segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Hemiálogo sobre Dois Principais Sistemas Econômicos do Mundo

Pensando em escrever uma pequena peça teatral. o diálogo é absolutamente inventado e qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

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Cena 1.
Simplício Inocêncio pra mostrar como estatal é uma porcaria:
"Cara, o aeroporto de Madri-Barajas, que é privado, é tudo de bom. Não é essa porcaria administrada pela Infraero."

Salviati Scholar:
"O aeroporto de Madri-Barajas é público. Administrado por uma estatal espanhola, Aena."

Simplício Inocêncio:
"Ah, é da Aena? Então é uma porcaria. Eu ouvi muitas reclamações sobre o aeroporto."

Salviati Scholar:
"Vc não disse que o aeroporto era tudo de bom?"

Simplício Inocêncio pega de seu amuleto mágico e convoca os espíritos protetores de sua fé:
"Frágicos máficos! Frágicos máficos!"

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Cena 2.
Simplício Inocêncio pra demonstrar que a concorrência gera redução de preços em automóveis:
"Qdo vieram os chineses, os preços dos carros começaram a cair."

Salviati Scholar:
"Peguei a variação anual dos preços dos automóveis. Se a concorrência houvesse afetado os preços, deveria haver redução nos modelos com preços mais parecidos com os modelos chineses. Mas não é isso o que ocorre."

Simplício Inocêncio pega de seu amuleto mágico e convoca os espíritos protetores de sua fé:
"Frágicos máficos! Frágicos máficos!"

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Cena 3.
Simplício Inocêncio pra provar que o liberalismo econômico é superior:
"O Chile tem os melhores índices sociais da América Latina. Muito à frente dos outros."

Salviati Scholar:
"Na verdade, em diversos indicadores Cuba é muito próximo ao Chile. E em alguns até o supera. Por exemplo, em mortalidade infantil, Cuba tem uma taxa inferior a 5 crianças com menos de um ano que morre a cada 1.000 nascidas vivas; o Chile tem um bom indicador, na faixa de 7 mortes."

Simplício Inocêncio:
"Cuba é uma ditadura. Esses dados são manipulados."

Salviati Scholar:
"São dados produzidos pela CIA, que não morre de amores pelo regime ditatorial castrista."

Simplício Inocêncio pega de seu amuleto mágico e convoca os espíritos protetores de sua fé:
"Frágicos máficos! Frágicos máficos!"

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Cena 4.
Simplício Inocêncio pra demonstrar a superioridade do liberalismo econômico:
"Chile teve um crescimento econômico espetacular depois que adotou o liberalismo."

Salviati Scholar:
"O crescimento foi bem errático e é difícil de creditá-lo de todo a políticas econômico-liberais. Veja este gráfico do crescimento. Houve períodos anteriores de crescimento contínuo mais vigoroso. E veja que durante o governo Pinochet o crescimento caiu bastante em um dado momento."
Fonte: Paul Krugman 2010, Fantasies of the Chicago Boys.

Simplício Inocêncio pega de seu amuleto mágico e convoca os espíritos protetores de sua fé:
"Frágicos máficos! Frágicos máficos! Vade retro Krugman!"

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Cena 5.
Simplício Inocêncio para demonstrar a superioridade do liberalismo econômico:
"Veja a Coreia do Sul (ufa! achei um país que não é o Chile), cresceu muito mais do que a Coreia do Norte."

Salviati Scholar:
"Verdade. Mas veja este estudo que mostra como o crescimento da República da Coreia foi bastante influenciado pelo grande aporte de investimento estatal, sobretudo em educação. Além disso, se compararmos a República da Coreia com a China... a China cresceu muito mais sendo socialista. Ou vejamos o caso da Rússia. Temos este estudo aqui que mostra como a União Soviética cresceu mais do que a a Rússia pós-soviética."


Simplício Inocêncio:
"Isso porque a Rússia foi atrapalhada durante o período socialista. Os efeitos deletérios são duradouros e demora pra serem sanados."

Salviati Scholar:
"Há estes outros gráficos do crescimento de países que emergiram do bloco socialista europeu: veja como há países que cresceram mais sob o regime socialista, outros que cresceram menos e outros que cresceram mais ou menos igual. No longo prazo, em média, não há muita diferença na taxa de crescimento. Sua explicação de herança maldita não se aplica uma vez que o que temos após a saída do socialismo é um crescimento oscilante e não um crescimento que acelera à medida que o tempo passa. E veja o caso de Cuba, podemos comparar neste gráfico o crescimento antes e depois da instalação do socialismo, há um ligeiro incremento na taxa de crescimento de Cuba, mas o que ocorre de mais visível é que as oscilações do crescimento que havia antes são bastante reduzidas."


Simplício Inocêncio:
"Claro que cresce mais, fácil ir pro socialismo - só distribuir a renda que havia antes."

Salviati Scholar:
"Note que o crescimento da União Soviética mostrado no gráfico se refere a um período bem posterior à Revolução Russa. E podemos comparar neste outro gráfico o crescimento dos EUA no mesmo período."

Simplício Inocênio:
"Claro que o crescimento dos EUA caiu, como é que vai crescer no período de crise?"

Salviati Scholar:
"Bem, se crescesse não haveria crise nenhuma, né? Um período de crise econômica é DEFINIDO quando a taxa de crescimento cai. De todo modo veja como a Rússia no mesmo período cresceu de modo contínuo."

Simplício Inocêncio pega de seu amuleto mágico e convoca os espíritos protetores de sua fé:
"Frágicos máficos! Frágicos máficos!"

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Cena 6.
Simplício Inocêncio:
"Prove que a economia socialista é melhor do que a economia liberal."

Salviati Scholar:
"Não é esse o meu ponto de vista. O que eu digo é que os dois sistemas são igualmente (in)eficientes."

Simplício Inocêncio:
"Arrá! Admitiu que a economia socialista é ineficiente!"

Salviati Scholar:
"Sim. Assim como a economia liberal é ineficiente."

Simplício Inocêncio:
"Ah é? E as empresas privatizadas? Elas se tornaram mais eficiente."

Salviati Scholar:
"Algumas sim. Outras não. Veja estes estudos que mostram que em alguns casos as privatizações melhoraram o serviço, em outros não alteraram a qualidade e em outras situações pioraram a qualidade."

Simplício Inocênio:
"Ah, mas a Vale melhorou muito depois da privatização, enquanto a Petrobras com essa intervenção estatal piorou muito."

Salviati Scholar:
"De fato a Vale cresceu bastante e se valorizou. No entanto, a Petrobras está muito bem também. Veja este gráfico, a Petrobras, em termos absolutos, valorizou-se muito mais do que a Vale."


Simplício Inocêncio:
"Ah, mas as ações da Petrobras se desvalorizaram depois que a reserva do pré-sal foi descoberta. Como você explica isso?"

Salviati Scholar:
"Oscilações são típicas de mercados de capitais, ainda mais a curto prazo. Mas é impossível determinar as causas exatas da queda ou da subida de ações no mais das vezes. Geralmente a explicação dada é apenas especulação."

Simplício Inocêncio:
"Mas as estatais geraram grandes dívidas antes das privatizações."

Salviati Scholar:
"Não duvido disso. Mas isso não é pela natureza de estatal, e sim pelo modo como é gerida."

Simplício Inocêncio:
"Ah, então admite que as privatizações foram benéficas!"

Salviati Scholar:
"Como disse antes, os estudos mostram que há privatizações que tiveram efeitos bons e há privatizações que tiveram efeitos ruins."

Simplício Inocêncio:
"Mas empresas privadas ruins quebram. Estatais ficam pesando no bolso de todo mundo."

Salviati Scholar:
"Verdade que empresas estatais ruins pesam no bolso do contribuinte. Mas empresas privadas ruins também acabam pesando: impostos devidos, salários atrasados, fornecedores e financiadores caloteados, acionistas prejudicados... Isso acaba fazendo com que governos intervenham, como no caso da GM."

Simplício Inocêncio:
"Mas a GM é um caso isolado. Dezenas de empresas já quebraram."

Salviati Scholar:
"Sim, várias empresas já quebraram. Assim como dezenas de estatais já foram desativadas. Nos dois casos, elas têm efeitos no bolso da população proporcionais ao tamanho das empresas."

Simplício Inocêncio pega de seu amuleto mágico e convoca os espíritos protetores de sua fé:
"Frágicos máficos! Frágicos máficos! Você deveria ler mais sobre liberalismo econômico e não basear sua argumentação em simples artigos publicados em revistas científicas que refutam o que estou dizendo."

Simplício Inocêncio exit.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Provocações (futebolísticas) e preconceitos

Já toquei no assunto antes. Mas volto ao tema. Reproduzo um diálogo que tive no twitter:
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DB: Residência de técnico Leão é assaltada; bandidos fogem... http://uol.com/bycpwr // A velha rivalidade Tricolor X Corinthians!
Eu: Freguesia, não rivalidade.
DB: Deu mole = vocês roubam, dentro e fora do campo. Que coisa!
Eu: Dar é com o 5PFW mesmo.
DB: Não tenho nenhum problema com relação a isso. Nunca fui homofóbico. Você é?
Eu: Eu sou emofóbico.
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Como dito antes, sim, sou homofóbico, não, não me orgulho disso. De todo modo, isso não tem a ver com homofobia. Tem a ver com preconceito? Sim. Há alguma manifestação de preconceito. Mas não é uma manifestação que pretenda ser ofensiva, mas galhofeira.

Uma das fontes do humor é a da antítese ou contradição: como a recorrente piada de elefante com medo de um camundongo em desenhos animados; outra é do exagero: como os traços extremados de uma caricatura.

As provocações do futebol são invariavelmente de natureza preconceituosa. Ou não há um preconceito social embutido em se chamar corintianos de bandidos? O que fica subentendido é que todo corintiano é pobre e todo pobre é bandido. E, claro, que ser bandido é algo ruim. Mas o que opera aí é o humor por contradição: não é nem de longe verdade que todo corintiano seja bandido (nem que todo bandido seja corintiano). E também o humor por exagero: muitos corintianos são, de fato, pessoas com condições socioeconômicas mais baixas (mas a proporção de corintianos não varia entre as diferentes classes sociais).

Todo preconceito deve ser varrido do mapa? Talvez. O pensamento *real* de que ser guei é ruim ou o pensamento *real* de que ser pobre é o mesmo que ser bandido deve ter sua manifestação condenada. A brincadeira com essas ideias, uma falsa manifestação desse tipo de pensamento também deve ser censurada? Eu, por enquanto, tendo a achar que isso seria um exagero.

A minha visão é de que boa parte da graça de se torcer por um time de futebol é galhofar com os adversários. Provocar e ser provocado. E, disse acima, todas as provocações futebolísticas envolvem algum preconceito: sofredor, freguês, maricas, ladrão, sujo, pobre... Entre as regras não escritas nesse jogo fora das quatro linhas está: se você quer poder provocar alguém, tem que aceitar ser provocado (bem, agora está escrita).

sábado, 21 de janeiro de 2012

Sheldrake no blogue do Nassif

Nassif reproduz em seu blogue trecho de entrevista de Rupert Sheldrake dada à revista Episteme do grupo de História e Filosofia das Ciências da UFRGS: "Como Sheldrake desafiou os consensos científicos".

Acabei de enviar o comentário abaixo.
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Não é desafio, não é heresia. É simplesmente trabalho mal-feito. Os poucos trabalhos publicados (em revistas científicas) por Sheldrake nessa área que supostamente desafiaria os conhecimentos científicos estabelecidos são de pouca validade: quando há, os controles das variáveis são pobres (lembro de um estudo em que ele sugeria que um processo de fusão nuclear a frio ocorreria no interior dos organismos de pintainhos por se desenvolverem em um ambiente teoricamente sem suplementação de cálcio; mas não reconheceu a possibilidade de contaminação das fontes* - mais ou menos o mesmo tipo de problema que pode ter ocorrido naquela história de bactérias que usam arsênio).

Sua hipótese dos campos mórficos não se sustenta pela simples constatação de que, se lançarmos uma moeda, há uma chance de mais ou menos 50% de dar cara. Se campos mórficos funcionassem do modo como Sheldrake afirma que funciona, há muito tempo a jogada de moeda teria que ter se consolidado a dar 100% uma das faces em específico. Afinal, os tais campos mórficos, para Sheldrake, teriam fixado a estrutura organizada dos cristais a partir de um processo inicialmente caótico e casual: as poucas vezes em que cristais se formavam no início moldariam o campo mórfico que aumentaria o número de novos cristais que modificariam o campo mórfico até que toda vez a estrutura cristalina se estabelecesse. Em lançamento de moedas também há flutuações casuais que levariam a um maior número de uma das faces do que de outra. Se existissem campos mórficos, isso mudaria a probabilidade do resultado do lançamento. Ao fim, isso levaria a apenas um dos lados ser o resultado de qualquer lançamento de moeda.

Sabemos que isso não ocorre, logo, a hipótese de campos mórficos é refutada.

Essa cultura da iconoclastia não é necessariamente má. Mas a iconoclastia pela iconoclastia sem uma argumentação sólida baseada em fatos (e não em interpretações desviantes de experimentos mal planejados e mal executados) é criticável.

Qualquer pessoa pode contestar o que a ciência (ou outro estabelecimento) diz. A questão não é contestar, mas apresentar os dados que sustentam sua contestação.

Einstein não é Einstein somente por desdizer o que Newton disse sobre tempo e espaços absolutos. Einstein é Einstein por suas predições terem se confirmado - como os dados do eclipse em Sobral e o ajustamento da órbita do planeta Mercúrio.

Sheldrake desdiz o que a ciência diz. E daí? Suas previsões se confirmam? As moedas dizem que não. E não é lance de sorte.

[]s,

Roberto Takata

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*Pois é, Sheldrake considera a hipótese de fusão a frio biológica mais plausível do que contaminação de nutrientes.

Upideite(22/jan/2012): Mais algumas respostas minhas a comentários postados no blogue.
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@superperplexo

Sim, Sheldrake é cientista. Não muda o fato de que muitos dos experimentos que ele faz é mal-feito: não controla bem variáveis interferentes. Diga-se de passagem, que não é um problema exclusivo de Sheldrake. Mesmo cientistas conceituados, como Linus Pauling e Luc Montagnier (dois nobelistas, com méritos) caem nessas armadilhas para dar sustenta [sic, deveria ser 'para dar sustento a'] suas pet ideas - respectivamente, megadosagem de vitamina C na prevenção de cânceres e homeopatia.

Desafiar modelos mentais predominantes (predominantes apenas no mainstream científico, na população em geral, o que predomina são as visões misticoides como de Sheldrake, Goswami, Capra e outros) qualquer um pode fazer. O que é necessário é ter fatos que sustentem o desafio, do contrário é apenas bazófia.

As perguntas sobre a natureza das ciências, dos processos científicos, do conhecimento científico, de seu papel no empoderamento social de certos grupos, etc... é relevante para muito além da discussão a respeito da contribuição de indivíduos como Sheldrake. Mas, qualquer que seja a definição dada, não irá diminuir o ponto que, sem fatos que apoiem uma dada hipótese, sem dados que confirmem uma dada previsão, é tudo questão de gogó.

O respeito que a sociedade dá ao conhecimento científico advém do fato de que ele funciona. Aplicando-se as teorias científicas, suas predições são acertadas: dimensionamos o sistema elétrico de acordo com as leis da eletricidade (p.e., U = Ri), usinas nucleares valem-se da famosa equação einsteniana (E = mc^2), melhoristas genéticos valem-se do conhecimento de como funciona a herança genética e assim por diante.

O teoria que Sheldrake nos propõe falha miseravelmente quando testada. E é isso o que importa aqui.

[]s,

Roberto Takata

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@Erly Ricci

Em nenhum momento debati a questão mofogênica. Se o fizesse, provavelmente, eu usaria um pedaço de pão e o deixaria guardado em um local úmido e escuro.

O que apresentei foi o resultado das moedas como contestação aos campos mórficos. Embora vagamente baseado nos campos morfogenéticos da biologia do desenvolvimento, os campos mórficos não se resumem a eles (vale dizer que há uma explicação bem elaborada e testada sobre campos morfogenéticos a partir de padrões de expressão de genes controladores do desenvolvimento).

Para Sheldrake, os campos mórficos explicam desde a morfogênese embrionária à formação de novas estruturas culturais, passando pela formação de cristais, galáxias e basicamente qualquer estrutura - física ou lógica - do universo. O paradigma dos campos mórficos é o do efeito do centésimo macaco: (a história é mais uma lenda urbana do que um fato real) um macaco em uma ilha aprendeu a lavar batatas em água salgada antes de comê-la[s], lentamente alguns outros macacos, observando o primeiro macaco, também passaram a lavar os alimentos, quando atingiu-se um número crítico (neste caso, 100 indivíduos), instantaneamente todos os macacos da ilha passaram a fazer o mesmo (mesmo os que jamais observaram esse comportamento antes). (A parte real da história é que há mesmo alguns macacos selvagens japoneses que lavam batatas na água salgada, mas jamais foi observado o tal efeito do centésimo macaco.) Para Sheldrake, o primeiro macaco modificou ligeiramente o campo mórfico correspondente ao comportamento de preparo de alimentos dessa população de macacos, aumentando a facilidade com que outros macacos aprendessem o novo comportamento, qdo novos macacos aprenderam, o campo mórfico modificou-se mais, facilitando ainda mais que mais macacos aprendessem; atingindo o limiar, o campo mórfico estaria firmemente conformado (estaria em ressonância) para esse novo comportamento - então todos os demais seriam afetado pela nova configuração do campo mórfico e passariam a exibir o novo comportamento.

Como disse no meu primeiro comentário, isso vale também para a formação de cristais - por que, digamos, o diamante tem a configuração tetraédrica invariante? Para Sheldrake, foi porque de início, os átomos de carbono se organizavam caoticamente. Mas alguns se organizaram casualmente em formato tetraédrico. Isso alterou o campo mórfico da rede cristalina do diamante e o processo seguiu como no modelo do centésimo macaco.

Oras, o mesmo princípio aplicar-se-ia no resultado de lançamento de moedas. Campos mórficos monetários assim determinariam e assim funcionariam. Mas não funcionam.

E não apenas lançamentos de moedas não funcionam assim. Não há casos conhecidos de transmissão de características somáticas adquiridas; se induzirmos a formação de falhas na rede cristalina do diamante, isso não fará com essa falha seja reproduzida em outros eventos de cristalização.

Em outras palavras, campos mórficos são uma hipótese firmemente refutada. Insistir neles, sem um embasamento factual, é um ato [que] não se constitui em um desafio real ao conhecimento científico, muito menos aos processos científicos.

[]s,

Roberto Takata

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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Construtora Carapaó e Patrimar Engenharia notificam blogue para remover postagem sobre ela

A construtora Carapaó e a Patrimar Engenharia* notificaram extrajudicialmente o blog da kikacastro em razão de uma postagem que critica o loteamento de uma área destinada à preservação ambiental.

Pede a remoção do texto, não apenas do blogue em questão, mas também de outro que reproduziu-o - e que não está sob gerência dos autores do blog da kikacastro.

*Upideite(23/ja/2012): Adido a esta data, conforme atualização da postagem no blog da kikacastro.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O estrupo* no BBB12

Esse alvoroço a respeito da cena na cama entre dois integrantes do Big Brother Brasil 12 tem trazido alguns aspectos muito perigosos na argumentação.

Acertadamente, vários já criticaram as barbaridades machistas da justificação de um estupro de vulnerável e, mais amplamente, de violência contra as mulheres. Do outro lado, há a alegação de que há racismo na acusação.

Outro ponto deplorável é a condenação prévia, a execração pública de um fato não esclarecido. Houve mesmo estupro?

Os capítulos I (artigos 213 a 216A) e II (artigos 217 a 218B) do Título VI do Código Penal versam sobre os crimes sexuais. Antes de mais nada é preciso que se estabeleça que tenha havido sexo (conjunção carnal) ou ato libidinoso (como manipulação de partes íntimas). O vídeo mostra movimentação sob o edredon, mas isso é apenas sugestivo. Não sabemos o que houve. O acusado diz que houve apenas beijos (visíveis no vídeo) e passada de mão (a depender de onde poderia ser caracterizado ato libidinoso, mas a própria virtual vítima diz que isso foi feito reciprocamente).

Aparentemente não houve violência ou grave ameaça, então o artigo 213 (estupro) não se aplicaria. Não houve aparentemente fraude ou uso proposital de meio que dificultasse ou impedisse a livre manifestação da vontade da vítima, assim, o artigo 215 (violência sexual mediante fraude) também não se aplicaria. Não se trata de assédio sexual por não envolver relações de hierarquia de cargo (artigo 216A). Os artigos 214, 216, 217 estão revogados.

O 218 (corrupção de menores) não é o caso por não se tratar de menor de 14 anos. O 218A não se aplica por não envolver sexo na presença de menor de 14 anos. O 218B (favorecimento de exploração sexual de vulnerável) também não por não ser caso de prostituição, nem de menor de 18 anos.

Restaria o 217A, caso tenha havido sexo ou ato libidinoso não consensual. O artigo (estupro de vulnerável) prevê os seguintes casos: sexo com menor de 14 anos (não é o caso), enfermidade (não é o caso), deficiência mental (não é o caso) ou alguma outra causa em que a vítima não possa oferecer resistência - seria o álcool.

Pelos trechos publicados das falas da suposta vítima, se houve sexo, não foi consensual. Porém, mesmo que tenha havido sexo não consensual, pode ser o caso de não se tratar de estupro de vulnerável se o perpetrador do ato também estivesse sob influência alcoólica que houvesse diminuído sua capacidade de discernimento - a menos que o uso do álcool para a facilitação da prática do sexo tivesse sido intencional (o que não é o caso - a bebida foi ingerida durante festa promovida pela produção do programa).

Diz o Código Penal em seu artigo 28, inciso II:
"Art. 28 - Não excluem a imputabilidade penal:
II - a embriaguez, voluntária ou culposa, pelo álcool ou substância de efeitos análogos.
§ 1º - É isento de pena o agente que, por embriaguez completa, proveniente de caso fortuito ou força maior, era, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento.
§ 2º - A pena pode ser reduzida de um a dois terços, se o agente, por embriaguez, proveniente de caso fortuito ou força maior, não possuía, ao tempo da ação ou da omissão, a plena capacidade de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento."

Ou seja, não sabemos nem ao menos se houve agressão. E, se houve, é possível que o acusado seja inimputável.

Um crime, no entanto, que pode ter ocorrido é o de calúnia (art. 138), caso o acusado não venha a ser condenado em decisão de corte transitada em julgado, por parte dos que saíram a gritar: "estuprador". Claro que o estupro é um crime terrível e se entende, por isso, a comoção, mas o código penal exclui paixão e emoção como desculpas para crimes (art. 28, inc. I) - incluindo os de calúnia e injúria.

Que o caso seja devidamente investigado e apurado. E, *se* se houver cometido crime, que o(s) responsáveis seja(m) devidamente punido(s).

O que não posso deixar de notar, porém, é a estranhíssima atitude da Rede Globo. Na edição de segundadomingo, nada foi dito a não ser "o amor é lindo" pelo apresentador Pedro Bial, após a exibição editada das cenas polêmicas. Na terçasegunda-feira a produção do programa decidiu por expulsar o participante acusado por "grave comportamento inadequado".

"Lindo" é um tanto antitético em relação a "grave e inadequado", não obstante, o que pega é a produção afirmar que "[d]esde domingo de manhã, a direção avalia o comportamento de Daniel, suspeito de ter infringido as regras do programa". As questões são:

1) por que os participantes e o público não foram avisados, então, que havia um participante sob observação?
2) por que os participantes não foram isolados - se havia potencial de comportamento inadequado grave, não haveria risco na exposição dos demais?
3) a Globo, ao perceber o potencial do problema, deu à participante, suposta vítima, todas as informações necessárias para que ela pudesse dar os necessários esclarecimentos? (Isto é, foi mostrado o video à participante para que ela pudesse dizer até onde as ações foram consentidas e a partir de que momento - se houve algum - deixaram de ser?)
4) a Globo acha adequado dizer apenas que se trata de um "grave comportamento inadequado", deixando a suspeição de algo realmente grave (crime de estupro de vulnerável) sobre uma pessoa?


*Obs: Existe, sim, na língua portuguesa a palavra 'estrupo', mas com o significado de 'tumulto, ruído, alvoroço'.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

PM na USP 2012

Folha: PM saca arma e agride aluno dentro da USP

O que tenho a comentar.
1) Que silêncio comprometedor esse da Reitoria da USP. Odioso silêncio.
2) Espero mesmo que isso não se torne uma escalada. É mais do que natural que o episódio aumente o sentimento de revolta em uma parte significativa dos alunos da USP. Que o comando da PM dê ordens explícitas aos policiais atuantes na universidade para não alimentarem os ânimos ainda mais (se bem que parece que nem o governador, nem o comando da polícia parecem ter lá muita ideia do que ocorre na corporação).

Defensoria Púbica de SP entra no caso Spunch

A Defensoria Pública do Estado de São Paulo recomendou à Cereser que retirasse do mercado a bebida Spunch fabricada em parceria com a Disney.

Por enquanto não se trata de uma ação judicial, o que deve ocorrer caso a empresa não atenda à recomendação da DP-SP.

Tratei do caso Spunch aqui no NAQ: Disney ensinando a beber? e Cereser fala sobre Spunch.

Aproveito para publicar mais uma troca de email que continuou a primeira resposta da Cereser.
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From: rmtakata@xxx
To: sac@cereser.com.br
Subject: RE: Resposta Cereser
Date: Mon, 5 Sep 2011 19:02:41 -0300

Prezados Senhores,

Obrigado pelos esclarecimentos. Gostaria de tirar algumas dúvidas que surgiram.
*Em quais países europeus são comercializados bebidas como o Spunch? (E quais os nomes desses produtos?)
*Não seria melhor se a embalagem fosse distinta na forma da dos espumantes? O formato da garrafa bem como o sistema de rolha com arame remetem diretamente à bebida alcoólica.
*O produto em si também se comporta como o espumante: o estouro seguido de jorro com bastante espuma.
*Há estabelecimentos oferecendo o produto na seção de bebidas alcoólicas. A Cereser tem algum controle a esse respeito?
Agradeço mais uma vez a atenção.

Cordialmente,
Roberto Takata
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Ao que responder à época:
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From: sac@cereser.com.br
To: rmtakata@xxx
Subject: Resposta Cereser
Date: Thu, 8 Sep 2011 12:03:11 -0300

Prezado senhor Roberto Takata, boa tarde!

Em resposta às suas questões:

1. França e Espanha são os principais países que comercializam este tipo de produto. Vários outros países do Leste Europeu contam com esta versão.
2. A pergunta já foi explicada na resposta anterior, a proposta do produto foi pesquisada junto a consumidores, o arame (gabieta) também cumpre a função de requerer a presença de um adulto para a abertura do produto e reflete nossa preocupação com o manuseio adequado.
3. O volume de gás é similiar ao utilizado pelas principais marcas de refrigerante do país. Vale destacar que o uso de embalagem que acondicionam diferentes produtos é totalmente normal no mercado de bebidas, por exemplo, a mesma lata de alumínio é utilizada para cerveja, refrigerante e suco, o mesmo ocorrendo com a garrafa de 600ml que também é utilizada por fabricantes de refrigerantes da mesma forma que para cerveja, sem que isto caracterize qualquer tipo de estímulo ao consumo de bebidas alcoólicas por crianças.
4. Temos uma equipe de promotores nas principais lojas de supermercados do Brasil cuidado da exposição correta do produto. Em todos nossos treinamentos isto é previsto de forma que nossa força de vendas informa este ponto a todos os nossos clientes. Além disto temos outras ações em andamento que atendem diretamente esta orientação. A exposição dos produtos em qualquer loja de varejo é de responsabilidade do próprio
local.

Atenciosamente,

Cereser - Departamento de Marketing
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