quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

A Calculadora de Sonhos

As plantas secavam. A terra, ressequida, crepitava e rachava. Os olhos miravam a desolação da estiagem prolongada. A má administração pelas autoridades da água das barragens fizera sumir o precioso líquido. O gado definhava. Os pequenos roceiros de Crateús voltavam-se esperançosos para Jônatas Ribeiro. Ele sabia. Ele diria quando viria a chuva.

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Iara Ribeiro nasceu em uma família de profundas raízes na tradição dos "profetas da chuva". O avô de seu bisavô por parte de pai, assim lhe disseram certa vez, foi o primeiro a dominar a arte - ou de possuir o dom - de prever quando se iniciariam as primeiras precipitações no interior do sertão nordestino: algum lugar dentro da área de litígio de limite entre Piauí e Ceará.

Uma mistura de sensibilidade de leitura de sinais da natureza - presságios e agouros: a direção e a altura do voo de certas aves, a presença de certos insetos, a conformação da teia das aranhas, o odor do vento noroeste... amalgamados em uma matriz de intuição - sensitividade mediúnica, nas palavras de um estudioso que se meteu de agregado entre os Ribeiros. O parapsicólogo foi devidamente enxotado quando trouxe a hipótese de o patriarca ser um judeu sefardita cristão-novo, mas não antes de escrever um tratado sobre rabdomancia e outras técnicas divinatórias acerca da água.

Não há registros além da tradição oral familiar a respeito da taxa de sucesso da linhagem dos Ribeiros na previsão extracientífica das condições meteorológicas. Ela, por certo, diz que era "tiro e queda". O que era, de certo modo, sustentado pelas constantes consultas aos adivinhos da família, especialmente próximo à época do dia de São José. A vida de penúria, no entanto, poderia indicar o contrário - ou o fato de não quererem explorar comercialmente a habilidade (nem mesmo para saber quando plantar ou quando emigrar da terra). Entre indas e vindas, o avô de Iara, seu Jônatas, acabou de se tornar mais um retirante, vindo a São Paulo tentar a sorte.

Meteu-se a ajudante de pedreiro, a alfaiate, a ajudante de ordens... Houve pouco progresso material notado. O pai de Iara também pouco acrescentou ao patrimônio familiar. Na verdade, até retirou um pouco - sustentando seu gosto por jogo do bicho, álcool e, principalmente, uma amante. A dilapidação não se deu pela contribuição expressiva de mãe de Iara em tripla jornada como faxineira, costureira e dona de casa.

Os irmãos mais velhos foram um a um tomando seu destino - nem todos felizes, nem todos infelizes. Um jogador de futebol não exatamente frustrado, um sargento do exército, uma professora primária, um morto pela polícia, um advogado desquitado afundado em dívidas. Iara estava destinada a ser doutora, vaticinava o pai. "Ela vai ser a médica da família." Mas o talento ao tirocínio que não envolvesse índices pluviométricos provavelmente não se associara à família.

Ela metera na cabeça desde cedo que resgataria a tradição perdida há geração e meia. Seria a primeira profetiza da chuva em uma linhagem só de seres barbados. Espremia do avô o quanto podia as histórias e folclores a respeito dos prodígios divinatórios do bisavô - e algo do trisavô. "Foi uma seca dura, duríssima. Nem as lágrimas conseguiam escorrer pelo rosto; evaporavam-se tão logo saíam do canto dos olhos. A terra dura, não dava nem pra arar. Mesmo que arasse, nada poderia crescer ali. O que havia crescido, já estava tudo seco. Perguntaram pra mim quando iria chover. Não tinha coragem de dizer que não viria naquele ano. Que mais crianças morreriam de fome, na falta de leite, na falta de feijão, da falta de farinha, na falta de água. Não podia ver tanta gente desesperada vindo bater à minha porta como se eu tivesse poder de fazer vir a chuva. Fugi." Mas era difícil de separar o que eram lembranças legítimas da juventude, o quanto eram reconstruções mitificadas galhofeiras. A rápida progressão da debilidade da saúde mental do avô após os 70 anos pouco ajudou.

Domaria as nuvens em seus segredos. Esse era seu destino. Colecionava reportagens sobre profetas da chuva - marcara em seu diário a frustração por não ter encontrado nada que a ajudasse na biblioteca da escola, nem na do município; semanas depois seu júbilo pelo material encontrado na internet (anotada com desânimos posteriores ao não conseguir reproduzir o que era descrito); nem telefonemas a parentes no interior do Ceará a ajudara a aclarar as coisas (a bronca da mãe com o valor da conta telefônica tornara essa alternativa inviável).

Mas prosseguira. Elaborara um intrincado esquema em que procurava relacionar dois fatos aparentemente distintos e sem nenhuma ligação óbvia implicando em um resultado inesperado. Prendia na parede do quarto fotos e ilustrações sobre uma pessoa, objeto ou evento e conectava-os por meio de linhas de costura; queria entender os nós que se formavam naquela teia de aranha. Mas esse método - para alívio da mãe, já preocupada com o estado mental da filha - logo foi preterido ao simples desenho sobre cartolina quando uma imensa, grotesca e kafkiana barata emergiu certa noite por de trás de uma das fotos coladas à parte. (Nota: o Gregor Samsa paulistano, quem quer que fosse, não teve maior oportunidade de longas divagações existenciais, imediatamente esmigalhado que foi por um chinelo de borracha.)

Iara tornara-se muito boa em detectar padrões - ainda que, na maioria das vezes, falsos padrões ou que ainda não se descobriram como verdadeiramente verdadeiros. Surpreendia professores ao conectar fatos históricos como a Revolução Francesa e a Americana com a Inconfidência Mineira (relação bastante conhecida no meio dos historiadores, mas, por algum motivo, totalmente ignorado por seus professores de história e de geografia). Pontes similares eram construídas entre conceitos matemáticos: por um tempo, Iara cultivara o péssimo hábito de atormentar seus parentes, amigos e até o dono da padaria com jogos numéricos para adivinhar que macacos não viviam na Dinamarca (ou algo assim), que sua colega Tayanne pensara no número 12, que o aniversário do seu Juca era no dia de Santo Inácio...

Um dia seu professor de física Dulcídio Barrabraz contou a história de Gilbert Walker - do ponto de vista de Iara era menos a história de Walker do que de sua equipe na Índia, a processar um número gigantesco de dados sobre a atmosfera e os oceanos em inúmeros pontos do mundo - talvez o primeiro supercomputador humano do mundo. De repente, as linhas de algodão e traços de hidrográfica na cartolina agora eram as linhas no gráfico; os nós conectando as linhas eram números de índices de correlação. As possibilidades cintilavam na cabeça de Iara, que quase explodiu. Um novo mundo se lhe abria.

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As plantas secavam. A terra, ressequida, crepitava e rachava. Os olhos miravam a desolação da estiagem prolongada. A má administração pelas autoridades da água dos reservatórios fizera sumir o precioso líquido. Um fluido inodor e insípido saída das torneiras - mas a densidade era de um milésimo da que deveria ser: ar no lugar da água. Os vizinhos de bairro voltavam-se esperançosos para Iara Ribeiro - já formada em Meteorologia. Ela sabia. Ela diria quando viria a chuva.

Iara fugiu para a casa de uma tia-avó em Fortaleza.

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Esta é uma obra de coincidência, qualquer realidade com a semelhança é mera ficção.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Kátia Abreu, a lexicografista, redefine latifúndio

A Senadora Kátia Abreu, agora ministra da Agricultura, depois de redefinir ruralista, agora quer mudar o significado de latifúndio.

Em entrevista à jornalista da Folha de São Paulo, Mônica Bergamo, a ministra disse que no nosso Brasil varonil não há mais latifúndios.

Com a devida vênia, vamos ao que diz a lei 4.505/1964 (Estatuto de Terra):
Art. 4°
"V - 'Latifúndio', o imóvel rural que:
a) exceda a dimensão máxima fixada na forma do artigo 46, § 1°, alínea b, desta Lei, tendo-se em vista as condições ecológicas, sistemas agrícolas regionais e o fim a que se destine;

b) não excedendo o limite referido na alínea anterior, e tendo área igual ou superior à dimensão do módulo de propriedade rural, seja mantido inexplorado em relação às possibilidades físicas, econômicas e sociais do meio, com fins especulativos, ou seja deficiente ou inadequadamente explorado, de modo a vedar-lhe a inclusão no conceito de empresa rural."

Art. 46.  § 1°, alínea b
b) dos limites máximos permitidos de áreas dos imóveis rurais, os quais não excederão a seiscentas vezes o módulo médio da propriedade rural nem a seiscentas vezes a área média dos imóveis rurais, na respectiva zona;"

Pra não existir mais latifúndio no Brasil, *dois* fatos devem ser verdadeiros *ao mesmo tempo*:
1) No Brasil não há mais propriedades rurais com mais de 600 módulos médios nem 600 vezes a área média das propriedades rurais da região;
2) No Brasil não há mais propriedades improdutivas.

Entre 2003 e 2010, segundo levantamento do Incra, órgão responsável por avaliar a função social da terra, a improdutividade *aumentou*, bem como a concentração de propriedades rurais. Teria a tendência se revertido durante a primeira gestão da presidenta Dilma Rousseff? Ainda mais a ponto de eliminar as grandes propriedades rurais e/ou improdutivas? Em 2010, eram cerca de 130 mil grandes propriedades rurais com área média de cerca de 2.400 ha, destes, 40% eram classificados como improdutivos.

O tamanho do módulo varia de 5 a 110 ha. A média no Brasil é de 60 ha. Qualquer propriedade rural com 66.000 ha ou mais com certeza seria um latifúndio por extensão. Abaixo uma pequena amostra, nem de longe exaustiva de propriedades que podem ser consideradas latifúndios por extensão (não necessariamente por produtividade).

278 mil ha. Paracajá-PA.
252 mil ha. São Miguel do Araguaia-GO.
170 mil ha. Manicoré-AM.
170 mil ha. Casa Nova-BA.
150 mil ha. Belém-PA.
143 mil ha. Tarauacá-AC.
122 mil ha. Feijó-AC.
117 mil ha. Poconé-MT.
112 mil ha. Canto do Buriti-PI.
103 mil ha. Itiquira-MT.
100.532 ha. Cocalinho-MT.
101 mil ha. Itiquira-MT.
94 mil ha. Aripuana-MT.
85 mil ha. Bom Jesus-PI
72 mil ha. Abreulândia-TO.
66.658 ha. Regeneração-PI.

Ou seja, tanto há tanto propriedades que são latifúndios por produção quanto há por extensão.

Então, para a nossa ministra dizer que não há mais latifúndio no país, ela precisaria redefinir pra algo como: "propriedade com mais de 8,5 milhões de km2 ou que produz menos de 100 milhões de toneladas de grãos por safra".

E o que tem potencial de dar mais problemas do que já há, o diagnóstico dos conflitos indígenas da senadora é: "os índios saíram da floresta e passaram a descer nas áreas de produção". Ela simplesmente inverte a realidade histórica e diz que são os índios que invadem as propriedades dos produtores rurais e não que produtores rurais (nem sempre de boa-fé; nem sempre de má-fé) apropriaram-se territórios indígenas tradicionais (a rigor, todo o Brasil é território indígena tradicional, mas diz a nossa Constituição em seu art. 231 "§ 1º - São terras tradicionalmente ocupadas pelos índios as por eles habitadas em caráter permanente, as utilizadas para suas atividades produtivas, as imprescindíveis à preservação dos recursos ambientais necessários a seu bem-estar e as necessárias a sua reprodução física e cultural, segundo seus usos, costumes e tradições.".)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

#aldorebelofacts Conheça os projetos do futuro novo ministro de CT&I

A depender das posições já manifestadas pelo atual Ministro dos Esportes e futuro Ministro de Ciência, Tecnologia e Inovação (cuidado! contém paywall poroso), deputado Aldo Rebelo, podemos projetar algumas mudanças que implementará à frente do MCTI.
Obs. Novas propostas serão acrescentadas futuramente.
*Upideite(24/dez/2014): adido a esta data.
**Upideite(26/dez/2014): adido a esta data.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Analfabetismo Miojal

Quando até fazer *miojo* é visto como algo que deve ser paulofreirizado, começo a entender receita de miojo em redação do ENEM...

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Sério, pra ensinar a fazer miojo é preciso ressignificar o miojo na vida cotidiana das pessoas... Provavelmente também tem que eliciar questionamentos a respeito da organização social que permite que se obtenha o miojo nas vendinhas e a questão da distribuição de renda que impede que todos tenham acesso ao miojo. Claro, na transdisciplinaridade, discutir o teor de sódio e calorias vazias do produto e as implicações sobre a medicalização na sociedade contemporânea.

Imagino que pra ensinar a fazer miojo *de verdade* tenha que ser assim, então:
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Miojo 101: Introdução Epistemológica e Funcional da Miojocidade na Sociedade Pós-Industrial Ocidental, uma Análise Pós-Conceitual da Ritmicidade Neocapitalista
NATUREZA. Semestral. PERÍODO. 16° semestre.
PRÉ-REQUISITOS. História dos Alimentos 4; Sociologia 6; Cálculo 2; Séries e Equações Diferenciais 2; Termodinâmica 2; Engenharia de Materiais 1; Nutrologia Básica; Nutrologia Avançada; Fisiologia Humana 2; Operações Unitárias; Direito Romano 2; Psicologia e Psicopedagogia 4; Polímeros 3; Direito do Consumidor 2; Ecologia 4; Antropologia 4; Física 6; Tópicos Avançados de Cosmologia 2; Física Quântica 3; Geografia Humana 5; Economia Doméstica 3; Microeconomia 7; Microbiologia 3.
CARGA. 90h; TEÓRICA. 30h; PRÁTICA. 60h.
EMENTA. Preparo de macarrão instantâneo no ambiente doméstico. Variações de preparo do macarrão instantâneo no ambiente doméstico. História do preparo do macarrão instantâneo. Saquinho ou cup noodles? Possíveis aplicações comerciais de habilidades de preparo de macarrão instantâneo. Problematização do preparo do macarrão instantâneo. Avaliação organoléptica do produto do preparo do macarrão instantâneo no ambiente doméstico. Relações familiares e o preparo do macarrão instantâneo. Tópicos atuais do preparo do macarrão instantâneo.
AVALIAÇÃO. 4 testes discursivos (peso 3); prova prática 1 (peso 5); prova prática 2 (peso 5).
PRESENÇA MÍNIMA OBRIGATÓRIA. 75%.
NOTA MÍNIMA PARA APROVAÇÃO. 7.
BIBLIOGRAFIA OBRIGATÓRIA.
Caldwel. 2002. The Taste of Nationalism: Food Politics in Postsocialist Moscow. DOI: 10.1080/0014184022000031185;
Choo et al. 2008. Too Hot to Handle—Instant Noodle Burns in Children. DOI: 10.1097/BCR.0b013e31816679d0;
Crosbi et al. 1999. Starch and Protein Quality Requirements of Japanese Alkaline Noodles (Ramen) DOI: 10.1094/CCHEM.1999.76.3.328;
Deleuze. 1953. Empirisme et subjectivité.
Foucault. 1975. Surveiller et punir.
Kushner. 2014. Slurp! A Social and Culinary History of Ramen -
Japan’s Favorite Noodle Soup. ISBN: 978 90 04 26927 9;
Lee & Lee. 2003. Frequency of Instant Noodle (Ramyeon) Intake and Food Value Recognition, and their Relationship to Blood Lipid Levels of Male Adolescents in Rural Area. Korean J Community Nutr. 2003 Aug;8(4):485-494.;
Lee et al. 2008. Major Dietary Patterns and Their Associations with Socio-Demographic, Psychological and Physical Factors Among Generally Healthy Korean Middle-Aged Women. Korean J Community Nutr. 2008 Jun;13(3):439-452;
Marx. 1867. Das Kapital.
Okada & Ihida. 1968. Studies on the Storage of Instant Ramen (Fried Chinese Noodle) Part II. 日本食品工業学会誌;
Wang et al. 2011. Effect of phosphate salts on the Korean non-fried instant noodle quality. DOI: 10.1016/j.jcs.2011.09.008;
Xu. 2012. The plasticizer crisis affects on instant noodle packaging materials.
OBS. Esta disciplina é pré-requisito para Miojo 102.
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Upideite(28/nov/2014):
*Upideite(29/11/2014): Acrescentei um print que havia me escapado - mas que não muda o contexto da troca de comentários. É o que começa com: "agora vejamos o exemplo do Roberto Takata sobre a aula simples".

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Lama de perfuração

Escrevi alhures em 16/nov/2014:
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"Estadão 14/nov/2014: 'Nos depoimentos, os delatores do esquema - que esperam ter suas penas reduzidas após colaboração com a Justiça - disseram que o cartel das empreiteiras funciona ao menos desde os anos 1990 fraudando contratos. Entre elas, havia um grupo de VIPs, supostamente formado por Odebrecht, UTC, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez e OAS, que tinha maior poder de 'persuasão' para ficar com os melhores contratos.'

Anos 1990 pegam: Collor, Itamar, FHC...

Naturalmente é preciso ainda investigar. Mas, sem surpresas, parece ser um esquema antigo que já rolava na Petrobras (e certamente deve rolar em outras estatais também - federais e estaduais).
Parece, sim, que políticos do PT estão implicados - novamente é coisa de investigar e punir em havendo comprovação de culpa - e o fato de continuar a operar nos governos PT é censurável.

A conotação política dada pela oposição e pela situação faz parte. Só fica complicada a indignação seletiva. Não acho que FHC tenha culpa direta no cartório, mas teria a mesma culpa indireta que Dilma e Lula têm. (A favor de Rousseff o fato de o esquema ter sido descoberto por investigação durante seu governo.)

Não tem ninguém que possa apontar o dedo para o outro como vestal. Respinga em todos - com maior ou menor intensidade (repito, só as investigações poderão mostrar).

É um processo de depuração. Pra mim, revela menos a deterioração de nosso sistema do que o inverso: mostra a capacidade que desenvolvemos como nação e país de detectar e punir os malfeitos. É um feito quase histórico que os corruptores - que não são sardinhas no oceano - terem sido enquadrados.

Não é uma vitória do governo ou da oposição. É uma vitória do país. É uma vitória nossa. E é goooool da Alem... não, é do Brasil, sil, sil."
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Hoje, 21/nov/2014, outro tucano diz basicamente a mesma coisa na Folha:
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"Nossa empresa deixou de vender equipamentos para a Petrobras nos anos 70. Era impossível vender diretamente sem propina. Tentamos de novo nos anos 80, 90 e até recentemente. Em 40 anos de persistentes tentativas, nada feito.

Não há no mundo dos negócios quem não saiba disso. Nem qualquer um dos 86 mil honrados funcionários que nada ganham com a bandalheira da cúpula.

Os porcentuais caíram, foi só isso que mudou. Até em Paris sabia-se dos 'cochons des dix pour cent', os porquinhos que cobravam 10% por fora sobre a totalidade de importação de barris de petróleo em décadas passadas.
[...]
Não sendo petista, e sim tucano, com ficha orgulhosamente assinada por Franco Montoro, Mário Covas, José Serra e FHC, sinto-me à vontade para constatar que essa onda de prisões de executivos é um passo histórico para este país.

É ingênuo quem acha que poderia ter acontecido com qualquer presidente. Com bandalheiras vastamente maiores, nunca a Polícia Federal teria tido autonomia para prender corruptos cujos tentáculos levam ao próprio governo.
[...]
Mas Dilma agora lidera a todos nós, e preside o país num momento de muito orgulho e esperança. Deixemos de ser hipócritas e reconheçamos que estamos a andar à frente, e velozmente, neste quesito.

A coisa não para na Petrobras. Há dezenas de outras estatais com esqueletos parecidos no armário. É raro ganhar uma concessão ou construir uma estrada sem os tentáculos sórdidos das empresas bandidas.

O que muitos não sabem é que é igualmente difícil vender para muitas montadoras e incontáveis multinacionais sem antes dar propina para o diretor de compras.

É lógico que a defesa desses executivos presos vão entrar novamente com habeas corpus, vários deles serão soltos, mas o susto e o passo à frente está dado. Daqui não se volta atrás como país.
[...]"
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sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Má Criação

O ex-presidente da CDMH da Câmara aprontou mais uma e protocolou um projeto de lei, PL 8.099/2014, que torna obrigatório o ensino do criacionismo nas aulas de ciências em todo o país nas escolas públicas e privadas.

Ele chupou o deputado estadual paranaense Artagão Junior que já havia apresentado em 2007 (PL 594/200714) na Assembleia Legislativa do Paraná - e reapresentou este ano (PL 30/2014).

Seguramente, as criaturas sabem que é inconstitucional. Se fazem isso só pra agradar a suas bases ou só pra torrar a paciência dos cidadãos que não seguem suas religiões, eu não sei dizer.

Mas a velha estratégia do duplo padrão. Querem contrabandear o criacionismo para dentro das aulas de ciências com base em argumentos supostamente científicos e religiosos: se se argumenta que religião não deve ser ensinada em aulas de ciências, dizem que é sob a óptica científica de hipótese da diversidade dos seres vivos; se se argumenta que uma teoria já demonstrada falsa não deve ser ensinada em aulas de ciências, dizem que é discriminação religiosa (e que crença religiosa não deve ser alvo de escrutínio científico).

Alguém que diz professar a religião de Cristo deveria se envergonhar de adotar estratégia tão insidiosa e de má-fé, de deturpação e de mentira.

Veja mais em:
DNA Cético: Nunca é demais repetir: criacionismo não é alternativa ao ensino da evolução.
Ceticismo: Mais um projeto de lei para disseminar Criacionismo nas escolas.
Maurício Tuffani: Projeto criacionista de Feliciano é um monumento à ignorância.*
                          Design Inteligente rejeita criacionismo em aulas de ciências**
Dicas de Ciência: Professores, muita atenção!***

*Upideite(15/nov/2014): adido a esta data.
Upideite(17/nov/2014): outra proposição na Câmara dos Deputados com tentativa de introduzir o criacionismo nas escolas públicas - em aulas de ciência ou de história - foi a INC 5.078/2005 do deputado Milton Cardias, do PTB-RS.
**Upideite(17/nov/2014): adido a esta data.
Upideite(25/nov/2014): A Associação Brasileira de Ensino de Biologia (SBEnBio) e a Associação Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências (Abrapec) lançaram uma carta aberta em conjunto contra o PL.
Upideite(26/nov/2014): A Sociedade Brasileira de Física também se manifestou contra.
Upideite(05/dez/2014): A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência publicou carta contrária ao projeto.
***Upideite(26/dez/2014): adido a esta data.
Upideite(05/mar/2014): O Conselho Federal de Biologia também repudia o projeto.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Aumentou o número de miseráveis no Brasil?

Além da polêmica de retenção da divulgação da pesquisa do Ipea para depois das eleições (uma ação, sim, censurável), com a disponibilização dos dados o foco agora é que a miséria no Brasil teria parado de cair e, pior, teria aumentado - ainda que pouco.

Pegando os dados desde o ano 2003, fazendo uma regressão por uma curva exponencial, temos um ótimo ajuste: R2 = 0,97 (Figura 1).

Figura 1. Evolução do número de miseráveis no Brasil. Fonte: Ipea.


Usando o ajuste exponencial, temos a seguinte tabela (Tabela 1) de diferença entre os valores esperados pela curva e os valores calculados pela metodologia Ipea:

Tabela 1. Evolução do número de miseráveis no Brasil. Fonte: Ipea.
Ano Ipea Previsão Diferença %
2003 26,24 24,77 1,47 5,93
2004 23,58 22,51 1,07 4,77
2005 20,89 20,45 0,44 2,15
2006 17,32 18,58 -1,26 -6,79
2007 16,50 16,88 -0,38 -2,27
2008 14,03 15,34 -1,31 -8,54
2009 13,60 13,94 -0,34 -2,42
2011 11,77 11,51 0,26 2,29
2012 10,08 10,45 -0,37 -3,58
2013 10,45 9,50 -0,95 10,01
Ipea: Dados calculados pelo Ipea (em milhões);
Previsão: Dados calculados pela curva de ajuste (em milhões).

Para α=0,05 e n=8, o valor crítico de t=2,306. t(diferença) = 1,05 e t(%)=2,18. Nos dois casos, não se rejeita a hipótese nula de que a variação seja fruto do acaso.

Não quer dizer que não se deva preocupar com as questões sociais e econômicas e que não se deva atentar para as políticas que levam à redução da miséria. Ela pode, sim, aumentar diante de um quadro econômico ruim de baixo crescimento e uma inflação relativamente alta e persistente.

De todo modo, esse fato parece ter despertado a preocupação social em várias pessoas - inclusive as que estavam reclamando durante o período eleitoral do Bolsa Família e que o governo federal dava mais atenção aos pobres do que à classe média...