores? Já há tratamento eficaz para vários tipos de câncer, inclusive para os tipos contra os quais a fosfoetanolamina demonstrou efeito em testes in vitro; por que deve ter prioridade sobre o desenvolvimento de medicamentos para doenças ainda sem cura nem tratamento ou que atingem mais pessoas?
Pode ser que a resposta a essas questões seja favorável a se despender dinheiro público para se testar a fosfoetanolamina, mas isso depende de uma deliberação ponderada sobre o tema. Não de uma troca de desinformação.
(contribuição do físico Leandro Tessler, autor do Cultura Científica)*
"8) Fosfoetanolamina foi sintetizada pela primeira vez na USP
Existe no mercado fosfoetanolamina para venda comercialmente. A equipe da USP desenvolveu uma metodologia alternativa para sua síntese. Se políticos ou juízes querem fornecer o composto a pacientes ao arrepio da lei podem fazê-lo sem envolver a USP que claramente tem uma posição institucional contrária."
9) O caso da fosfoetanolamina encaixa-se no 'uso compassivo'
Pela legislação em vigor, há três situações no Brasil de acesso permitido - após a devida autorização pela Anvisa - a pacientes de compostos medicamentosos ainda sem o registro: o programa de acesso expandido. o uso compassivo e o programa de fornecimento pós-estudo.
Não se trata de nenhum dos casos porque é preciso que se trate de composto que esteja em pesquisa clínica. Até o momento, não se trata disso. Assim que se iniciarem os estudos encomendados pelo MCTI em parceria com a Anvisa, poderá haver a permissão de 'uso compassivo'; a alternativa de 'acesso expandido' será possível somente a partir da fase 3 dos testes. Naturalmente, somente após o término dos testes clínicos, é admissível o 'fornecimento pós-estudo'.
A distribuição realizada até o momento, portanto, não está de acordo com o regulamento da Anvisa: criado em 2013.
*Upideite(31/out/2015): adido a esta data.
**Upideite(02/nov/2015): adido a esta data.
domingo, 4 de outubro de 2015
Sistema privado de saúde melhor do que o público? Talvez não.
76% dos clientes de planos de saúde privado estão satisfeitos, entre seus 50,5 milhões de usuários atuais; apenas 36% dos usuários do SUS classificam o atendimento como muito bom ou bom. Há, então, uma margem de melhora no sistema público a ser buscada.
Isso, no entanto, não quer dizer que o sistema privado seja mais eficiente do que o SUS.
O sistema privado, realiza 262,2 milhões de consultas por ano (base de 2013); pelo SUS, são 1,4 bilhão de consultas. Isto é, 5,19 consultas/cliente-ano no caso privado e 9,36 consultas/usuário-ano no caso do SUS (considerando como usuários os 200 milhões de habitantes, menos os 50,5 milhões de clientes dos planos privados).
Corrigindo-se pelo índice de satisfação, são 3,74 consultas/cliente-ano satisfatórias nos planos privados contra 3,37 no SUS.
O sistema privado fatura R$ 108,2 bilhões/ano. No SUS são investidos R$ 92,2 bilhões/ano (2014). Então, cada milhão de reais faturados nos planos privados resultam em 0,0345 consulta satisfatória por cliente ao longo de um ano. No SUS, é 0,0366. Uma eficiência 5,8% melhor no SUS.
Essa margem aumenta quando consideramos que parte dos atendimentos dos planos privados são feito pelo SUS (e raramente há compensação); estamos desconsiderando também internações (mais pelo SUS), procedimentos complexos (mais pelo SUS).
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
Folha teve acesso exclusivo a um relatório aberto?
"Essa é uma das conclusões do Banco Mundial em relatório obtido com exclusividade pela Folha que analisa 20 anos do SUS e traça seus desafios." (grifo meu)
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Bem, tem um documento do Bando Mundial analisando os 20 anos do SUS. Mas está online e disponível ao público desde o dia 21.jun.2013.
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Há um outro relatório? Talvez. Mas os pontos que a Folha aponta estão presentes nesse relatório de junho
Folha: "E o Banco Mundial reforça isso: mais da metade dos gastos com saúde no país se concentra no setor privado, e o gasto público (3,8% do PIB) está abaixo da média de países em desenvolvimento."
Relatório aberto do Banco Mundial: "Government health spending in Brazil is currently just under 4 percent of GDP, which is significantly lower than the level of spending in most Organisation for Economic Co-operation and Development (OECD) and some middle-income countries, although Brazil is by no means a clear outlier."
A Folha fala em média dos países em desenvolvimento, o que, obviamente não é o caso - média de países da OECD (em sua maioria desenvolvidos) e de alguns países de renda média. E deixa bem claro que o Brasil não está muito fora da média - o que a Folha não menciona.
Folha: "Mais da metade dos hospitais brasileiros (65%) são pequenas unidades, com menos de 50 leitos --a literatura internacional aponta que, para ser eficiente, é preciso ter acima de cem leitos."
BM: "The main factors contributing to inefficiency were small scale of operations, high use of human resources, and low use of installed capacity and technical resources. Indeed, most Brazilian hospitals are too small to operate efficiently, with 65 percent having fewer than 50 beds. Moreover, the mean bed occupancy rate is very low: 37 percent for acute care hospitals and 45 percent for all hospitals."
Folha: "Nessas instituições, leitos e salas cirúrgicas estão subutilizados. A taxa média de ocupação é de 45%; a média internacional é de 70% a 75%."
BM: "The mean bed occupancy rate in Brazil is very low and an important source of inefficiency and waste. La Forgia and Couttolenc (2008) found that the bed occupancy rate among SUS hospitals was 37 percent for acute care hospitals and 45 percent for all hospitals (compared with the level recommended by the
Ministry of Health of 75–85 percent and international averages of around 70–75 percent)."
Folha: "As salas de cirurgias estão desocupadas em 85% do tempo. Ao mesmo tempo, os poucos grandes hospitais de referência estão superlotados."
BM: "Hospital technical resources are also underutilized. For instance, the mean number of surgeries performed per operating theater in Brazil was 0.66 per working day (La Forgia and Couttolenc 2008); this means that operating rooms in the typical Brazilian hospital are not used 85 percent of the time."
Folha: "Dois estudos citados pelo Banco Mundial estimam que em 30% das internações os pacientes poderiam ter sido atendidos em ambulatórios."
BM: "Also, part of hospitals’ inefficiency is a result of ineffective primary care and poor referral mechanisms. For instance, two studies estimated the proportion of hospital admissions for conditions sensitive to outpatient care within the SUS at close to 30 percent; in comparison, studies in Spain and the United States found much lower proportions (8–18 and 13–16 percent, respectively).15 The use of hospital infrastructure for unneeded admissions is clearly related to the absence of functioning, effective health care networks."
Então, ou:
a) a Folha escolheu um relatório exclusivo que não traz nenhuma novidade - e não havia nenhuma razão pra alardear a exclusividade ou;
b) a Folha escolheu dados do relatório exclusivo que estão presentes em outro relatório aberto, o que significa um serviço jornalístico ruim ou;
c) a Folha teve acesso com exclusividade antes da divulgação do relatório em junho - mas só agora, vários meses depois da publicação do documento resolveu fazer uma matéria a respeito, o que torna o aviso sobre o acesso exclusivo sem sentido ou
d) a Folha comeu bola e anunciou como exclusivo um relatório aberto.
segunda-feira, 24 de junho de 2013
Política para vândalos e manifestantes coxinhas: Lição 5 #ProtestaBR
| Gigante Recém-desperto e já Engajado na Milenar Luta pela Saúde no Brasil |
Antes de adentramos na análise desta importante proposta de financiamento do combalido Sistema Único de Saúde, que, todos sabemos, é um fiasco completo e faz mais mal do que bem à saúde dos brasileiros - sobretudo os mais pobres*, gostaria de trazer alguns dados sobre a avaliação do SUS pelos próprios usuários.
Just a food for thought.
Segundo o Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS) 2011 do Ipea [1]:
Entre os que usaram serviços do SUS nos últimos 12 meses
30,4% acham que é bom ou muito bom
27,6% acham que é ruim ou muito ruim
Entre os que *não* usaram o SUS:
19,2% acham que é bom ou muito bom
34,3% acham que é ruim ou muito ruim
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Resultado similar ao obtido pela Pesquisa de Satisfação dos Usuários do SUS, do Min. Saúde 2011 [2]:
Entre os que usaram o SUS nos últimos 12 meses:
15,02% acham que é muito ruim
13,62% acham que é ruim
34,04% acham que é regular
28,79% acham que é bom
7,37% acham que é muito bom
Entre os que *não* usaram o SUS:
26,64% acham que é muito ruim
18,38% acham que é ruim
29,73% acham que é regular
21,12% acham que é bom
4,13% acham que é muito bom
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Vamos considerar o seguinte. Em São Paulo, são 14 milhões de embarques por dia, para uma população de 11,32 milhões de pessoas. Projetamos isso para uma população de 196,7 milhões de brasileiros. Seriam 243,3 milhões de embarques por dia. 58,4 bilhões de embarques por ano. Uma injeção de 11,7 bilhões de BRL/ano no sistema SUS. Não seria nada mau.
Problema, lembram que havia a CPMF/IPMF? Um imposto provisório sobre movimentação financeira criticado por ser permanente durante 10 anos? Uma alíquota de 0,38% que significava - para quem movimentava 1 mil reais no banco - 3,8 BRL/mês. Ou, 19 BRL/mês pra quem movimentava 5 mil reais.
Os 20 centavos no SUS correspondem a uma média de 5,0 BRL/mês para cada brasileiro. O que inclui bebês, pobres e miseráveis na conta. Considerando-se apenas a população adulta com renda superior a 1,5 salário mínimo, seriam 15,6 BRL/mês.
Eu apoio integralmente um imposto médio de 40 centavos diários para cada brasileiro para ser injetado no SUS. Naturalmente, os mais pobres seriam isentos, com equivalente aumento do valor pago pelos que têm mais condições. Mas...
Eu não citei a CPMF à toa. Por anos foi o cavalo de batalha da classemédiasofre. Choravam as pitangas de como sangravam suas economias - sério, 19 reais por mês (pra quem paga R$ 100 só pra uma ida ao cinema: entre ingressos, lanche e estacionamento; R$ 800 por mês em salão de beleza, néam, Época? [3]) é um golpe tão terrível em nossas burras, né, não? A CPMF era destinada ao custeio exatamente da saúde pública (e da previdência social e do combate à pobreza).
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[1] http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/po1302201115.htm - (*Por favor, *leia* esse texto do Gaspari.)
[2] http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/relatorio_da_pesquisa_de_satisfacao.pdf
[3] http://revistaepoca.globo.com/vida/noticia/2013/06/o-arrocho-da-classe-media.html
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Desinformation Society: refrigerantes no blogue do Nassif
Enviei o comentário que reproduzo abaixo
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Tem um monte de refri que leva ácido fosfórico na formulação. P.e. a Pepsi, só pra citar uma concorrente [1].
Mentira que haja proibição do uso de ácido fosfórico em refrigerantes. O que existe são normas que estabelecem limites máximos: no caso, 0,07 g/100 ml [2].
Não é particularmente perigoso - a não ser em sua forma pura, que não é a que está presente nos refrigerantes e alimentos em geral (até aí, o gás cloro em sua forma pura é muito mais perigoso, mas não é assim que ele se apresenta na água tratada). A dose letal 50 (quantidade que provoca morte de 50% dos indivíduos) em ratos por administração oral é de 3,5 g/kg. [3] Se o indivíduo beber uma garrafa de 2 litros, terá ingerido 1,4 g: para uma criança recém-nascido de 3 kg, isso daria 0,47 g/kg; em crianças de 30 kg: 0,05 g/kg; em adultos de 60 kg: 0,03 g/kg.
Há, de fato, bastante açúcar nos refrigerantes, de modo que as pessoas devem consumi-los com moderação - aliás, elas devem tomar cuidado com suas dietas de modo geral, já que a obesidade é cada vez mais um problema de saúde pública no país.
Em suma, é até melhor não se consumir refrigerantes, mas não por causa de teorias conspiratórias e alarmismos infundados.
[]s,
Roberto Takata
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[1] http://www.ambev.com.br/pt-br/nossas-marcas/refrigerantes/pepsi/pepsi
[2] http://www.anvisa.gov.br/legis/resol/389_99.htm
[3] http://www.basequimica.com/websitebase/index.php?option=com_content&view=article&id=76:acido-fosforico-r-fispq&catid=37:linha-de-produtos-basequimica&Itemid=63
quinta-feira, 20 de maio de 2010
Escalando problemas: Alpino Fast
Diz a lei 9.782 que, entre outras coisas, criou a agência, em seu artigo 7o, inciso XXVI:
"Art. 7º Compete à Agência proceder à implementação e à execução do disposto nos incisos II a VII do art. 2º desta Lei, devendo:
[...]
XXVI - controlar, fiscalizar e acompanhar, sob o prisma da legislação sanitária, a propaganda e publicidade de produtos submetidos ao regime de vigilância sanitária;
[...]"
Sinceramente não entendi o que a Anvisa tem a ver com o babado. No máximo, seria caso para o Procon. (Particularmente considero, sim, propaganda enganosa, mas não me parece que envolva algum risco à saúde.)
Mas isso foi no dia 18/mai/2010. No dia 20/mai/2010, estava uma peça publicitária da linha Fast, incluindo o Alpino Fast, no site do jornalista Paulo Henrique Amorim. Abaixo, imagem digitalizada da tela do navegador exibindo parte da página com a publicidade.
Isso é outra coisa que não entendi. Se está proibido, isso não seria uma violação da determinação da agência? (Ou no meio tempo isso foi revogado?)