sábado, 5 de outubro de 2013

De Mona Lisa, universidades, rankings e eleições para reitor

Não leve rankings a ferro e a fogo.

Podem ser úteis em alguma medida, mas não necessariamente o primeiro é melhor do que o segundo em termos para além do próprio ranking.

E raramente os rankings são projetados para que a distância entre o primeiro e o décimo seja a mesma da entre o décimo e o décimo nono.

Muito cuidado ao fazer benchmarks com base em rankings. Você pode listar propriedades comuns aos primeiros colocados (obviamente que não digam respeito diretamente às características usadas para fazer o ranqueamento) que estejam ausentes nos últimos colocados, mas não quer dizer que necessariamente ou com maior probabilidade que o acaso que haja uma relação causal entre tais propriedades e a posição no ranking.

Por exemplo, em uma análise da Folha sobre eleição para reitores em IES públicas no Brasil (em particular na USP):
"A pergunta é: nas grandes universidades do mundo as eleições para reitor são baseadas em voto direto e interno na comunidade? Não."

Por que *a* pergunta seria essa? Aparentemente há a premissa oculta de que "quaisquer qualidades aleatórias presentes em comum nas maiores universidades do mundo estão ligadas à qualidade de ser uma grande universidade". É uma premissa que não se basta por si. Podemos listar uma série de outras características em comum que dificilmente consideraríamos como determinantes válidos de qualidade: as grandes universidades estão nos EUA/Europa - se levarmos essa observação a ferro e a fogo, a conclusão lógica é que não adiantaria criar universidades em outros lugares e esperar que elas sejam grandes.

As grandes universidades do mundo *não* têm um orçamento garantido com base em 10%* dos impostos sobre circulação de mercadorias e serviços. As grandes universidades do mundo *não* têm um processo seletivo formado exclusivamente por uma prova comum de conhecimentos aplicada uma única vez no ano. Haverá ligação causal? Talvez haja, mas não de modo óbvio.

É possível que muito que faz as grandes universidades do mundo grandes seja o fato tautológico de que são as grandes universidades do mundo - o fato de serem grandes, por exemplo, facilitaria a atraírem as melhores pessoas para estudar e trabalhar nelas. Aí seria preciso se voltar para o que *fez* as grandes universidades serem grandes universidades. E é possível que muito disso sejam processos que não tenham diretamente a ver com o modo como as universidades se organizam. Muita coisa pode se dever a fatores casuais ou mesmo aleatórios. Outras a fatores históricos não exatamente reprodutíveis - pode não ser coincidência de que as grandes universidades estejam localizadas nos países que mais fortemente se industrializaram entre os séculos 19 e começo do 20.

É possível que o modo como selecionam os reitores e deões tenha alguma coisa a ver. Mas não de modo óbvio. Assim como não há nada óbvio no fato de a Mona Lisa ser a pintura mais famosa do mundo - a despeito dos milhares de estudos sobre as técnicas de pintura e de composição (a respeito disso vide Watts 2011 "Tudo é óbvio").

Vale ler:
Mlodinow 2009. "O andar do bêbado". Ed. Zahar, 264pp.
Watts 2011. "Tudo é óbvio". Ed. Paz e Terra, 328pp.

*Upideite(08/out/2013): Corrigido a esta data por observação de Ewout ter Haar nos comentários.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Feministas, o machismo faz bem a vocês*

*Antes de atirarem as pedras em mim, leiam a observação lá embaixo desta postagem.**

Não pretendo dizer ao movimento feminista o que ele deve dizer ou como ele deve dizer. Só expresso minha opinião [sim, não tem importância alguma, menos ainda para o movimento feminista - o que é ótimo por duas razões: 1) o que eu disser não irá afetar o movimento; 2) não firo sua autonomia] de que a opção discursiva de parte desse movimento dificilmente servirá para atrair aliados estratégicos nas "hostes" masculinas.

O post "Óbvio que todos os homens não odeiam mulheres. Mas todos os homens devem saber que são beneficiados pelo sexismo" [1], ao dizer que o sexismo beneficia todos os homens, basicamente diz: "Homens, o feminismo é PREJUDICIAL a vocês".

Se o sexismo beneficia os homens, pra quê iríamos querer mudar?

O tom do artigo é de chamada à consciência. Mas se os homens tivéssemos consciência, não haveria muita coisa a mudar pra começo de conversa. Oquei, a conscientização é necessária, mas: a) nem é suficiente (preciso dizer que de boa intenção o congresso nacional está cheio?), b) nem creio que isso se desenvolva com um argumento do tipo: "você é opressor, ponto". (Sério, "poxa eu sou mesmo um opressor, preciso mudar minhas atitudes", é algo que alguém esperaria ouvir?)

Åsa Heuser disse que argumentar que o sexismo é prejudicial ao homem seria como tentar por fim à escravidão dizendo ao escravocrata que a escravidão é prejudicial à eles. Primeiro: esse *foi* um dos argumentos utilizados para o fim da escravidão a fim de vencer essa resistência; segundo: a questão é convencer *quem tem poder*. No caso, a Inglaterra estava mais do que convencida de que a escravidão no Brasil era prejudicial a seus negócios.

Infelizmente, embora a Inglaterra esteja mais do que convencida de que o sexismo no Brasil é prejudicial a seus negócios, hoje ela não pode bloquear portos, saquear cidades e apontar canhões para o palácio imperial brasileiro. São os *homens* brasileiros que têm o poder - e, embora nem todos os homens odeiem mulheres, virtualmente 100% somos machistas (mesmo os que acham que não são - me mostre um homem feminista e eu te mostrarei um hipócrita).

O fim da escravidão até teve um elemento moral - uma leitura cristã condenando a escravidão -, mas não vinha com um argumento do tipo: "escravocratas, a escravidão beneficia totalmente a vocês". E nem foi o elemento principal para sua abolição nestas paragens. [2]

É um erro muito similar a de certa parte do movimento ateísta que diz: "religiosos, vocês deveriam nos tolerar porque a religião é estúpida e como ela os faz estúpidos, ela os faz nos odiarem, não sejam estúpidos".

E entro só de leve no argumento de que, afinal, o sexismo *é* prejudicial aos homens. Em primeiro lugar porque coloca nossas irmãs, esposas, filhas, mães, avós... em relação de desvantagem. Isso *diminui* efetivamente o orçamento familiar, isso *expõe* efetivamente nossas parentas e amigas a perigos inomináveis, isso *aumenta* os custos sociais (sim, isso implica em impostos mais caros - entre segurança, gastos com saúde, estrutura de política para a mulher, políticas compensatórias como cotas e ações afirmativas em geral...).

Mas o meu ponto mesmo (já que não se afeta no caso de o sexismo ser mesmo benéfico aos homens) é um argumento do tipo "olha como você é meu inimigo... quer ser meu amigo?" tende a ser pouco produtivo. O enquadramento da questão afeta sobremaneira como ela é percebida. A percepção afeta sobremaneira as atitudes. Atitudes influenciam as decisões. Decisões... bem, decisões são as que são necessárias para implementar mudanças.

A menos, é claro, que as mulheres tenham segurança para mudar o quadro por elas mesmas. Isso é possível? Seguramente: elas são a maioria censitária, poderiam eleger representantes estratégicos (uma presidenta já temos - ainda que não exatamente graças a elas***) - caveat: precisariam convencer a mais da metade das mulheres que votam em homens. Plano B: uprising - caveat: as mulheres *são* fisicamente mais fracas (em média) do que as forças policiais e nem têm acesso a arsenais significativos (claro, sempre podem tentar sequestrar figuras importantes - ei, ABIN, nota irônica, ok?).

Há várias estratégias eficientes para se combater mais efetivamente o sexismo. Quase todas passam justamente por mostrar como o sexismo é prejudicial aos homens. Uma empresa trata desigualmente as mulheres? Campanhas, protestos, locautes, boicotes, greves, ataques terroristas (NSA, again, just kidding)... que mostrem *como* o sexismo prejudica a empresa - seja diretamente nas vendas, seja com prejuízo da imagem, seja por vias legais (felizmente temos mecanismos legais de combate à discriminação sexual) - e, consequentemente, como prejudica o executivo idiota sexista (todo sexista é idiota, mas nem todo idiota é sexista) que terá o emprego em risco na próxima assembleia de acionistas.

Você pode desejar que os homens sejam maduros o suficiente para combater o sexismo porque é certo, mesmo que isso o prejudique. Desejar pode. Mas, a menos que Aladdin tenha emprestado sua lâmpada, não é o meio mais eficiente para se obter as mudanças necessárias.

**Se você é feminista e o título deste post a fez ter simpatias por mim, então eu dou meu braço a torcer e retiro o argumento de que dizer que o sexismo é benéfico aos homens é ineficaz. (Pra eventualidade de alguém não ter entendido: sim, o machismo é *prejudicial* às feministas, às mulheres, à humanidade. Só não é prejudicial ao Universo porque, se ele fosse capaz de ligar pra alguma coisa, certamente não estaria nem aí com a humanidade.)
***58% dos eleitores masculinos votaram em Dilma (42% em Serra), apenas 54% das eleitoras fizeram o mesmo (44% em Serra). [3]
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[1] http://blogueirasfeministas.com/2013/10/obvio-que-todos-os-homens-nao-odeiam-mulheres-mas-todos-os-homens-devem-saber-que-sao-beneficiados-pelo-sexismo/
[2] http://revistaacervo.an.gov.br/seer/index.php/info/article/view/105/85
[3] http://novo-jornal.jusbrasil.com.br/politica/6094496/ibope-aponta-dilma-com-56-dos-votos-validos-e-serra-44

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Sobre a detenção da repórter do Estadão nos EUA

A jornalista e o Estadão estão no direito deles de estrebucharem. Mas, pelas informações que constam na própria reportagem sobre as circunstâncias da detenção da repórter, a polícia de New Haven agiu estritamente dentro da lei e em sua obediência.

A repórter foi informada de que era um evento fechado e não haveria participação da imprensa. O que Estadão chama de "transgressão criminosa" aparentemente se refere à "criminal trespass" ou "crime de invasão".

No Estado de Connecticut (assim como em outros estados americanos), há vários graus de "crime de invasão". A jornalista parece ter violado o artigo da lei estadual que tipifica o "crime de invasão de grau 1" - uma pessoa sem permissão ou direito de entrar e/ou permanecer em um local entrar e/ou permanecer em um local a despeito de ter sido avisada para não entrar e/ou para se retirar do local por pessoa com direitos sobre o local invadido ou por seu preposto.

"Ela trocara e-mails com a assessora de imprensa da Escola de Direito da universidade, Janet Conroy, que lhe informara ser o evento fechado à imprensa. Claudia aquiesceu, mas disse que, por dever de ofício, esperaria pelo ministro do lado de fora do Woolsey Hall, o auditório onde se daria o seminário."

Primeiro que é estranho o uso do termo "aquiescer" sendo que é exatamente o que ela *não* fez. Ela, basicamente disse, "eu estarei lá a despeito de vocês não quererem que eu vá".

"O prédio é percorrido constantemente por estudantes e funcionários da universidade e por turistas. Suas portas estavam abertas às 14h30 de quinta-feira."

Isso *não* é um convite para alguém que foi *explicitamente* avisado de que não é para estar entrar. Yale é uma universidade privada, ela tem o direito de permitir ou barrar a entrada de quem ela quiser (se for por razões raciais - obviamente estará sujeita às sanções americanas contra o racismo).

"O processo de prisão teve uma sequência não usual nos EUA. Os argumentos de Claudia não foram considerados pelo policial. Na calçada, ele a algemou com as mãos nas costas e a prendeu dentro do carro policial sem a prévia leitura dos seus direitos. Ela foi mantida ali por uma hora, até que um funcionário do gabinete do reitor da Escola de Direito o autorizou a conduzi-la à delegacia da universidade, em outro carro, apropriado para o transporte de criminosos."

O que tem de não usual nessa sequência?
1) O policial pode perfeitamente ter considerado os argumentos da jornalista inadequados, já que configurou plenamente o crime de invasão de grau 1.
2) Todo mundo que é detido é algemado por lá. Pode ser empresário, estudante, jornalista...
3) "[S]em a prévia leitura dos seus direitos". O Estadão está assistindo muito a filmes de Hollywood e seriados policiais americanos. A leitura de Miranda não é obrigatória e raramente é feita em detenções. O direito de ficar calado é principalmente para depoimentos. A repórter não estava sendo detida para depor.

O que se pode criticar (e se defender) são:
a) a organização do evento não ter aberto para a imprensa. Pode ou não ter boas razões para isso. Mas é direito deles.
b) JB não ter concedido a entrevista. Seria bom se uma autoridade brasileira se comunicasse melhor com a imprensa. Mas não é uma obrigação.
c) O tempo de detenção da repórter. Porém não dá pra saber as circunstâncias disso: houve problemas em localizar o reitor? ele estava ocupado?

O resto é mimimi. A sequência, dado que *houve* infração, é exatamente o que é determinada pela lei. O infrator (no caso, a infratora) foi preso sem violência e sem abuso policial, conduzido para a delegacia, liberado nos termos da lei (é uma "dismeanormisdemeanor") e vai ter que responder ao juiz - que avaliará se o caso merece punição e, se sim, qual (nos termos da lei).

Os EUA são uma terra com ampla liberdade de imprensa (sim, há abusos contra isso também). Mas mesmo lá tem uma coisa chamada lei.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Estadão Dados: 6,1 é uma boa ideia?*

O Estadão tem uma iniciativa muito interessante de jornalismo baseado em dados: o Estadão Dados. Através de gráficos interativos, vários temas são abordados na forma de dados apresentados em uma forma mais intuitiva (embora nem sempre).

Um desses temas, claro, é política e um dos subtemas, claro, é a corrida eleitoral para a Presidência em 2014.

Não sei se o gráfico em radar é uma forma mais eficiente de mostrar os dados, de todo modo, foi o escolhido para exibir as possibilidades de votos - entre os que votariam com certeza e os que não votariam de jeito nenhum em um dado candidato.

Houve um erro na exibição dos dados para o candidato José Serra na região Sudeste na pesquisa referente a setembro de 2013 (Fig. 1).

Figura 1. Distribuição de categorias de intenção de votos na região Sudeste em setembro de 2013 segundo Estadão Dados. Fonte: @guileu.

Votariam com certeza: 51%; poderiam votar: 27%; não votariam de jeito nenhum: 50%; não sabe ou não conhece suficientemente o candidato: 18%. Sim, isso somaria 146%.

Analisando os resultados de José Serra para o Brasil e para as outras regiões, os dados somam 100% (ou 101% por causa de arredondamentos). Se usarmos uma ponderação por fração de entrevistados em cada região de acordo com outra pesquisa Ibope realizada em março de 2013 (quando os valores de intenção de voto a Serra na região Sudeste eram de: 11%, 25%, 51% e 13%), teremos: 6,1%, 26,9%, 50,1% e 18,2% como os valores reais da região Sudeste (Fig. 2).

Figura 2. Estimativa dos valores reais de distribuição de votos por categorias de intenção a Serra (células amarelas).

Não sei dizer exatamente como 6,1% se transformaram em 51%. Seguramente é um erro honesto - embora não possa ser creditado a apenas um erro de arredondamento, esquecimento de vírgula ou só de digitação: seria uma combinação de erro de digitação e esquecimento de vírgula. A turma antiserrista pode suspeitar do serrismo declarado do jornalão, mas não haveria ganho algum - quer para o possível candidato, quer para o veículo.

Via @guileu.

*Upideite(27/set/2013): O leitor atento notará que eu também cometi um erro - e eu juro que é honesto. No título original era 7 e não 6,1 (como se vê na URL desta postagem). Eu havia acessado a página do Estadão Dados e pensei que houvessem corrigido já, mas meu computador estava lento e estava ainda exibindo os valores para o Brasil e não para o Sudeste depois que mudei a opção do gráfico. O texto original considerava essa falsa correção na análise.

Upideite(27/set/2013): O jornalista José Roberto Toledo, do Estadão, diz pelo twitter que irão corrigir.

Upideite(28/set/2013): Agora consta como 5% os que, na região Sudeste na pesquisa de setembro, declaram que votariam com certeza em José Serra.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

A distorcida lógica em que multiplicar conexões equivale a isolamento

Manchete de reportagem da Associated Press reproduzida pela Folha Online:
"Plano de 'isolar' a internet no Brasil é um erro"

Não, não sou especialista em internet muito menos em segurança. Mas os tais especialistas da Folha/AP falaram um monte de bobagens.

Primeiro que não há plano de "isolar". Isso seria realmente ridículo. Pra que serviria uma internet isolada? Mas tanto não é isolada que uma das propostas é passar um cabo de fibra óptica submarina conectando o Brasil à Europa. Desde quando esse tipo de conexão é "isolar" alguma coisa? Desde quando o Brasil pretender "aumentar as conexões de internet independentes com outros países" é isolamento?

Não sei se a ideia é realmente criar uma "rede livre de espionagem americana". Isso dificilmente pode ser obtido - mesmo cortando-se todas as ligações de tráfego de dados com os EUA: o que não se cogita em momento algum.

O fato é apenas que a concentração do tráfego tendo os EUA como hub facilita demais a vida dos espiões americanos. Mais ainda se o governo e as estatais usam servidores localizados lá. Em servidores nacionais é possível haver espionagem? Claro, sem dúvida. Mas é mais fácil de se fiscalizar o que ocorre aqui. E, uma vez constatada irregularidade, é mais fácil de se tomar as devidas providências legais.

E aí mais contradição. No começo diz: "Enquanto o Brasil não está propondo barrar seus cidadãos de serviços de web americanos, deseja que seus dados sejam armazenados localmente" (grifo meu) - claro, os cidadãos são livres para usarem o serviço que desejarem; mais pra frente, do nada, tasca: "Assim como as pessoas na China e no Irã passam por cima dos censores governamentais com ferramentas como proxy, os brasileiros poderiam driblar os controles de seu governo" (grifo meu). Os brasileiros vão driblar qual controle do governo? O de terem seus dados armazenados em servidores no país?

Começam falando que os "Correios também planejam criar um serviço de e-mail criptografado que poderia servir de alternativa aos serviços de Google e Yahoo!" (grifo meu). Terminam vaticinando: "Isso também pode desencorajar inovação tecnológica, segundo ele, se toda a população for levada a usar um serviço de e-mail criptografado mantido pelo Estado" (grifo meu). Ou seja, o governo propõe criar uma *alternativa* de *lvire adesão* e criam um cenário apocalíptico de que os cidadãos serão *obrigados* a usar tais serviços e só eles.

E, claro, a cerejinha fica pra última frase: "'É como um socialismo soviético na computação', disse, adicionando que o americano modelo 'livre a todos funciona melhor.'" E desde quando criar mais uma alternativa é ir contra o modelo livre? Desde quando deixar tudo concentrado em um local que se mostrou inconfiável é ser livre?

domingo, 15 de setembro de 2013

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Da Pesquisa Chega de Fiu Fiu e uma sugestão

O pesquisa online realizada pelo site Olga tem tido bastante repercussão e foi objeto de reportagem do sítio web da revista Época.

De um lado é importante que a questão da "cantada de rua" - bandeira de várias feministas, como o próprio pessoal do Olga, do Cantada de Rua, Blogueira Feministas e outras - ganhe mais visibilidade para discussão. Só não estou muito certo a respeito do papel que tal visibilidade -e a consequente discussão - tem dado à percepção masculina a respeito das cantadas*. Há, de certo, um número grande de manifestações negativas e até grotescas, mas não sei quão representativo isso é do universo masculino.

Mas é preciso colocar em perspectiva ainda a representatividade da pesquisa "Chega de Fiu Fiu" promovida pelo Olga. O viés de autosseleção pode ter atuado de modo bastante intenso. Clara Averbuck enfatiza que foram 8 mil mulheres, das quais, 83% disseram se sentir, no mínimo, incomodada com as cantadas recebidas. Por outro lado, uma pesquisa nacional encomendada pela fundação Perseu Abramo em 2001 (a respeito da qual comentei aqui mesmo no NAQ), mostrava um número diferente: dos 73% de mulheres que disseram já terem sido cantadas, 43,8% se diziam incomodadas com as cantadas - o restante recebia como elogio, não ligava ou achava que dependia da cantada.

Será que a situação mudou nestes últimos 12 anos? É possível que, sim. Mas é possível que não. Ou pode ter mudado em outra direção. Como já disse antes, há mulheres que *declaradamente* gostam de ser cantadas. E, mais uma vez, não estou com isso dizendo que então tudo bem os homens abordarem indiscriminadamente as mulheres - o ponto que gostaria e muito de debater é *como* diferenciar as que gostam de ser cantadas das que não gostam (mas até o momento não venho sendo bem sucedido em obter um diálogo a respeito com a parte feminista contra as cantadas).

Minha sugestão é que seja feita uma pesquisa nacional representativa - digamos, 1.000 entrevistadas em todo o território nacional segundo os critérios de corte censitário. Um instituto de pesquisa haveria de ser contratado. O valor seria levantado via crowdfunding. Uma pesquisa completa deve sair na casa dos 200.000 a 500.000 reais, mas uma mais compacta (feita juntamente com várias outras pesquisas) pode sair mais em conta (embora menos detalhada): algo como 50 mil reais.

*Upideite(14/set/2013): Há pesquisas que indicam que o confrontamento de diferentes opiniões podem levar a um acirramento da oposição.