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terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Zika e danos neurológicos: na ausência de indícios, especular não é a solução

Artigo no Observatório da Imprensa assinado pelo jornalista João Ricardo Zini - que não conheço e de cujas referências não encontro no Google traço além desse próprio artigo - questiona a validade das evidências científicas - ou, antes, o status ontológico e deontológico da "ausência de evidências científicas".

"Mas a afirmação de que 'não há evidência científica' é um velho clichê que, em certas situações, mais inquieta do que explica. Quando vidas podem ser comprometidas, a falta de demonstração cartesiana dos riscos não significa que eles não existam."

Não é exatamente uma questão de cartesianismo. A qualificação 'científica' (que o autor quer passar por 'cartesiana' - que, não com rara frequência, é usada como um qualificativo negativo) quer dizer somente que se seguem critérios de objetividade, verificabilidade, reprodutibilidade - que buscam minimizar efeitos da mera opinião, das subjetividades, da má fé.

Porém a questão vai um pouco além de não se ter indícios. O sistema de vigilância sanitária no Brasil é relativamente bem desenvolvido.

Casos de quadros sintomatológicos tão importantes como problemas neurológicos graves e, ainda mais, como o coma são relativamente fáceis de se rastrear a partir de registros hospitalares. É esse sistema que permitiu detectar o surto de microcefalia, por exemplo.

Ou seja, nesse caso, a ausência de registro é mais eloquente do que uma situação em que não há registro simplesmente porque nenhuma busca foi feita. É uma ausência de registro que atua com um indicador da ausência do evento. Como a falta de marcação no ponto do funcionário é um indicador de que o funcionário faltou - porque o default é que, na presença, haja a marcação.

(Talvez valha lembrar a piada do capitão do navio que, ao flagrar o imediato bêbado registrou no diário de bordo: "Hoje o imediato estava embriagado". No dia seguinte, o imediato sabendo do que se sucedera resolveu também registrar: "Hoje o capitão estava sóbrio". Peço perdão ao solitário leitor ou solitária leitora do blogue por explicar a piada. Mas a ausência de registro em outros dias do estado alcoolizado do imediato *é* um indício de que ele *não* estava alcoolizado nesses outros dias. Enquanto que a ausência de registro de sobriedade do capitão nos demais dias, *não* é um indício de que o capitão estivesse borracho; porque *não* é objetivo das bitácoras registrar estados de normalidade, mas de excepcionalidade.)

Ou seja, embora a velha máxima saganiana de que "ausência de evidência não é evidência da ausência" continue válida; aqui trata-se de efetivamente de "evidência da ausência". Não um indício absoluto, claro. Tais registros não são perfeitos e poderia haver casos em um nível baixo o suficiente para não se destacar nos números de agravos neurológicos que são normalmente esperados por outras causas.

No entanto, isso seria um indicativo de que, se ocorressem tais problemas associados à infecção por vírus zika, seriam suficientemente raros. E os pesquisadores e autoridades de saúde foram suficientemente conscienciosos para dizer que, sim, poderiam eventualmente ocorrer tais casos.

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Diz a nota da Fiocruz:
"É importante também esclarecer que, assim como outros vírus, a exemplo de varicela, enterovírus e herpes, o zika poderia causar, em pequeno percentual, complicações clínicas e neurológicas em adultos e crianças, sem distinção de idade."
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Mas o "não há evidências científicas" é mais do que declaração protocolar ou "clichê" como diz o articulista. Trata-se de um claro *desmentido* de que os casos mencionados nos boatos sejam reais.

Suponhamos, no entanto, que não houvesse um sistema de registro e vigilância de saúde no Brasil - como não há em vários países. Ou seja, que fosse o caso de "ausência de evidência" e não de "evidência de ausência". Oras, é o caso justamente de suspender o juízo de fato.

"Há apenas alguns meses, provavelmente muitos doutores achariam delírio dizer que o aedes aegypti tem alguma relação com microcefalia em recém-nascidos. Como sempre, muita gente teve de morrer para que o conhecimento científico reconhecesse tais evidências."

Bobajada. Até agora há um único óbito atribuível ao ZIKV. A microcefalia não é, em si, letal, ainda que uma má formação de gravidade. E, mais importante, a relação entre a microcefalia e infecção por ZIKV não foi fruto de um boato, mas de, primeiro, uma detecção pelo sistema de vigilância de saúde de um surto de casos de microcefalia e de uma epidemia de febre zika; e depois de inferências a partir de coincidências ecológicas de tempo e espaço entre as duas enfermidades - e, então, de uma busca sistemática pela presença de ZIKV nos pacientes com microcefalia (e seguirá com experimentos controlados para a determinação da natureza dessa relação), ao mesmo tempo em que se descartava a ocorrência de outras causas possíveis conhecidas: sífilis, citomegalovírus, rubéola, etc.

Não foi um caso de denegação peremptória de relação para uma posterior admissão a contragosto frente a indícios esfregados na cara e que não conseguem mais negar.

Já em julho deste ano, tão logo o aumento de casos de microcefalia começou a emergir, a suspeita da relação com o ZIKV foi levantada.

"Tão ou mais importante talvez seja discutir possíveis riscos e, sobretudo, os casos que possam sugerir esta ou aquela hipótese, na medida em que isso seja relevante para antecipar medidas preventivas."

Primeiro que falar em risco na ausência de indícios é puro exercício de especulação. Pode-se alegar o princípio da precaução; nesse caso, porém, está a se falar não de riscos, mas de incerteza e, mais do que isso, é preciso ter uma boa margem para que o dano causado não seja maior do que o potencialmente evitado: por exemplos, causar pânico, levar à automedicação, fomentar a exploração da boa fé... Sem uma boa garantia a esse respeito, estaremos no terreno irresponsável do sensacionalismo.

Quanto a discutir "casos que possam sugerir esta ou aquela hipótese", se existem tais casos, então existem indícios científicos. O que um jornalista pode (e deve) fazer é apresentá-los em contra-argumentação à negação das autoridades. Mas não é a negação de que a ausência de indícios não deve servir de desculpas para a especulação, é tão somente (e 'tão somente' é tão somente uma expressão - já que seria algo de boa monta) a negação da alegação de que não há indícios científicos.

E "antecipar medidas preventivas" é ocioso, porque a medida preventiva seria a mesma: combater o mosquito transmissor. (Sério, digamos que se descubra mesmo que o ZIKV possa levar os indivíduos ao coma - sempre lembrando que é algo que não é impossível de vir a ocorrer - que medida preventiva efetiva diferente haveria de ser tomada que não a de evitar a infecção pelo ZIKV?)

Upideite(31/dez/2015): Vamos fazer uma analogia. Digamos que corre boato pelo whatsapp de que um famoso artista cometeu um grave crime contra a vida. A polícia diz que não há nenhum registro de passagem dele, nem queixa contra ele. Sabemos que a polícia já errou no passado. Seria o caso de ficar discutindo na imprensa as consequências para a vítima, para a carreira do artista e do futuro do staff que trabalha com ele, a possibilidade de se prendê-lo preventivamente? Afinal, se for mesmo criminoso, outras pessoas poderão ser atacadas. Veja bem, tudo isso só com base no fato de que rolou um boato - cuja origem desconhecemos - em uma rede social, nada mais: nenhuma vítima nomeada, nenhum detalhe sobre o crime imputado como data e local, nenhuma testemunha a confirmar.

sábado, 14 de novembro de 2015

Lie to me, I promise I'll believe*: uma breve lista de sites de notícias fakes

Sites de notícias fakes:
  1. Diário de Barrelas - O terceiro maior jornal de humor da cidade de Barrelas
    http://www.diariodebarrelas.com.br/
  2. Diário Pernambucano - Falsiê, sem Farsas
    http://www.diariopernambucano.com.br/
  3. Escândalo Hoje - Um jornal sem compromisso com a verdade***
    http://escandalohoje.com/
  4. G17
    http://www.g17.com.br/
  5. Joselito Müller - Jornalismo destemido
    http://www.joselitomuller.com/
  6. O Bairrista
    http://obairrista.com/
    (Um estudo sobre O Bairrista)
  7. Sensacionalista - Um jornal isento de verdade
    http://sensacionalista.uol.com.br/
  8. The piauí Herald
    http://revistapiaui.estadao.com.br/herald/
  9. Hariovaldo Almeida Prado - No combate ao comunismo ateu e na defesa da família cristã**
    http://www.hariovaldo.com.br/
  10. The Onion - America's finest news source
    http://www.theonion.com/
  11. World News Daily Report****
    http://worldnewsdailyreport.com/
Uma outra categoria de site de notícias falsas - não há uma intenção explícita de paródia, sátira e diversão. Nem mesmo explicitam que as notícias são falsas. Estes podem ser particularmente perniciosos.

  1. Folha Brasil
    http://afolhabrasil.com.br/

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Desculpe ser estraga-prazeres, mas não é que *eu* não saiba brincar: só acho que tem gente demais compartilhando material dessas fontes achando que são notícias reais.
(Atualizo à medida em que me lembrar - ou ficar sabendo - de mais deles.)
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Um site pra conferir a veracidade de certas informações:
E-farsas.com - Desvendando farsas da web desde 2002
http://www.e-farsas.com/
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Sim, fiquei tentado a incluir na lista fontes como a Veja, O Antagonista e similares. Mas achei melhor concentrar aqui nos jornais satíricos com franco objetivo de publicar notícias falsas para diversão: não fontes que procurem amealhar credibilidade de verdade para espalhar mentiras por razões outras. Também não inclui fontes de baixa credibilidade como Jornal Ciência, HypeScience, Daily Mail..., que fazem sensacionalismo e frequentemente publicam matérias mentirosas, por não terem objetivo explícito de fazer humor.
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*Obs. Verso de Strong Enough, Sheryl Crow.

**Upideite(06/dez/2015): Sugestão de André nos comentários.
***Upideite(27/jan/2016): Adido a esta data.
***Upideite(28/jan/2016): Adido a esta data.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Folha teve acesso exclusivo a um relatório aberto?

Dia 9.dez.2013 a Folha publica reportagem que diz:
"Essa é uma das conclusões do Banco Mundial em relatório obtido com exclusividade pela Folha que analisa 20 anos do SUS e traça seus desafios." (grifo meu)
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Bem, tem um documento do Bando Mundial analisando os 20 anos do SUS. Mas está online e disponível ao público desde o dia 21.jun.2013.
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Há um outro relatório? Talvez. Mas os pontos que a Folha aponta estão presentes nesse relatório de junho

Folha: "E o Banco Mundial reforça isso: mais da metade dos gastos com saúde no país se concentra no setor privado, e o gasto público (3,8% do PIB) está abaixo da média de países em desenvolvimento."

Relatório aberto do Banco Mundial: "Government health spending in Brazil is currently just under 4 percent of GDP, which is significantly lower than the level of spending in most Organisation for Economic Co-operation and Development (OECD) and some middle-income countries, although Brazil is by no means a clear outlier."

A Folha fala em média dos países em desenvolvimento, o que, obviamente não é o caso - média de países da OECD (em sua maioria desenvolvidos) e de alguns países de renda média. E deixa bem claro que o Brasil não está muito fora da média - o que a Folha não menciona.

Folha: "Mais da metade dos hospitais brasileiros (65%) são pequenas unidades, com menos de 50 leitos --a literatura internacional aponta que, para ser eficiente, é preciso ter acima de cem leitos."

BM: "The main factors contributing to inefficiency were small scale of operations, high use of human resources, and low use of installed capacity and technical resources. Indeed, most Brazilian hospitals are too small to operate efficiently, with 65 percent having fewer than 50 beds. Moreover, the mean bed occupancy rate is very low: 37 percent for acute care hospitals and 45 percent for all hospitals."

Folha: "Nessas instituições, leitos e salas cirúrgicas estão subutilizados. A taxa média de ocupação é de 45%; a média internacional é de 70% a 75%."

BM: "The mean bed occupancy rate in Brazil is very low and an important source of inefficiency and waste. La Forgia and Couttolenc (2008) found that the bed occupancy rate among SUS hospitals was 37 percent for acute care hospitals and 45 percent for all hospitals (compared with the level recommended by the 
Ministry of Health of 75–85 percent and international averages of around 
70–75 percent)."

Folha: "As salas de cirurgias estão desocupadas em 85% do tempo. Ao mesmo tempo, os poucos grandes hospitais de referência estão superlotados."

BM: "Hospital technical resources are also underutilized. For instance, the mean number of surgeries performed per operating theater in Brazil was 0.66 per working day (La Forgia and Couttolenc 2008); this means that operating rooms in the typical Brazilian hospital are not used 85 percent of the time."

Folha: "Dois estudos citados pelo Banco Mundial estimam que em 30% das internações os pacientes poderiam ter sido atendidos em ambulatórios."

BM: "Also, part of hospitals’ inefficiency is a result of ineffective primary care and poor referral mechanisms. For instance, two studies estimated the proportion of hospital admissions for conditions sensitive to outpatient care within the SUS at close to 30 percent; in comparison, studies in Spain and the United States found much lower proportions (8–18 and 13–16 percent, respectively).15 The use of hospital infrastructure for unneeded admissions is clearly related to the absence of functioning, effective health care networks."

Então, ou:
a) a Folha escolheu um relatório exclusivo que não traz nenhuma novidade - e não havia nenhuma razão pra alardear a exclusividade ou;
b) a Folha escolheu dados do relatório exclusivo que estão presentes em outro relatório aberto, o que significa um serviço jornalístico ruim ou;
c) a Folha teve acesso com exclusividade antes da divulgação do relatório em junho - mas só agora, vários meses depois da publicação do documento resolveu fazer uma matéria a respeito, o que torna o aviso sobre o acesso exclusivo sem sentido ou
d) a Folha comeu bola e anunciou como exclusivo um relatório aberto.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Estadão Dados: 6,1 é uma boa ideia?*

O Estadão tem uma iniciativa muito interessante de jornalismo baseado em dados: o Estadão Dados. Através de gráficos interativos, vários temas são abordados na forma de dados apresentados em uma forma mais intuitiva (embora nem sempre).

Um desses temas, claro, é política e um dos subtemas, claro, é a corrida eleitoral para a Presidência em 2014.

Não sei se o gráfico em radar é uma forma mais eficiente de mostrar os dados, de todo modo, foi o escolhido para exibir as possibilidades de votos - entre os que votariam com certeza e os que não votariam de jeito nenhum em um dado candidato.

Houve um erro na exibição dos dados para o candidato José Serra na região Sudeste na pesquisa referente a setembro de 2013 (Fig. 1).

Figura 1. Distribuição de categorias de intenção de votos na região Sudeste em setembro de 2013 segundo Estadão Dados. Fonte: @guileu.

Votariam com certeza: 51%; poderiam votar: 27%; não votariam de jeito nenhum: 50%; não sabe ou não conhece suficientemente o candidato: 18%. Sim, isso somaria 146%.

Analisando os resultados de José Serra para o Brasil e para as outras regiões, os dados somam 100% (ou 101% por causa de arredondamentos). Se usarmos uma ponderação por fração de entrevistados em cada região de acordo com outra pesquisa Ibope realizada em março de 2013 (quando os valores de intenção de voto a Serra na região Sudeste eram de: 11%, 25%, 51% e 13%), teremos: 6,1%, 26,9%, 50,1% e 18,2% como os valores reais da região Sudeste (Fig. 2).

Figura 2. Estimativa dos valores reais de distribuição de votos por categorias de intenção a Serra (células amarelas).

Não sei dizer exatamente como 6,1% se transformaram em 51%. Seguramente é um erro honesto - embora não possa ser creditado a apenas um erro de arredondamento, esquecimento de vírgula ou só de digitação: seria uma combinação de erro de digitação e esquecimento de vírgula. A turma antiserrista pode suspeitar do serrismo declarado do jornalão, mas não haveria ganho algum - quer para o possível candidato, quer para o veículo.

Via @guileu.

*Upideite(27/set/2013): O leitor atento notará que eu também cometi um erro - e eu juro que é honesto. No título original era 7 e não 6,1 (como se vê na URL desta postagem). Eu havia acessado a página do Estadão Dados e pensei que houvessem corrigido já, mas meu computador estava lento e estava ainda exibindo os valores para o Brasil e não para o Sudeste depois que mudei a opção do gráfico. O texto original considerava essa falsa correção na análise.

Upideite(27/set/2013): O jornalista José Roberto Toledo, do Estadão, diz pelo twitter que irão corrigir.

Upideite(28/set/2013): Agora consta como 5% os que, na região Sudeste na pesquisa de setembro, declaram que votariam com certeza em José Serra.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Pizza no Brasil é cara por causa da carga tributária? - Porque a Globo seria reprovada no doutorado.

Repercutindo uma reportagem do New York Times sobre o preço da pizza no Brasil, o Jornal da Globo escalou quatro repórteres para conferir: foram a uma pizzaria em São Paulo, uma em Nova Iorque, uma em Londres e outra em Tóquio. Os repórteres pediram pizzas de queijo, converteram os valores em dólares, depois em real.

A pizza mais cara foi a nova iorquina. Mas, em relação ao ganho médio dos consumidores, a paulistana certamente é a menos acessível.

Compararam com a carga tributária em relação ao PIB e concluíram que a pizza no Brasil é mais cara por causa dos impostos.

Louve-se a iniciativa do que podemos chamar de pizzometria comparativa. Legal dispuserem-se a tirar a prova dos noves e ir a campo colher dados de vários locais. Louve-se ainda o esforço para que as pizzas fossem as mais parecidas possíveis.

Mas não tem qualquer valor do ponto de vista científico e a conclusão é puramente ideológica. Não apenas a amostragem é falha (apenas um ponto e em uma cidade de cada país) e carga tributária não é um indicador adequado sobre os tributos incidentes na confecção e comercialização de pizzas como os dados *não* dão nenhum suporte à conclusão.

Abaixo coloco um gráfico de correlação entre os preços levantados das pizzas e as cargas tributárias.

Figura 1. Relação entre preço de pizza e carga tributária. Azul: Londres, vermelho: Tóquio, verde: São Paulo, branco: Nova Iorque. Fonte: Jornal da Globo.

Se há alguma correlação é que o preço da pizza é *maior* quanto *menor* a carga tributária. Em Nova Iorque, o preço da pizza foi o maior, mas a carga tributária americana é a menor entre os quatro países; a carga tributária brasileira não é muito diferente da do Reino Unido, mas a pizza londrina é muito mais barata. (Na verdade não há essa correlação porque os dados não têm relevância estatística.)

Não estou com isso concluindo nem que a carga tributária no Brasil é baixa, nem que os impostos não devam ser reduzidos ou racionalizados por reformas tributárias. Apenas demonstrando que o esforço de reportagem produziu um resultado, na melhor das hipóteses, nulo quanto à conclusão que quiseram apresentar (e, de fato, apresentaram).

Um estupro a cada 12 segundos no Brasil?

Uma nota um tanto confusa na apresentação dos dados, falta de apuração da imprensa e falta de um pouco de aritmética básica resultam em manchete do tipo:

"A cada 12 segundos uma mulher é estuprada no Brasil"
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A nota é esta:
"01/08 – Nota da ministra Eleonora Menicucci sobre a sanção do PLC 03/2013"
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O trecho é este:
"O Brasil apresenta um dos piores índices de violência contra mulheres e meninas. É alarmante o número de crianças e adolescentes abusadas e exploradas sexualmente. Estima-se que, a cada 12 segundos, uma mulher sofre violência no Brasil. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que em cinco anos os registros de estupro no Brasil aumentaram em 168%: as ocorrências subiram de 15.351 em 2005 para 41.294 em 2010. Segundo o Ministério da Saúde, de 2009 a 2012, os estupros notificados cresceram 157%; e somente entre janeiro e junho de 2012, ao menos 5.312 pessoas sofreram algum tipo de violência sexual." (Grifo meu.)

Vamos às contas. Uma hora tem 60*60 = 3.600 segundos. Ou 300 unidades de doze segundos. Em um ano isso dá: 365*24*300 = 2.628.000.

Mais de dois e meio milhões de mulheres são *estupradas* por ano no Brasil?

A nota fala em violência*. Estupro é uma das formas de violência. Não a única. Os casos notificados de estupro, segundo a nota, eram cerca de 40 mil em 2010 - se aplicarmos a taxa de crescimento apresentado seriam uns 80 mil casos registrados atualmente.

Nota: Obviamente não se diz aqui que o estupro seja um problema pequeno - ao contrário, é gravíssimo. Mesmo 40 mil já seriam uma taxa além de qualquer nível civilizatório - piora quando pensamos que há grande subnotificação.

Upideite(08/ago/2013): Pelo twitter, a SPM esclarece que se trata mesmo de uma referência a todas as formas de violência contra a mulher: a sexual, a psicológica, a física, patrimonial, moral e combinações. (Alternativamente, poderia ser a cada 12 minutos em vez de segundos se nos referirmos aos casos de estupro registrados em 2010.)

Upideite(10/nov/2013): Os casos de estupro em 2012 no Brasil foram 50.612.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Royalties do petróleo: Faça as contas, Merval!

Disse o jornalista Merval Pereira para o Jornal das 10 da GloboNews:
"A nova divisão não servirá para resolver o problema de nenhum ente federativo, pois a repartição geral gerará muito pouco para cada um dos envolvidos, mas os estados produtores sofrerão grandes perdas." (grifo meu)

Em 2011, segundo o Anuário Estatístico 2012 da ANP, foram rateados 12,99 bilhões de reais de royalties de petróleo e gás entre União, Estados e Municípios - produtores e não-produtores. (Desconsideremos os royalties dos novos blocos - uma estimativa de produção inicial do pré-sal é de 1 milhão de barris diários - o que projetaria um extra de 6 bilhões de reais em royalties.)

Com a nova lei - e derrubada do veto presidencial (e a depender da decisão do STF após pedido de análise por parte dos estados e municípios produtores) - a divisão do bolo gerado pela exploração dos blocos novos e com contratos já em vigor será de 27% a ser distribuído entre municípios não-produtores.

27% de 12,99 bi são: 3,5 bilhões. São 5.561 municípios no Brasil. Não sei exatamente quantos são os municípios produtores no Brasil. Mas devem ser poucos, então o total do rateio será de cerca de 630 mil reais por ano por município.

De onde o Merval Pereira tirou que isso é muito pouco? Pode ser pouco para municípios de grande orçamento.Mas para 2.423 municípios seria um incremento de 5% nas finanças de 2009 (segundo os dados disponíveis no IBGE), dos quais, 366 teriam um aumento de mais de 10% no orçamento  E os números podem ser maiores com os royalties dos novos campos.

Para a cidade do Rio de Janeiro, os 100 milhões de reais em royalties que recebe atualmente representam 0,86% do orçamento de 2009. Os 3,1 bilhões que o Estado do Rio de Janeiro recebe em royalties são 12,5% do orçamento de 2009.

Merval Pereira deve estar ganhando muito bem como imortal da ABL pra achar que 600 mil reais por ano não sejam nada.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Desagradar a gregos e troianos = imparcialidade. Será?

O jornalista Juca Kfouri reclama (com razão) da crítica ranzinza dos anônimos e nem tão anônimos comentaristas - de internet e leitores de jornais. Mas sugere que o fato de ser criticado por todos os lados é sinal de que cumpre bem seu papel de imparcialidade e equilíbrio.

Não se contesta aqui o excelente trabalho de Kfouri. Apenas esse mito recorrente (ele não é o único a argumentar nessa linha) de que a grita geral sinaliza que se está apertando nos calos de todos equanimemente.

Ocorre que ele mesmo nota que muito disso - se não no todo - deve-se a um clima chamado de Fla-Flu. Visões extremistas opostas que não aceitam qualquer tipo de crítica sem enxergar nisso algum tipo de conspiração dos adversários. Então qualquer texto que não esteja nesses extremos opostos são alvo de saraivadas raivosas dos dois lados (ou de mais, quando os há), não importa se penda mais para um lado ou para outro.

No máximo, tal padrão de crítica generalizada indica que o criticado não faz parte de nenhuma panela mais extremada. E não muito mais do que isso. Pela própria baixa capacidade de matização dos críticos não é possível usar isso como sinal de adequamento equidistante entre as partes.

Oras, Kfouri é assumidamente esquerdista. Apenas não é bolchevique ou versão despirocada da esquerda revolucionária armada como as defendidas por grupos como o PCO ou PSTU. Receber crítica destes não indica que esteja afastado da esquerda.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Jornalistas sabem estatística? Uma outra leitura sobre estatística de leitura.

Manchete da Folha: "Maioria dos brasileiros não lê para as crianças, revela Datafolha" a respeito dos resultados da pesquisa realizada pelo Datafolha a pedido da Fundação Itaú Social sobre Leitura Infantil.

De fato, entre os 2.074 entrevistados, 63% disseram "não" para a primeira parte da pergunta: "Atualmente você costuma ler livros ou histórias para alguma criança? O que você é da criança?". Aí a reportagem da Folha contrasta o resultado com o fato de 96% dos entrevistados declararem ser importante o incentivo da leitura em crianças.

O brasileiro é mesmo um fanfarrão, não? Faça o que eu digo, não o que eu faço. Hã, mas alto lá. Segundo o Censo 2010, as crianças com menos de 9 anos correspondiam a 13,5% da população. Então, menos de 30% da população são pais de crianças com menos de 9 anos no Brasil.

37% que dizem que costumam ler livros para crianças é significativamente *acima* da proporção de pessoas *diretamente* ligadas a crianças pequenas (teste qui-quadrado p < 1,9.10^-24).

Eu destacaria em manchete: "Brasileiros leem para crianças mais do que o esperado".

Tios e tias (8%) leem tanto quanto os pais (7%) (ainda que menos do que as mães 13%). Avós (5%) também dão sua contribuição.

Upideite(03/out/2012): Dose de cautela na interpretação de resultado de pesquisa de *opinião* é sempre necessária. Pode haver variação no que as pessoas entendem por "atualmente" (foi hoje, ontem, mês passado, ano passado), "costuma" (uma vez na vida, todos os dias, pelo menos uma vez por semana) e criança (12 anos, em idade pré-escolar, pré-alfabetização). E, claro, pessoas que mentem descaradamente.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Paralimpíadas e paraolimpíadas

Qual o certo? Paraolimpíadas ou paralimpíadas?

Na verdade tanto faz, bem mais ou menos. A forma paraolimpíada é a dicionarizada - e a que se encontra na versão mais recente do VOLP. Ela é calcada sobre o inglês 'paralympics', donde 'paraolímpico' e daí 'paraolimpíada'.

'Paralympics' não é calcado diretamente sobre o elemento grego de composição 'para-', mas sim a partir da composição da palavra 'paraplegic' e 'Olympics'. Obviamente não se trata de uma competição apenas para paraplégicos, mas para desportistas com uma ampla gama de defeitos físicos e mentais.

O Comitê Paralímpico Internacional, a fim de uniformizar a nomenclatura, tem trabalhado para que os comitês nacionais e órgãos correlatos adotem a denominação paralímpico em lugar de paraolímpico e sugerido que os órgãos de imprensa também sigam a nomenclatura padrão. O Comitê Paralímpico Brasileiro realizou a mudança em fim do ano passado. Mas o assunto tornou à baila por causa da realização dos Jogos Paralímpicos de Londres 2012 (e deve voltar a causar burburinho em 2016 nos Jogos Paralímpicos do Rio).

Como todo mundo chama o Coxa de Coritiba (e escreve por extenso Coritiba Foot Ball Club) e não de Curitiba (Clube de Futebol Curitiba) e escreve o nome do estado cuja capital é Salvador de Bahia e não de Baía (bem, os portugueses escrevem Baía), creio que seja possível entender que Comitê Paralímpico Internacional (ou Brasileiro) e mesmo Jogos Paralímpicos ou Paralimpíadas são nomes, marcas. Sob esse ângulo, faz sentido respeitar a denominação dada pelos próprios organizadores e membros.

Por outro lado, se a *marca* de barbeador (e produtos de higiene pessoal) é Gillette e assim se escreve para se referir aos produtos da empresa, escreve-se 'gilete' para se referir a uma lâmina genérica de barbear. Sob esse ângulo, faz sentido ter-se liberdade para usar o termo paraolímpico e paraolimpíada para se referir a elementos relacionados - 'um atleta paraolímpico' ou 'um atleta paralímpico', 'o ciclo paralímpico' ou 'o ciclo paraolímpico'.

No caso de 'paraolímpico' ou 'paraolimpíada', estaria a se usar uma composição paralela à original do inglês. Seria por ela inspirada, mas com uma derivação dentro do próprio português (brasileiro) - a partir do elemento 'para-' (como quer, por exemplo, o Prof. Pasquale). Já 'paralímpico' ou  'paralimpíada', pode ser interpretada tanto como adaptação do inglês 'paralympics' ou da denominação do 'Comitê Paralímpico Internacional/Brasileiro'.

Enfim, cada um tem a liberdade de usar o termo que achar mais adequado (exceto, claro as pessoas relacionadas ao CPB, que devem seguir o regulamento da entidade; e também exceto o caso do uso para se referir aos nomes da entidade e do evento que realizam o CPB e o CPI). Bobagem implicar com alguém dizendo: "o certo é assim", "você tem que escrever desse jeito". É muito similar à questiúncula de 'a presidente/presidenta'.

A maioria dos veículos de comunicação brasileiros parece ter adotado a recomendação do CPB. Na internet, isso, claro, afeta a indexação; e também, com o tempo, deve levar a mais pessoas a adotarem (por costume) a forma 'paralimpíada, paralímpico'.

domingo, 29 de agosto de 2010

Picuinha da Folha: A presidente ou a presidenta?

Tanto faz. O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa editadao pela Academia Brasileira de Letras registra as duas formas: "presidente adj 2. 2g. s.m."e "presidenta s.f.". As duas formas estão dicionarizadas nos principais dicionários como o Aurélio e o Houaiss.

A Folha Online registra o uso da forma "presidenta" em diversas reportagens:
"a eleição da deputada Susana González como presidenta da corporação"
"a presidenta da Agrupação de Familiares de Presos Desaparecidos, Viviana Díaz"
"presidenta panamenha Mireya Moscoso"
"a presidenta Barbara Steffens"
"A presidenta Angela Merckel"
"Patricia Durrant, presidenta do conselho no mês de julho"
"Madikizela-Mandela, presidenta da Liga da Mulher do Congresso Nacional Africano"
"A presidenta do partido conservador oposicionista CDU (União Democrata-Cristã), Angela Merkel"
"Maria Salvador da Costa, presidenta da Federação Mineira de Judô"

Entre 2000 e 2010 são 195 matérias com a forma presidenta registrada - alguns usos são erros de digitação, na verdade se referem a homens. Infelizmente não é possível fazer a busca pela expressão: "a presidente" - o sistema de busca retorna resultados ignorando-se o artigo.

Então não me parece algo além de picuinha a reportagem:
"Petista é vendida como 'presidenta' em comícios e 'presidente' na TV" (28/ago/2010 - aqui, somente para assinantes) .

A repórter registra: "A alteração do gênero da palavra, que na ortografia não tem versão feminina, foi uma forma de reforçar o fato de Dilma ser mulher." - o que vimos acima tratar-se de uma mentira, a forma "presidenta" está registrada - aliás, isso é desmentido na própria reportagem mais ao fim: "Segundo especialistas ouvidos pela Folha, é correto usar tanto 'presidenta' quanto 'presidente'" - não teria, portanto, nenhuma justificativa jornalística a rigor. Tenta-se por este caminho: "mas a opção pela forma feminina é desnecessária e incomum". A rigor a forma: "a presidente" é uma forma feminina - e não seria nem um pouco desnecessária, não se poderia falar "o presidente" para se referir a uma mulher; mas, claro, está a se dizer "a presidenta". Como essa forma é correta, não tem problema em ser incomum. Quanto a ser desnecessária, a forma "a presidente" também é, já que pode ser substituída não apenas por "a presidenta" como por outros sinônimos: "mandatária", "chefe de estado", "chefe do executivo"... ou mesmo omitida em alguns contextos.

A mesma Folha havia já tratado do mesmo tema em abril.

Aliás, ouça o que o próprio Pasquale diz sobre o assunto na Rádio Globo.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Cuidado com o que você lê (vê e ouve)

Teve toda a celeuma da declaração atribuída ao (pré)candidato à presidência pelo PSDB, José Serra, durante um encontro religioso em Camboriú-SC. Notícia inicialmente publicada em um jornal catarinense reproduzia uma frase em que Serra comparava o tabagismo ao ateísmo. Correu a internet e vários blogues comentaram - interpretando como uma ofensa aos fumantes e/ou aos ateus (p.e. aqui).

Depois veio o desmentido e a correção (vide aqui).

É estranho sim que a frase originalmente atribuída seja tão diferente da frase da correção. Simplesmente não tem nada a ver. Como um erro desses pôde acontecer? (Há os que interpretam como um erro intencionado contra José Serra, há os que interpretam como servilismo da imprensa em inventar uma correção após a má repecurssão da frase.)

Vários veículos reproduziram a declaração inicial - especialmente os dos grupos RBS e Globo, que são parceiros (o jornal que inicialmente publicou a declaração é do grupo RBS): G1, O Globo, ClicRBS... O primeiro a publicar o desmentido foi o blogue do jornalista Ricardo Noblat, antes mesmo do tweet do próprio ex-governador.

Entrei em contato com o jornalista (ainda no dia 03/mai) que assinava a notícia original, ele foi solícito em confirmar o erro. Mas não consegui até o momento uma declaração dele explicando o que pode ter acontecido.*

A história é bem estranha e merece investigação - coisa que está além de minhas capacidades. Até prova em contrário, acredita-se em erro honesto, porém - embora isso seja uma forçação de barra: a desconfiança é que não foi - se não foi erro ou se não foi honesto é o que não se sabe. Seria irresponsabilidade dizer que foi uma coisa ou outra sem fazer a devida pesquisa necessária.

Aliado a isso temos casos mais engraçados - mas também preocupantes a respeito da credibilidade das fontes. O jornalista de rádio que leu um perfil da Desciclopédia sobre Lombardi (achando que era da Wikipédia - e mesmo que fosse da Wikipédia, jornalisticamente não é uma fonte confiável). E dois jornais que reproduziram textos do site humorístico Sensacionalista. O Diário de Canoas com uma falsa notícia sobre uma mulher que alega ter engravidado assistindo a um filme pornô 3D (aqui o texto original)**. E a versão online da Gazeta de Alagoas sobre a adoção de um surfista de 22 anos por um casal homossexual (aqui o original - o texto na GazetaWeb já foi removido).

*Upideite(06/mai/2010): Nos comentários, a leitora Ártemis, indica página do Bule Voador, eles conseguiram uma resposta do jornalista.
**Upideite(11/mai/2010): Aqui o sítio web Sensacionalista publica uma relação de sítios web pelo mundo que publicaram a história da gravidez por filme 3D como verdadeira.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Lula à dorê

Ali Kamel lançou um livro em que colige as frases do cefalópodo-mor publicadas na imprensa sobre os mais variados temas. Marcelo Tas também escreveu um livro com as frases molusco-palacianas.

Também embarcarei na onda. Não escreverei um livro, mas dedicarei esta postagens a coligir frases - não de Lula sobre assuntos vários, mas de vários jornalistas/opinionistas a respeito de um único tópico: o presidente.

"O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é um gênio da política e disso não dá para duvidar. Reconhecer essa verdade, contudo, não esclarecerá se ele foi sincero (e, portanto, de um desconhecimento sesquipedal dos fatos) ou se apenas destilou um gosto peculiar pela ironia quando, na Cúpula América do Sul-África, execrou 'retrocessos' institucionais em nosso continente - caso da deposição de Manoel Zelaya." José Nêumanne. Banzé brasuca em Tegucigalpa. Estadão 30/09/2009.

"Lula, já escrevi isso aqui, é o melhor presidente que o Brasil já teve. Fez a melhor ponte, mesmo precária, entre pobres e ricos e fechou o consenso em torno da estabilidade econômica e do respeito às regras básicas do jogo capitalista./
É esse consenso, iniciado em 1994 com o Plano Real, que permite ao país dar um salto econômico transformador./Mas seu mandato ficará manchado pela cumplicidade com o que há de pior no Brasil, na política brasileira, a corrupção e a impunidade. E esse outro horripilante consenso fechado por Lula e seu PT, de que a corrupção desembestada deve ser tolerada em nome da tal governabilidade, é a maior trava para o desenvolvimento do país hoje." Sérgio Malbergier. Lula, a falha do Brasil. Folha Online 22/10/2009.

"O Brasil hoje é outro, muito mais sólido internamente e com muito maior peso externamente. Mas Lula precisa reconhecer que não é obra só dele, sim resultado de um processo em que FHC teve uma participação decisiva. Assim como FHC precisa reconhecer que, com Lula, o país continuou avançando e os passos sociais foram mais largos." Eliane Cantanhêde. O Lula desarmado. Folha Online 18/09/2009.

"O Brasil tem governo demais e oposição de menos. O presidente Lula fala e faz o que bem entende sem um contraponto. A oposição tem medo da popularidade do presidente e acha melhor não apontar suas falhas sequenciais. O PSDB se omite em questões importantes, o DEM é temático, o PSB é oficialmente da base, o PV começa a desenhar uma alternativa, o PMDB é governo e sempre será." Miriam Leitão. Papel da oposição. O Globo Online 27/10/2009.

"Este é o estilo do presidente Lula. Ele às vezes fala um palavrão, emprega palavras chulas, metáforas futebolísticas. Ele é assim mesmo./É preciso ir além da forma e analisar o conteúdo das palavras do presidente. Analisar sua afirmação de que, sem uma grande coalizão não se governa o país./E Lula está coberto de razão./O sistema político brasileiro está construído de uma maneira tal que, se não houver uma grande coalizão, o governo fica paralisado. Não governa./O ex-presidente Fernando Henrique foi eleito numa aliança entre PSDB e o PFL. Mas teve que incorporar o PMDB e o PTB para compor maioria para governar." Lucia Hippolito. A entrevista de Lula: forma e conteúdo. O Globo Online 24/10/2009.

"Em entrevista à Folha, Lula já admitiu que seu 'alto nível' admite uma coligação com Judas se for necessário. E não custa lembrar que ele não está descontente só com o TCU. Na tal entrevista, ele afirmou que o papel da imprensa é só informar; não tem nada de investigar./A democracia deu o poder a Lula. Se pudesse, ele, agora, daria um pé no seu traseiro. Lula insiste que o que há de bom no Brasil funciona apesar das leis. É mentira! É o oposto! O país se dana justamente quando não as cumpre." Reinaldo Azevedo. Lula faz uma proposta escancaradamente chavista. Veja Online 23/10/2009.